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Segunda-feira, 29/7/2002
Um cara legal
Eduardo Carvalho

Nick Hornby

Nick Hornby é um cara legal. Um escritor legal, aliás - o que é inaceitável. Escritor não pode ser legal. Não no Brasil, pelo menos, onde qualquer professor desocupado, se conseguir alinhar cinco frases coerentemente, pretende abalar um suposto conformismo político de burgueses alienados; e qualquer psicólogo estrangeiro, se souber escolher o título certo, convence multidões frustradas de que felicidade realmente existe. Porque quase todos os leitores, se não são acadêmicos mumificados, são secretárias deslumbradas. Ou seja: também são insuportavelmente chatos.

Eu não costumo acompanhar a crítica literária nacional, mas ouvi dizer que o novo livro de Hornby, Como ser legal, foi mal recebido por aqui. Evidente. Num posto de gasolina de beira de estrada, encontrei o livro de Hornby misturado com manuais de auto-ajuda. É isso: o critério de qualidade adotado pelos nossos críticos deve ser o mesmo usado pelo gerente de compras daquele posto: o título. Ler um livro de 300 páginas é trabalho demais, e esse método, tanto com os clientes do posto como entre leitores de cadernos culturais, tem funcionado. É mais fácil recorrer a frases prontas e análises flexíveis, que parecem adequadas a qualquer lançamento editorial. E que, invariavelmente, condenam um livro pelo mesmo erro que insistem em cometer: a pretensão de oferecer ao leitor algo mais do que uma trabalhada seqüência de clichês. No caso de Hornby, porém, o clichê não é o produto de sua literatura: ele é o principal instrumento de seu trabalho.

Hornby e Cusak, entre gravações de Alta Fidelidade Hornby conhece profundamente o universo em que seus personagens estão mergulhados - as músicas que ouvem, os filmes que assistem, os livros que lêem; ou ouviam, assistiam e liam, quando eram jovens e podiam dedicar tempo a isso. Ele é que se pode chamar, por falta de expressão melhor, de um erudito em cultura pop. Formado em Cambridge, antes de se estabelecer como escritor, Hornby queria ser roteirista de cinema; foi professor e jornalista; depois do sucesso de Alta Fidelidade, ele passou a colaborar freqüentemente com a revista New Yorker , escrevendo críticas de música pop. Hornby não se identifica com a imagem do escritor misantropo e pretensioso. É apaixonado por futebol, gosta de tomar cerveja e diz que é sociável demais para conseguir ficar trancado durante dois anos escrevendo um livro. E que, diferentemente de muitos escritores, prefere ser lido hoje a acreditar em um reconhecimento póstumo. Aliás, Hornby também não vê problema em ficar rico escrevendo livros. Quando perguntaram a ele se estava incomodado com o resultado do filme baseado em Um Grande Garoto(About a Boy), respondeu: "Eles me pagaram dois milhões de libras pela história. Era o que eu queria. Se fosse me incomodar, não venderia. E eles sempre me convidaram para opinar durante a produção, então seria injusto culpá-los agora pelas distorções. Se há alguma, a culpa é minha." Nick Hornby é um escritor que não é frustrado - e que, por isso, acaba sendo incomodamente sincero.

A narradora de Como ser legal, Kate Carr, é uma médica dedicada casada com David, um jornalista que escreve para o jornal do seu bairro uma coluna chamada "O homem mais irritado de Holloway". "Nossa história não tem nada de especial.", previne Kate, "(...) duas pessoas se conhecem, se apaixonam, têm filhos, começam a discutir, engordam e resmungam (ele), se entediam, se desesperam e resmungam (ela), e se separam." É mais ou menos verdade. Kate não suporta mais a rotina do seu casamento; ou melhor, da sua vida - e decide transformá-la pedindo o divórcio, com o qual, mesmo antes do casamento, ela já contava que fosse acontecer. David, desprevenido e ofendido, pede um tempo para que os dois pensem melhor e, quem sabe, se entendam melhor. E aí, de repente, a experiência dos Carr, de resto muito comum, começa a ficar peculiar: no meio da história, David conhece Boas Novas, um excêntrico ex-DJ que possui uma misteriosa capacidade de curar doenças, físicas e espirituais. E David se transforma completamente: de um jornalista azedo, que reclamava de velhinhas que nunca tinham trocado para pagar o ônibus, passa a ser o cara mais bonzinho do bairro, que convence vizinhos a acomodar meninos carentes em seus quartos desocupados.

Kate é o perfil exato daquela mulher de meia idade que acreditou no discurso da contracultura, quando jovem; leu uma meia dúzia de livros que seus amigos também liam; do fundo do coração, sempre quis ser boazinha, e decidiu ser médica por causa disso - mas quão fundo é o seu coração? Socialmente, é uma gracinha votar no Partido Trabalhista e apoiar discursos filantrópicos - mas será que Kate é realmente tão legal quanto ela pensa que é? Não - e esta conclusão é minha, não de Hornby. Kate sempre aderiu ao discurso politicamente correto, e não percebeu a distância entre ele e a verdadeira caridade. Uma imaginação benevolente não alivia um comportamento egoísta, e Kate devia saber disso. Mas não sabe. Sua aparente preocupação com a pobreza na África não compensa o fato de ela manter relações com um amante, e isso começa a incomodá-la.

David achava que era um gênio. Um gênio incompreendido, claro. A convivência com pessoas medíocres sempre eleva o conceito que gente ligeiramente acima da média tem de si mesma. David até tem idéias relativamente originais e engraçadas, se comparado a seus vizinhos. Mas, se fosse bom mesmo, escreveria para um jornal que, pelo menos, tivesse uma distribuição que alcançasse mais gente do que os mesmos vizinhos que ele critica. David é um escritor frustrado - até conhecer Boas Novas, e sua vida mudar completamente.

E David deixa de ser escritor e deixa de ser frustrado. Enquanto os Carr não decidem se se separam ou não, Boas Novas muda-se para a casa deles. A cozinha da casa do casal, que ainda tem dois filhos, se transforma no escritório em que David e Boas Novas elaboram seus projetos altruístas. O homem do qual Kate queria se separar muda completamente - e agora? Kate não sabe mais o que fazer, enquanto David está fanaticamente convencido de que, realizando seu trabalho beneficente, é um homem íntegro e feliz. Tudo que ele nunca quis ser - e que Kate sempre pensou que ela fosse.

Kate jamais poderia ter escrito o livro que Hornby escreveu em nome dela. Se fosse real, seu texto provavelmente seria ilegível. Hornby organizou suas inquietações esquizofrênicas com uma lucidez que a própria autora, se existisse, não seria capaz de atingir. Ou seja: as pessoas reais que sofrem de problemas semelhantes aos da autora fictícia não conseguem, normalmente, ser tão sinceras e tão profundas. E é aí que Hornby comprova que, mesmo com um enredo comum e personagens medíocres, é possível produzir uma literatura de qualidade.

De qualidade limitada, é claro. Se os aristocratas decadentes de Fitzgerald traduziam Joyce, a protagonista de Hornby assiste a Guerra nas Estrelas. Quando descobre que precisa de alguém para orientar sua vida, confessa: "Sei que é patético perceber isto num filme de ficção-científica infantil, e não na obra de George Eliot, Wordsworth ou Virginia Woolf. Mas aí é que está o cerne da questão, não é? Não tenho tempo nem energia para Virginia Woolf, e por isso sou obrigada a procurar sentido e reconforto nos vídeos de Guerra nas Estrelas do meu filho. Tenho que ser Luke Skywalker porque não sei mais quem ser." Quem nota que isso é patético é, na verdade, Hornby: Kate dificilmente teria consciência da limitação das suas referências, e da influência que elas têm na sua vida prática. Essa delicada elevação do nível da narradora é fundamental - ou então o livro poderia ter sido escrito por qualquer telespectadora de filmes B. Mas Hornby leu Virginia Woolf - e escreveu sobre quem não leu, para quem não tem saco para ler.

Não é preciso de saco para ler Nick Hornby.




Eduardo Carvalho
São Paulo, 29/7/2002

 

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