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Quinta-feira, 15/3/2018
Minha plantinha de estimação
Elisa Andrade Buzzo

Quando aqui cheguei, ela já era moradora com raízes fincadas, situadas num pequeno vaso dentro de um aquário de vidro. Dele, saíam-lhe galhinhos de um leve verde, de estrias engraçadas e felpudas como patas dóceis de uma aranha vegetal. E havia folhas, estas verde-escuras, planas, alisadas, amoldando-se ao cruel formato de boca arredondada e estreita de sua limitada morada. Uma vareta sustentava o caule, preso por uma pequena piranha de cabelo, que eu ajustava periodicamente para que ela não pendesse totalmente ao peso de seu crescimento.

Estávamos sozinhas e juntas. Não sabia eu como alimentá-la da melhor forma. Também não quis perguntar, não busquei orientações, nem lhe sabia o nome, nada. Apenas dois seres vivos incomunicáveis respirando do mesmo ar, tomando do mesmo sol, sorvendo a mesma umidade, bebendo da mesma água, seivando ao nosso modo silencioso e discreto. À noite, nossas respirações se uniam num compasso de espera da manhã próxima, em que eu furtivamente e com dificuldade a abandonava rumo a aventuras próximas, enquanto ela iniciava a fotossíntese, maravilhoso processo do qual eu permanecia alijada. Escondida de mim ela o fazia, talvez para não me fazer sentir inferior diante de seus admiráveis dotes de sobrevivência no planeta.

Mentiria se dissesse que nela prestasse muita atenção de início. Quantas vezes quando dela me lembrava o fundo do aquário se entrava completamente seco, marcado por manchas de água evaporada ou mesmo sugada. Ainda, mudei-a de lugar; por quê? Não tenho uma resposta consciente, julguei apenas que ela não se sentisse cômoda o suficiente em cima da mesa, que eu e ela necessitávamos de outros espaços, mudanças quaisquer de ângulo, acesso diverso ao mundo lá fora. Então foi deixada no chão, mas não de qualquer jeito, ajeitosamente disposta ao lado da parede de vidro, podendo observar o sul do bairro, estender suas células prescrutadoras ao amanhecer, entardecer e anoitecer, quem sabe os únicos eventos que lhe façam sentido.

Talvez ainda sentisse que ela merecesse estar o mais perto possível de onde deveria estar: o chão, a terra, garras fincadas na natureza. Alguns de seus pequenos galhos secaram complemente, sugerindo uma contraposição entre os tenros galhos aracnídeos e a palha de bicho-pau desses membros mortos. Estaria ela prestes a morrer, já teria ela morrido, sendo aos poucos transformada em secura? Seria um crime irresponsável matar uma planta por falta de cuidados. O contrário aconteceu, alguma forma de vida milagrosa, de continuidade de frescura trabalhava oculta no entrelaçado compacto de raízes dentro do vaso. Eu a levava até a pia da cozinha, e respingava água em suas folhas simulando um chuvisco brincalhão.

Inesperadamente surgiram bolinhas, várias, pendendo pesadas de dois galhos. Túrgidas, gordas, como mãos e pés delicados e aveludados de bebês. Nem vermelhos, nem vinhos, num tom de magenta imprevisível, compacta floração, tombando charmosas de seus pedúnculos lisos e limpos, prestes a explodir o gradativo segredo de articuláveis pétalas. Forma de vida, como a minha, aqui encontrada, terráquea, à minha entretecida; pois cuidado chama cuidado, vida chama vida, com surpresa em poucos dias, talvez em poucas horas, quem sabe em minutos, ou agora mesmo, ao deixar este texto e ao me prender nela e contemplar com olhos de lagarto este pedaço vegetal, como eu retirado de sua mãe-floresta, eu adivinhe suas partes encarnadas abertas, expectantes, trêmulas no ar parado da casa, com seus olhos recém-nascidos.

Elisa Andrade Buzzo
Lisboa, 15/3/2018

 

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