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Sexta-feira, 15/4/2005
4 anos de Colunismo
Julio Daio Borges

+ de 3200 Acessos

Numa certa época, virou praxe eu, anualmente, explicar de onde vinham e para onde iam os Colunistas do Digestivo Cultural. As mudanças eram constantes, as presenças, meteóricas e eu, culpado, me via na obrigação de esclarecer quem eram esses e quem eram aqueles outros, porque saíam e porque entravam, embora, no fundo, eu nunca soubesse direito — como não sei até hoje. Ainda bem.

De repente, porém, o time definitivo foi se formando de novo e as pessoas, para a minha alegria — e estupefação —, começaram a ficar: na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Assim, de tal sorte que, justo por eles serem tão presentes e tão constantes, desde, pelo menos, 2002-2004, não contei sua história como fiz com os demais — ou contei de maneira parcial. Não importa; vou contar agora.

Antes, gostaria de falar sobre como, para mim, eles são importantes — e de como, em algumas situações, eles foram mais do que importantes: eles foram fundamentais.

É muito difícil, muito difícil mesmo, ter um time afinado e, de certa maneira, entrosado. Pareço um técnico de futebol falando, mas essa analogia é válida. Canso de ver publicações onde, pelo que tenho lido, não existe a menor conversa, a menor combinação, entre editores e colaboradores. Aliás, quase sempre a coisa sai desconjuntada e não é querer me gabar, mas poucas revistas, jornais ou sites têm a unidade do Digestivo Cultural. Não só por minha causa, que tento, claro, dar uma alma à coisa, mas por conta deles que, sem que eu falasse, entenderam o negócio e se colocaram dando uma contribuição pessoal e coletiva ao mesmo tempo. Isso é raro; e é por isso que eu insisto tanto nesse troço de geração: sem geração, não tem unidade; e, sem unidade, pra quê juntar o povo? Mas estou divagando — como é praxe, no meu caso...

Embora não estejam presentes fisicamente (a nossa redação é evidentemente virtual), os Colunistas estão em muitos dos meus pensamentos. É deles os primeiros nomes que vejo quando abro o computador. Eles estão diariamente nas páginas do Digestivo Cultural. Em contrapartida, eu sinto calor humano vindo deles a cada texto que cadastram e me enviam. É, além de uma chance óbvia de eles se fazerem conhecer pelos Leitores do site, também uma espécie de investimento e de aposta nesse negócio que eu inventei lá atrás. Eles tiveram muitas chances de sair; eles pegaram, por exemplo, a explosão dos blogs — mas eles continuaram. E eu, particularmente, acredito que isso tem mais a ver com a nossa ligação do que com qualquer ganho profissional ou pecuniário. Então eu posso dizer que me apoiei neles, em diferentes momentos, e eles sabem, quando a coisa desandava ou quando o horizonte parecia mais negro do que o normal. Ainda que de maneira remota, nós vivemos uma experiência juntos, que ninguém, ou nada, apaga. Mas, claro, divago.

Vamos aos encontros; que é isso que vocês estão esperando...

A primeira dentre os Colunistas que estão aí até hoje foi, para quem não sabe, a Daniela Sandler. A Dani pegou a primeira dentição do Digestivo e eu conheci ela graças à minha namorada, a Carol. Foram colegas de FAU-USP e eu topava com a Dani nas festas e nas reuniões, que eram freqüentes ainda depois que todos haviam se formado. Eu a admirava porque ela escrevia na Folha e ela me admirava porque eu soltava aquelas colunas assinando J.D. Borges. A Dani, quando entrou no site, portanto, já era uma jornalista pronta — estava em Rochester e ficou felicíssima com o convite, lembro até hoje. Escreveu Colunas antológicas sobre os Estados Unidos e encabeçou um dos mais importantes Especiais do Digestivo Cultural, o "Terror nos EUA", sobre o 11 de Setembro.

Depois, com o primeiro e traumático racha do Digestivo, dividida, pediu para se afastar. Tentou alguns blogs (só conheci o último) e voltou, felizmente, há alguns anos, já em Berlim (hoje está em Riverside) — para a minha alegria e do Ricardo de Mattos, que é, declaradamente, seu fã. Eu invejo as Colunas meticulosas da Dani, sobre um filme, um livro, um evento, uma data — não importa; ninguém pesquisou como ela, para escrever um texto, no Digestivo Cultural. Ultimamente, trocamos longos e-mails sobre jornalismo... sobre nossas vidas — afinal, por causa da Carol, ela é "da família" (e vice-versa: a Carol é a arquiteta da família dela, a família Sandler). Enfim, estou, visivelmente, divagando.

A segunda Colunista desta lista — também foi uma mulher — foi a Adriana Baggio. Como eu já contei, a Adri bateu à porta, curiosa, observando o grupo dos primeiros Colunistas que se formava, e pediu para entrar. Fez alguns testes, os outros Colunistas avaliaram (que engraçado) e terminou aprovada. De lá pra cá, a Adri atravessou absolutamente todas as formações. Assistiu às brigas mais escabrosas, se viu atingida por detritos de flame wars, mas nunca parou de colaborar. Se não bastassem as qualidades todas da Adriana, ela é a pessoa mais longeva — tirando eu, é lógico — que já passou pelo site. São mais de 100 Colunas. Já pensou? Daria pra fazer um livro só dela(s)...

A Adri é extremamente versátil e já escreveu, praticamente, sobre tudo no Digestivo Cultural — embora seja, há anos, uma profissional da redação publicitária. Eu tenho o maior carinho pela Adri, desde, especialmente, uma vez que ouvi sua voz lá longe, em João Pessoa, falando como alguém fala em Curitiba (o maior barato). Foi uma das comprovações de que o Digestivo era, realmente, interestadual. Eu sinto falta de falar com a Adriana e de ver a Adriana (nós nos vimos duas vezes só). Na última, foi uma experiência tão rica, também com os outros Colunistas, que todos ficaram ansiando por uma outra oportunidade. Quando será? Espero que logo.

O terceiro Colunista foi homem, foi o Eduardo Carvalho. O Edu eu roubei da lista de e-mails do Daniel Piza, quando ele saiu, em 2000, da Gazeta para o Estadão. O Edu viu, então, germinar o Digestivo. Diz, inclusive, que foi influenciado pelos primeiros Colunistas — o que é incrível (o Digestivo fazendo escola e incorporando seu primeiro calouro). Minha relação com o Edu se confunde com a nossa amizade e é uma dificuldade, para mim, analisá-lo a frio. Teve um desenvolvimento, dentro do site, impressionante, como poucas vezes eu assisti nesta minha experiência de quase 5 anos (eu até já falei isso pra ele, aliás). Além de prodígio, se "genial" não fosse uma palavra tão gasta (e tão vulgarizada) é assim que eu classificaria o Eduardo.

O Edu é um dos maiores entusiastas do Digestivo no mundo real. Sempre tentou me sugerir saídas comerciais para o site. E muitas vezes, muitas vezes mesmo, me abriu portas. A troco de nada. Coisa pela qual lhe serei eternamente grato, e ele sabe. A ida do Digestivo para a revista da FGV, por exemplo, teve uma mão do Eduardo, que se formou lá e que colaborou, na GV-executivo, antes de nós. Hoje discordo do lado polemista do Edu — e ele, também, sabe —, então tento "profissionalizá-lo" cada vez mais. O jornalismo (além do Digestivo) e a literatura só teriam a ganhar.

O quarto é o Lucas Rodrigues Pires, o Lucão. Tão diferente do Edu que eles até brigaram no velho blog. Mas isso são águas passadas. O Lucas eu topei numa dessas cabines da vida, quando eu ainda ia e ele também. Sentamos na mesma mesa para beliscar uns comes&bebes e foi simpatia à primeira vista. Nunca vi ninguém tão apaixonado por cinema nacional e o Lucas, já na primeira Coluna, me impressionou. Era jornalista profissional. Escrevia para o Jornal do Vídeo, o qual também, de certa forma, editava — enquanto respirava cinema brasileiro nas horas vagas. Visava uma pós-graduação na área e se formava também em História.

Talvez por isso me criticou tanto quando eu desci o sarrafo no Lula em 2002. No telefone, me chamou de "reacionário" pra cima (ou pra baixo). Eu sinto falta das conversas com o Lucas (ele vai muito pouco aos nossos encontros). Tirou muitas das minhas dúvidas sobre jornalismo, quando eu era ainda um iniciante. Me indicou, por exemplo, as assessorias de todas as empresas de cinema no Brasil. E me contou de seus rolos. Demos muitas risadas. Lucão, quando você vai dar as caras?

O sexto — se é que não está ficando chata esta contagem — é o Ricardo de Mattos. Quando o Digestivo foi citado pelo Daniel Piza (ele, de novo) lá no Estadão, o Ricardo baixou na minha caixa postal com um texto inacreditável sobre livros. A propósito, embalou no esquema de resenhas, que eu montei, como ninguém. É o nosso crítico literário, consagrado e juramentado. Também advogado. Lá em Taubaté... Quando me ligava, parecia longe e eu imaginava um sujeito de uns 40, 50 anos, cercado de estantes por todos os lados.

Quando aportou aqui em São Paulo, para o nosso primeiro encontro, foi um assombro. Ninguém acreditou que tivesse menos de 30 anos. Apesar de a aparência confirmar — e conferir-lhe até bem menos idade. Talvez seja por causa da admiração do Ricardão pelo português de Portugal. Até pedi para ele maneirar, porque estava ficando muito arcaico (até o Polzonoff reclamou). Mas o Ricardo leva na boa e toureia, sabiamente, os fãs de Carlos Castañeda que, via Google, insistem em atacá-lo. É um sujeito doce e me emocionou seu amor pelos animais. Também seus apetites à mesa. Na próxima Flip, quer nos indicar alguns restaurantes em Parati. Ricardão, dentro de toda essa aparente carapaça, apoiou minhas Colunas mais esdrúxulas e eu nunca esqueço das suas mensagens.

Em seguida, veio o Fabio Silvestre Cardoso. O Fabio entrou no Digestivo pela porta de serviço, porque sistematicamente me detonava nos Comentários. No início, pensei que fosse um pseudônimo, de alguém que quisesse me derrubar (naquela época, havia várias pessoas). Como Tereza Batista, cansado de guerra, indaguei por curiosidade: "Quem é você, afinal?" E mandei um contragolpe: "[Já que vê tantos defeitos...] Não quer escrever [e me ajudar] no Digestivo Cultural?" Ele aceitou e se tornou um dos mais apegados colaboradores meus e do site. Quando estou fora, ele assume os controles. Você já percebeu alguma diferença? Nenhuma — porque não há. Às vezes penso que ele é o meu Billy Strayhorn: posso entregar a coisa de olhos fechados porque sei que ele vai estraçalhar. Se todo editor precisa de um sucessor, meu sucessor editorial é o Fabio. E ele sabe.

Também é prodígio e também é amigo pra caramba. Liga e divide um monte de impressões. Acompanha o jornalismo brasileiro — às vezes acho — melhor do que eu, e sempre sabe de quem estou falando, raramente se atrapalha. Que grande profissional o mercado está perdendo; e eu estou ganhando... Não vejo limites para o Fabio. Junto com o Eduardo, são as presenças mais constantes nos encontros do site. Que os três mosqueteiros permaneçam unidos nas próximas edições.

A Ana Elisa Ribeiro foi paixão (não amorosa: calma, Jorge; calma, Darling). A Ana E foi, desde o começo, uma presença inebriante — para todos nós. Em 2002, outro Lucas fez um trabalho de formatura, em jornalismo, citando o Digestivo. Ele estudava na Uni-BH e os estudantes de lá resolveram me mandar seu jornal para que eu opinasse. A opinião foi, mas nunca soube se chegou. Em compensação, encontrei a Ana E no tal jornal, no meio de um monte de poetas (ou autores) jovens. Ela era a única mulher, a única prosa que me chamou a atenção, e eu resolvi tascar uma mensagem. Embarcamos numa correspondência quilométrica, deve estar guardada.

Então a poeta me encaminhou seus livros. Vieram com um bilhete que me deixou embevecido — mais do que os livros. Eu pus junto com outros papéis de gente como o Rubem Fonseca (um telegrama que ele me mandou) e releio sempre que posso. Escrevo sobre ele agora... Logo em seguida, a Ana E engravidou. E eu acompanhei, como pude, à distância. Ela foi minha primeira grávida por eleição. E eu torci por ela, pelo Edu (seu Edu) e pelo Jorge. Hoje temos algumas pequenas discordâncias por conta de seu novo projeto editorial... Tcha-ram! Mas ela ainda mora no meu coração. Ah, contei uma vez pra ela do "Daio", e passou a me chamar de Juio, depois de Jui. Só ela pode, tá?

O Luis Eduardo Matta. É o maior figura que já passou pelo Digestivo Cultural. E brilhante. Insistia para que eu divulgasse seu site pessoal e seus livros. Ao contrário de quase todos nós, inéditos, era autor há um tempão. Nem fez faculdade. Desovou romances vários. Amigo do Rafael Lima, acompanhava o Digestivo há uma data. Propus-lhe o seguinte: em vez de eu falar dos seus livros — que tratam de um gênero sobre o qual eu não entendia nada, o suspense, o thriller — por que não escrevia ele algo para o Digestivo Cultural? Funcionou. E ele está aqui até hoje. Sorte nossa.

Seus primeiros artigos causaram frisson e aqui, em São Paulo, aguardávamos a vinda de sua grande personalidade. Ao contrário de sério, ele chegou gozando todo mundo. Ao contrário de embarcar em disputas infinitas, ele se converteu no sujeito mais bem-humorado do site. Uma peça. Inigualável. Também seu estilo — que, pelo menos, eu e a Andréa já copiamos: limpo, agradável, longilíneo. O LEM não sabe mas está ensinando um pessoal a escrever fácil. Que seus livros emplaquem; porque ele, certamente, tem toda uma literatura para nos legar.

Last but no least (a expressão aqui é inevitável), a Andréa Trompczynski. A Déa é novata na máfia, mas — tendo hoje 30 — aprendeu rapidinho. Rapidíssimo, eu diria. Avisei ela, quando me despejou textos do Canadá: "Você é 'o último' Colunista jovem que eu vou pegar. Não tenho mais tempo pra ensinar". Ameacei-a. Ela aceitou. E detonou todos nós. A Andréa já sabe o que não dá pra ensinar. O resto aprende. O resto é fácil. É o que eu falava pro Eduardo, que também caiu da cadeira com seus saltos de qualidade. Todo mundo caiu, aliás.

A Déa tem uma tensão interna que eu vi poucas vezes. Que eu vi no Eduardo, por exemplo. Então seus textos chegam como terremotos. Como maremotos. Tsunamis. Remexendo as suas entranhas, Leitor. E você não é mais o que era quando começou... E eu torço muito pela Déa, porque — pelo bem desse talento enorme — ela atravessou barras que eu não conheço nenhum ser humano que atravessou (intacto)... E ela torce por mim desde os primórdios; desde o Julio Neandertal do primeiro site. Ela me leu por inteiro — como poucas pessoas na Terra. Como eu, por exemplo. E me dá conselhos, e me dá retornos — inestimáveis. É uma amigona. E, ainda sem vê-la, já gosto do Juca e da Xófis — outros sobrinhos meus e do Digestivo Cultural.

Como você percebeu, ó Leitor, somos uma família. Eu sei que é clichê, mas eu não definiria de outra foram. De uma maneira ou de outra, participamos da vida uns dos outros. É saudável? É perigoso? É recomendável? Sei lá. Depois de algumas desilusões colunístico-amorosas, eu tinha muito medo de me envolver de novo... Mas aconteceu. Agora já foi. Agora eles já fazem parte. O Digestivo Cultural seria outra coisa sem essas pessoas. Eu seria outra coisa sem essas pessoas. Duvido muito que existam histórias similares em outros sites; em outros periódicos... É o nosso diferencial; e é, também, o nosso legado.

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