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Segunda-feira, 27/11/2006
Entrevista ao contrário
Julio Daio Borges

+ de 8700 Acessos

Silvia Mello – a entrevistadora – é formada em jornalismo pela Casper Líbero, também cursou quatro anos de psicologia na PUC e, atualmente, conclui um curso de especialização em Gestão de Projetos Culturais, pela Escola de Comunicação e Artes (ECA), da USP.

Esta entrevista – feita comigo, Editor do
Digestivo Cultural – servirá de suporte para a monografia de Silvia Mello sobre jornalismo cultural na internet. Nela, a entrevistadora me pergunta do jornalismo praticado em portais, sites e blogs; quer saber como lidamos, aqui, com o que chama de “linguagem multimídia”; quer, também, uma opinião minha acerca do desenvolvimento do texto, do áudio e do vídeo na Web; aproveito, ainda, e falo da rica relação entre Colaboradores e Leitores, no Digestivo; e, por último, entro nos nossos projetos futuros (sem deixar de contar, claro, um pouco de história...).

A entrevista é longa, um pouco técnica às vezes, mas, como pensei que pudesse interessar a mais pessoas, fica disponível no
site para você, Leitor. – JDB

1. Como você vê o jornalismo cultural praticado na internet hoje, por iniciativas brasileiras, considerando-se que temos os megaportais, como o UOL, que reservam espaço para entretenimento/cultura e usam de todas as tecnologias da Rede para divulgar a programação, como, por exemplo, a TV on-line (entrevistas com artistas, diretores, traillers de filmes e peças teatrais etc.); e temos alguns sites que discutem cultura com mais suporte teórico e bagagem, dando prioridade ao texto escrito?

Vou me ater aos dois exemplos que você citou.

Quanto aos portais, confesso que não gosto, em geral, do trabalho que eles fazem. Acho muito superficial, mais no sentido do “guia de fim de semana” – onde o leitor/ internauta encontra mais uma sinopse do que uma crítica ou até uma resenha. A “dica”, a meu ver, por mais que venha acompanhada de imagens, até de efeitos multimídia, não passa de informação bruta – já oferecida pelas assessorias de imprensa e pelos seus releases cada vez mais sofisticados. Para concluir, eu diria que o trabalho dos portais – por mais que envolva recursos tecnológicos – tem pouco mérito porque, na maioria das vezes, se reduz a transmutar a informação de um formato (release) a outro (Web). Pode ser feito hoje por qualquer estagiário – sem querer desmerecer aqui os estagiários –; não exige, digamos, um profissional e nem, muito menos, “fontes” ou alguma bagagem (dois dos maiores trunfos dos jornalistas experimentados...).

Quando aos sites, e até blogs, penso que – por mais que haja falhas – estão eles mais próximos daquele aspecto “humano” que o jornalismo cultural do tipo “industrial” (de jornais, revistas, rádios, televisões e portais) perdeu de uns tempos pra cá. Pois quando você lê a grande mídia falando de cultura, tem a nítida impressão de que não há “alguém” por trás (por mais que muitos dos textos sejam assinados). O processo anda tão “automatizado” nas redações do mainstream que ninguém mais se coloca numa matéria jornalística – a “impessoalidade” é levada até o limite. Como conseqüência, estão formando uma geração de zumbis, cuja única função é preencher burocraticamente as lacunas.

Na internet – sites e blogs –, começa que não há “espaço” a ser obrigatoriamente preenchido. As iniciativas, geralmente, não partem de jornalistas estabelecidos (só agora, muito recentemente, estão partindo)... De modo que o jornalismo – ou como se queira chamar esse fenômeno – é muito mais humano. Não segue, normalmente, as regras do manual de redação, às vezes não tem periodicidade fixa e tende a ser episódico – mas, no meu entender, é mais interessante por esses mesmos motivos. Até porque, naturalmente, se contrapõe ao jornalismo cultural da grande mídia, do qual todos já estamos fartos (inclusive os jornalistas...).

2. Nesse contexto, o que você, como criador do site, apontaria como as principais características que definem o perfil do Digestivo Cultural hoje, enquanto espaço de jornalismo cultural na internet?

O Digestivo começou como “alternativa”, agora é mídia estabelecida e a audiência sempre crescente indica que talvez venha a se tornar “grande mídia” um dia (espero que sem os defeitos da mesma...).

Como alternativa, o Digestivo foi formado por pessoas que estavam, obviamente, descontentes com a cobertura cultural de jornais, revistas, rádios, televisões, portais e até sites (não havia, ainda, os blogs). Assim, o Digestivo, nos seus textos, sempre se caracterizou por uma “pegada” bastante autoral (até problemática em alguns sentidos). E eu disse numa entrevista antiga que me interessava menos a “informação” (commodity; papel das agências de notícia) do que a “opinião”. Outro dia, até, um Leitor “me confirmou” – associando o Digestivo ao Blue Bus. E eu lembraria ainda que o No Mínimo foi, um dia, apenas No.: Notícia e Opinião. Do No. para o No Mínimo, a mudança foi justamente no sentido de tirar a parte “notícia” (as reportagens) e reforçar a parte “opinião” (as colunas e, mais recentemente, os blogs).

Como mídia estabelecida, o Digestivo talvez seja o maior exemplo, em língua portuguesa, de “jornalismo cultural colaborativo”. Aquelas primeiras pessoas, que acreditavam numa “alternativa” ao jornalismo de mainstream, não fundaram apenas um site mas disseminaram uma mentalidade que atraiu sempre novos Colaboradores, e o Digestivo cresceu em função disso. Nesse sentido, eu incluiria também os Leitores – porque muitos deles vieram e se tornaram efetivamente Colaboradores (às vezes, até, Colunistas) e porque a seção Comentários é, desde a sua criação no ano passado, a segunda mais acessada (há, desde então, mais Comentários do que textos publicados...).

No futuro (“grande mídia”?), o Digestivo talvez se expanda em novas direções (além das pautas estritamente culturais). Por mais surpreendente que isso soe, uma das Parcerias jornalísticas mais bem-sucedidas do Digestivo se deu com uma revista de business, da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, a GV-executivo. O que, de repente, indica que o “modelo de colaboração” do Digestivo pode se espraiar em outras direções...

3. Como o Digestivo trata a relação velocidade da informação versus conteúdo das matérias, que faz parte da natureza da internet?

Seria tolo se o Digestivo tentasse competir com a grande mídia em termos de “velocidade”, já que, desde os primórdios, esse é um ponto que o site sempre criticou no mainstream. Hoje temos uma seção mais “ágil”, digamos, que é o Blog – mas do site não parte nenhuma pressão desse tipo sobre os Colaboradores. Como todos nós (jornalistas) sabemos, quem pressiona são as assessorias de imprensa, que têm uma agenda de divulgação a cumprir etc. E é uma arte saber lidar com esse pessoal... Na disputas entre Colaboradores e assessores, eu pendo para o lado do Digestivo. Até porque, para ser “autoral”, o Colaborador precisa de tempo (não pode viver trabalhando contra o relógio...).

Assim, é muito difícil para o Digestivo dar alguma coisa a priori, apenas a titulo de “divulgação”. O incentivo sempre foi no sentido da apreciação crítica (por mais que o resultado, às vezes, seja uma “mera” resenha). Os livros são lidos, os espetáculos, assistidos, os CDs, ouvidos... Pessoalmente, não vejo muita graça em antecipar um evento que não aconteceu ou um produto que ainda não saiu. A não ser que o autor esteja diretamente envolvido, tenha outras fontes etc.

4. Qual o princípio adotado na construção dos textos do Digestivo, tratando-se de uma revista eletrônica? Há uma preocupação em praticar uma linguagem própria para internet?

Há e não há. Há, no sentido de que não podemos ignorar que estamos na internet; e não há, no sentido de que a linguagem que, originalmente, se atribui à internet é muito mais superficial do que a do Digestivo em todos estes anos...

No início – o site começou como uma Newsletter de Notas curtas (os chamados “Digestivos”) –, eu acreditava que a brevidade era quase uma regra na internet – e pratiquei esse formato de maneira incansável. Ao longo do tempo, os Colunistas e Ensaístas foram me mostrando que havia espaço para textos acima de 5 mil toques (4 laudas), acima de 10 mil toques (8 laudas) e hoje, até, acima de 15 mil toques (12 laudas). Na Web, o PDF já mostrou que a internet pode chegar até o livro, sim. Não que o internauta/ leitor vá ler tudo “na tela”, mas ele imprime e lê depois. Se for realmente bom, ele imprime mesmo – independente do tamanho. Eu, por exemplo, já imprimi livros inteiros. Sei que saí do escopo da nossa entrevista aqui, mas é aí que as editoras (de livros) vão precisar redefinir seu papel...

5. a) Qual o princípio que norteia a relação webwriter/designer na construção do Digestivo? b) Como veículo voltado à cultura, quais são as ações praticadas por profissionais dessas áreas para tornar o site visível?

A) No Digestivo, além de “Colaborador”, todo mundo é meio webwriter, webdesigner e até webmaster (dependendo do caso). No site – dentro daquela filosofia de investir não só em Colaboradores mas em autores –, o esforço foi sempre no sentido de conceder o máximo de autonomia a todos os que publicam. Ou seja: dentro também do princípio do jornalismo colaborativo, o Colaborador tem de pensar seu texto como página Web – enriquecendo-o com formatação, links e imagens –, sendo ainda responsável pelo que publica mesmo depois que o material foi ao ar... (Na internet, os bons textos permanecem vivos.) Eu incentivo os Colaboradores a trabalhar com todos os recursos, mesmo sem ser(em) “especialista(s)” no assunto. Escrevi, por exemplo, três “Manuais”: o de Instruções (que ensina como publicar no Digestivo); o de HTML (que ensina a enriquecer o próprio texto, a própria página Web); e o de Estilo (que ensina os “formatos” que, no site, foram se consolidando; enquanto que dá algumas dicas para “escritores” iniciantes...).

B) O site cresceu, basicamente, por marketing viral. No início, através de uma lista de pessoas que já me liam e me contatavam (na minha incipiente carreira de “colunista independente”). Depois, através de uma lista de amigos dos primeiros Colaboradores. Em seguida – desde que o cadastramento no mailing (Newsletter) foi automatizado –, através de uma lista que se alimenta sozinha. Amigos que indicam para amigos. O assinante entra e sai na hora em que quer. São de 10 a 15 novos assinantes por dia (de 300 a 450 por mês).

E hoje, mais do que nunca, o Google. Sempre o Google. O Google – mais do que o UOL, o Terra, o iG ou qualquer outro portal – é o grande distribuidor de conteúdo na internet. É o Fernando Chinaglia ou a Dinap da Web, só que muito mais potente. Imagine você entrando numa banca de jornal e solicitando conteúdos por assunto. Você poderia pegar, de repente, uma página solta, uma carta de um leitor, um editorial – e raramente uma publicação inteira. Muitos jornalistas ainda não perceberam que o “gargalo da distribuição”, no Brasil, vai virar lenda. Quem estiver bem no Google, vai sobreviver; quem não estiver, tchau.

6. A linguagem multimídia não é uma justaposição do texto escrito, imagem fixa e em movimento, e som, mas uma nova forma de combinar esses elementos. Como essas sublinguagens se entrelaçam no Digestivo para compor a macrolinguagem multimídia?

Como o Digestivo pegou o fim do primeiro boom da internet (agora, há outro em curso...), e o estouro da Bolha, assistimos ao nascimento estonteante de sites que usavam e abusavam de recursos multimídia. Ou seja: a internet da virada do século/ milênio já era essa internet dos podcasts, do YouTube, do Orkut... Mas por que tudo isso não estourou antes e só agora? Porque muito embora a internet já “suportasse” (no sentido de “comportar”) todos esses formatos, não havia ainda a tal “banda larga”. Então, ainda que os portais pudessem oferecer todos esses recursos multimídia de que você falou, nenhum internauta era capaz de usufruir deles através da conexão discada.

No caso do Digestivo, eu sempre fui um grande admirador do CliqueMusic que, por exemplo, resenhava um CD e colocava trechos de todas as faixas para audição. Pensei, claro, em fazer isso no Digestivo, e em alguns casos até fiz, mas, conforme a explicação acima, os Leitores não estavam preparados. Tivemos de voltar ao princípio; a internet inteira teve de voltar ao princípio. E qual era o princípio? O e-mail.

Claro que, atualmente, o texto continua no seu desenvolvimento próprio (PDF afora...), o áudio está explodindo com os podcasts e o vídeo encontrou, através do YouTube, sua primeira forma mais “palatável” (a primeira a proporcionar ganho de escala). Voltando ao Digestivo, tenho uma idéia de podcast (áudio) já na cabeça. Ainda assim, eu acho que o podcast exige outro tipo de infra-estrutura e eu não pretendo arriscar o Digestivo nisso tão cedo. Sobre o vídeo, acho ainda mais complicado. A meu ver, com o YouTube, o vídeo está engatinhando na internet. A saída está ali – e não nessas TVs de internet (algumas até que os próprios portais montaram...). Nenhuma funcionou como o YouTube funcionou. Eles deveriam parar tudo e aprender com o pessoal do YouTube: vídeos de poucos minutos, com uma qualidade média, no esquema de divulgação quase pier-to-pier... E lógico que com o Google adquirindo o YouTube, voltou a ser “briga de cachorro grande”.

7. Em entrevista à Cultura FM, você fez duas afirmações: que o Digestivo surgiu como uma proposta comercial e que acredita que hoje a internet faz, das pessoas, leitores e editores ao mesmo tempo. Refletindo sobre essas duas idéias, como o Digestivo trabalha a dupla função que as mídias digitais dão às pessoas, de consumidor e produtor, e que, às vezes, acontece simultaneamente?

Eu acho que a interação, no Digestivo, ainda é pequena – perto do que poderia ser. Mas sempre que você implementa um recurso novo, você tem de checar se as pessoas acompanham. Eu gosto muito dessa característica da Web 2.0 de manter tudo em “versão beta” – ou seja: você nunca pára de mexer no site; o site nunca fica pronto. Você observa como as pessoas se relacionam com o seu conteúdo, implementa pequenas modificações na estrutura, para facilitar a interação, e vê, logo, como as pessoas reagem. Se a reação é positiva, você continua; se é negativa, você volta, tenta outra coisa...

No Digestivo, primeiro eram os meus textos. Depois, os textos dos Colunistas. As reações dos Leitores criaram o primeiro Editorial. Fizemos, então, Promoções. Conseguimos Parcerias. Abrimos para Comentários. Chamamos jornalistas consagrados para participar. Consolidamos o Blog. Lançamos a página de Comentários. As Entrevistas... No final das contas, além de ler, o Leitor do Digestivo pode interferir, via Comentário (ou via e-mail), pode enviar textos seus, pode dar sugestões ou pode ainda, com seu comportamento durante a navegação, influenciar o modo como tomaremos as próximas decisões.

8. O Digestivo já tem alguns anos de vida virtual e evoluiu nesse período. Que aspectos foram importantes para a continuidade desse trabalho de jornalismo cultural no que se refere ao fator credibilidade perante o público?

Um aspecto, eu acho, é a transparência. Todas as decisões que afetam os Leitores, mesmo as menores, são tratadas de maneira aberta. E o Digestivo, naturalmente, recebe críticas – que, quando têm fundamento, são publicadas (ou até mesmo respondidas). Acontece que, no todo, o Digestivo é muito “poroso” no sentido de absorver os estímulos dos Leitores (sejam positivos ou negativos). Isso, de início, desperta a simpatia do internauta. Depois, cria vínculo. Na internet, todo mundo quer “fazer parte” – e eu acho que os Leitores do Digestivo Cultural sentem que fazem parte dele. Porque nós damos essa abertura...

Claro que quando você fala em “jornalismo” e “credibilidade”, eu penso em checagem das informações, em correção dos erros e até na escolha dos Colaboradores... O rigor, modéstia à parte, fui eu quem deu – e os primeiros Colunistas. Esse rigor se manteve “de geração em geração”. E eu estou escrevendo todas as semanas – sendo cada vez mais rigoroso comigo mesmo –, para que toda essa estrutura se mantenha. E evolua. Tirando o autor, são às vezes mais de três pessoas lendo cada texto. Checando no Houaiss, checando na própria Web. Corrigindo, formatando, sugerindo links. Antes, era praticamente só publicar. Hoje, os formatos evoluíram e o Digestivo tem todo um arquivo com que se relacionar. E os jornalistas da grande imprensa estão, de alguma maneira, presentes também – para dar o exemplo e continuar nos inspirando.

9. Alguns teóricos, ao abordar a internet, afirmam que “o que percebemos na atualidade é a substituição da praça pública pelo espaço midiático”. Eu gostaria que você comentasse essa idéia, também em função da sua afirmação, em entrevista à Cultura FM, de que um site está maduro quando começa a extrapolar o meio virtual...

É verdade, os teóricos têm razão. Sei que é clichê falar em “aldeia global” mas o termo é esse mesmo. A praça pública desembocou (feliz ou infelizmente) na mídia de massa. E o retorno, o efeito, o “eco”, proporcionado agora pela internet, tem sido meio assustador. Toda aquela discussão sobre o Orkut, sobre as pessoas disponibilizarem informações privadas num espaço público, já está presente desde que a internet começou. Acontece que o Orkut, como o YouTube, foi catártico: de repente, gente que nunca “fez” mídia, estava fazendo – e sofrendo as conseqüências (algumas, dizem, desastrosas).

Tem esse temor, meio burguês, de “perda da privacidade” – mas, tirando os estragos que sempre acontecem em todas as revoluções, eu acho fantástico o fato de todo mundo estar “nu”, novamente, em praça pública. Porque você não foge da política, da participação política... E a internet o que é senão – cada vez mais – isso? O cidadão comum não pode debater as questões que o afligem – sejam quais sejam – no jornal de todo dia: “A dor da gente não sai no jornal...” Por questões de espaço, por questões editoriais, até por questões econômicas. Mas o cidadão com uma conexão pode fazer isso na internet.

Sobre a segunda parte da sua pergunta, não sei se você está pensando em “mobilização política”... Se está pensando, eu, particularmente, não acho que o Digestivo Cultural tenha essa vocação... No futuro, talvez, quem sabe? O que eu quis dizer – quando falei das “expansões” do site – foi que o Digestivo tem tido boa penetração em outros suportes que não só o on-line. Fizemos revista com a FGV; eu publico, também, em papel; participo de programas de rádio; dou palestras; apareço na televisão... Existe, inclusive, uma idéia de discutir temas, “ao vivo”, com convidados e Leitores do site. E as Entrevistas estão mostrando que os nossos Leitores querem, mais e mais, discutir idéias... Voltamos na tal da “participação política”, na “aldeia global”, na “praça pública”... E é incrível como ainda tem gente acha que a internet não é uma revolução.


Julio Daio Borges
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