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Quinta-feira, 28/12/2017
Os Doze Trabalhos de Mónika. 6. Nas Asas da Panair
Heloisa Pait

Leia a primeira aventura de Mónika, À Beira do Abismo.

– Quem vai, então?

Mónika buscou a todos com o olhar para ver se entendia a quê o aviador estava convidando.

– Puxa, Helmut, – disse um colega – hoje minha mulher marcou um almoço com toda a família dela. Vou te contar, viu.

– Adorei a idéia, – respondeu uma recém-doutora, prestes a se aposentar – olha que coisa bacana, mas não dá mesmo, tem reunião do conselho.

As negativas se sucediam mas Mónika não sabia a quê. Perguntou. Era como fazia sempre, ia perguntando.

– Ir aonde, Helmut?

– Vou voar. Sobrou gasolina no avião do Cavaletti, grande amigo lá da época da instrução, e ele me emprestou para uma volta.

– Mas teu brevê tá em ordem? – Mónika sempre checando o mundo.

– Claro que está. Vou deixar vencer? De modo algum. Voar não me tiram.

Helmut tinha sido piloto da Varig. Fazia pesquisas, dava aulas, era professor. Mas nunca ia deixar de ser piloto da Varig, que era mais que uma empresa aérea, era uma escola, uma missão.

– Posso ir? – perguntou nossa heroína. Mas fez-se um certo silêncio.

Mónika tinha chegado no Brasil, pasmem, de Varig. Não era fácil, naquela época, simplesmente sair do país, ainda mais com a família toda, inclusive os avós. Os pais de Mónika pensaram então num plano incrível. Compraram as passagens mais caras do vôo inaugural de Budapest da ambiciosa companhia paraestatal brasileira. E se apresentaram serenos no aeroporto, repleto de autoridades de ambos os países. Viajavam com o tanto certo de bagagem: nem muita que parecesse uma imigração, nem pouca que sugerisse uma fuga. Levaram também o pequeno cãozinho da família, o que era expressamente proibido e distraiu os burocratas da infração maior, transpor a cortina de ferro.

Imaginem agora a pequena Mónika, chorosa pela perda do cão, dos amigos, de tudo o que ela então conhecia, sendo recebida pelas afetuosas aeromoças da Varig e pelo comandante que veio pessoalmente, até falando umas palavras de húngaro, cumprimentar todos os passageiros da primeira classe, feitos na maioria de gordos burocratas e generais nacionais! Foi dentro daquele avião que Mónika primeiro entendeu que amaria seu novo país. Também foi naquele vôo, tendo se tornado mascote provisório dos afáveis militares brasileiros, em suas fardas verde-oliva, que percebeu que nunca o entenderia completamente.

Voltemos pois a Ambaíba, onde Mónika implorava o passeio aéreo.

O aviador hesitou. Não queria voar com ela. Respondeu, sem esconder a concessão, jogando o pulso para cima:

– Vamos lá, então! Leve só sua carteira e vamos.

Ia voar com o Helmut. Seu jeito direto, sem floreios, a deixava tranquila. Mónika não precisava ficar adivinhando o que ele pensava e ele, por sua vez, não estava nem aí para o que Mónika pensasse, ao contrário dos colegas, intimidados com os estudos esotéricos de nossa heroína.

Quem comanda um Boeing com 300 passageiros a bordo teme coisas de verdade, gelo na asa, terrorista ou pane no motor. Não intriga acadêmica. Seu braço esquerdo pendente, com músculos levemente atrofiados por uma paralisia que teve na infância, também o lembrava dos inimigos reais dos homens: a morte, e a doença. Continuava voando não por coragem, mas para não esquecer o que é ter medo.

Enfim, moreno, meio cigano, era impossível não olhar para ele, seus gestos, o braço bom gesticulando expressivo, como se para compensar o outro, os olhos azuis atrás de sobrancelhas muito pretas. Pensava no pai, talvez cigano também, como é que saberia? Como é que saberia de onde os homens vinham?

Foram em silêncio para o hangar. Ele descreveu a rota e informou o que ela devia fazer e o que não devia durante o vôo, como se ela fosse um novo copiloto. Ela fez que entendeu, mas não prestava atenção. Só pensava, um pouco como criança mesmo, que estava do lado do aviador! Que incrível.

Aí ele se desligou de tudo, concentrou-se nos controles, em botar o troço no ar. Sentia-se bem. Até melhor que antes, quando era trabalho, responsabilidade, formação, dedicação. Agora voava. A cidade, as plantações, os conjuntos habitacionais, os desmanches. Condomínios fechados. As estradas, ligando o país, ladeadas por acampamentos de lona. Uma represa. Voava. As imensas ravinas que circundavam a cidade. Viu a geografia particular de Ambaíba de um ângulo espetacular, onde o platô se projetava cortando uma ravina ao meio, como um ferro de passar roupa. Lembrou que havia ao lado alguém para quem mostrar, deu um pequeno soco com a palma da mão na coxa da Mónika e apontou para a ravina cindida.

Ela se assustou. Também tinha esquecido que estava ao lado do aviador. Via de cima a cidade, via o mesmo que ele. Via o campus ali pequeno, à beira do precipício, via o horizonte ali longe, mais longe. E, sim, via a ravina cortada, quis perguntar se ele já tinha ido lá embaixo, o barulho era grande, apenas assentiu com o rosto. Era hora de voltar, tinham conhecido a cidade juntos. Ele ainda deu um rasante pelo campus, riu, se divertia. Ela riu também, cada uma. E aí voltaram de vez.

Ele foi se despregando do assento, cintos, luvas, óculos, quando foi descer ela estava parada. Parada não, sacolejava. Helmut não sabia se ela ria, chorava, se tinha uma convulsão. Ela se virou para explicar, não conseguiu dizer nada, voltou a olhar para baixo. Estava chorando. Se fosse sua mulher – mãe, esposa ou filha – ele ia abraçá-la e dizer que estava tudo bem, que seja lá o que fosse, não era nada. Mas não era mulher sua. Não era de ninguém. Só podia esperar passar.

Perguntou-se se tinha feito algo errado, dito algo que a ofendesse. Não. Tinha certeza que não. Apaixonada ela não estava, e se estivesse também, não era problema seu, pensou de modo técnico, como se verificasse um equipamento. Mas não era isso também. Era que tinha sido um passeio bonito. A terra era bonita. Que terra bonita que era.

– Que bonita que é essa terra, não? – ele disse.

– Bonita demais – ela concordou. – Demais. – E aí derramou um choro normal, que foi passando, até secar.

E o passeio terminou.

Está no ar a sétima aventura de Mónika, Um Senador da República.

Esta é uma obra de ficção; qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência

Heloisa Pait
São Paulo, 28/12/2017

 

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