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Quinta-feira, 14/12/2017
A vida dos pardais e outros esquisitos pássaros
Elisa Andrade Buzzo

Como vivem, esse grupo de passarinhos fazendo sua toalete dominical num estacionamento nos fundos da parede de uns prédios, numa poça de água marrom suspensa numa depressão do piso de lajotas mal colocadas.

Que bem se entretêm nesse recanto ensolarado, em que moram com raro requinte habitantes empoleirados, pulando nesse raso veio de água já suja, tremelicando as penas, remexendo-se insatisfeitos e festeiros naquele instante, nem com os carros e reles passantes se assustando.

Entre as mesas ao ar livre, lá está um outro grupo de pequenos pardais, a percorrê-las, mendigando com sua figura amável farelos de trigo branco, metendo entre o bico um grande pedaço macio de massa esquecido no chão da lanchonete, voando para a laje próxima, adaptados aos esconderijos nas construções humanas.

No Terreiro do Paço, uma gaivota branca está deitada no cimo em esfera da coluna à direita, no cais, vê-se por baixo seu penacho traseiro empinado, o bico se abre num bocejo para o claro horizonte azul do Tejo, e os turistas perpassam pelo musgo verde-escuro nos degraus na maré baixa.

Enquanto em terra um gato toma sol, recostado nos escombros de tijolos, lixo e vidro num dos galpões abandonados de antigas fábricas na Expo, no ar um grupo de pássaros revoa em bando, indo e vindo, a parada de ônibus esperançosa na demora que cega os olhos na direção do nascente sol e do rio.

E as gaivotas, que por vezes ultrapassam os limites da margem próxima, pairam como setas suaves enregeladas no turbilhão da avenida Marechal Gomes da Costa, sobrepondo estranho agouro de turvo grito, bico e mordidas em toda esta cidade.

Elisa Andrade Buzzo
Lisboa, 14/12/2017

 

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