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Terça-feira, 3/10/2017
Manchester à beira-mar, um filme para se guardar
Renato Alessandro dos Santos

Em meio ao arrastão de filmes que temos à disposição, de acesso tão fácil quanto retomar o caminho para chegar em casa, Manchester à beira mar é um exemplo cada vez mais raro daquele tipo de cinema que tão bem faz à alma da gente, quando, semanas depois, no chuveiro ou no passeio, o filme ainda fica a cutucar o cocoruto.

A primeira surpresa é a de que a história não se passa na Manchester que se espera, mas sim em uma cidadezinha de mesmo nome, nos Estados Unidos, perto de Boston, à beira-mar, claro. Nunca imaginei que ela existisse, e a história que o filme conta é a de Lee Chandler, um homem comum, turrão, que vive amargurado, estúpido menos por natureza do que por circunstâncias do destino; a vida é um moinho corcunda, um peso às costas, que ele carrega consigo como os fios de cabelo, mas só porque estão ali.

Quando as coisas se complicam, a gente já entendeu que ele é o apátrida, o indesejado de si; à esquerda, um zero. O celular toca, e as más notícias levam-no à cidade da qual fugiu, Manchester à beira-mar. Voltar para lá significa trazer o passado ao presente, e é aí que o papel interpretado por Irmão Affleck serve a ele como uma luva, ou uma rede depois de uma feijoada, e Casey Affleck, de atuação milimetricamente contida, dá um show, à parte, porque Lucas Hedges, ator que representa seu sobrinho, atua de forma igualmente brilhante, compondo um personagem de gestos e de expressões concisos, que não deveriam ser diferentes, e por isso ele também merecia o Oscar de ator coadjuvante ao qual foi indicado, mas que foi parar sobre a geladeira de Maheshala Ali, de Moonlight, sob a luz do luar.



Com o timing da história e a atuação dos atores ajustados, chegam detalhes que vão surpreendendo o espectador; um deles, uma cena de cemitério: em um dia sombrio, com pessoas reunidas ao redor de um caixão, a câmera mira por poucos segundos a lápide do túmulo; ali, a inscrição de três nomes, um pai, uma mãe e um filho, e, numa composição geométrica de arrepiar, um espaço em branco, à espera. Não fosse o cinema mais bem-vindo, seria literatura.

Mas não fica só nisso; o ritmo ajuda, as coisas acontecendo naturalmente, como têm de ser, um pôr do sol em movimento, a aura desaparecendo mais uma vez, e o que há por trás do personagem de Irmão Affleck, escondido natimorto lá nos fundilhos de seu passado, é de não se desejar nem ao inimigo pior.

Em E.T.: o extraterrestre (1982), Spielberg coloca a câmera na altura de uma criança de 10 anos; em On the Road (1957), Sal Paradise enche de fatias de salame vários pães, preparando-se para a viagem que o levará, como uma bolinha de gude, a cortar os EUA de um lado a outro; Kenneth Lonergan, diretor de Manchester à beira mar, deixa a história rolar como se ela contasse a si mesma, sem pressa, sem sobressaltos; é a vida fluindo embaixo do nariz da gente, que nem uma turbina de avião que, no fundo, é só um ventilador ligado.

É uma obra-prima do nosso tempo, recém-saída do forno. Uma obra-prima. Ponto de exclamação.

Renato Alessandro dos Santos é editor do site tertuliaonline.com.br

Renato Alessandro dos Santos
Batatais, 3/10/2017

 

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