Os críticos se divertem | Luís Antônio Giron

busca | avançada
24651 visitas/dia
954 mil/mês
Mais Recentes
>>> I CONCURSO DE CAIPIRINHA PAULISTA AGITA MERCADÃO
>>> Ian Carvalho lança EP 'Morpheo In Eros'
>>> Semivelhos lança inédita 'Vai Chover'
>>> O que há na mente de Deus?
>>> Antropólogo discute autonomia dos símbolos e seu papel na criação da cultura
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Piada pronta
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. Epílogo. Ambaíba
>>> Claudio Willer e a poesia em transe
>>> Paul Ricoeur e a leitura
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. 12. Rumo ao Planalto
>>> Dilúvio, de Gerald Thomas
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. 11. A Quatro Braçadas
>>> Crônica de Aniversário
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. 10. O Gerador de Luz
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. 9. Um Cacho de Banana
Colunistas
Últimos Posts
>>> Lauro Machado Coelho
>>> Jeff Bezos é o mais rico
>>> Stayin' Alive 2017
>>> Mehmari e os 75 anos de Gil
>>> Cornell e o Alice Mudgarden
>>> Leve um Livro e Sarau Leve
>>> Pulga na praça
>>> No Metrópolis, da TV Cultura
>>> Fórum de revisores de textos
>>> Temporada 3 Leve um Livro
Últimos Posts
>>> Bojador
>>> Inversões
>>> Estado alterado
>>> Templo
>>> Divagações
>>> Convicto
>>> Ação e reação
>>> Fio de Eros IV
>>> Fio da meada
>>> Interlocutores
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Amores serão sempre amáveis
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. 9. Um Cacho de Banana
>>> Discos que me mudaram
>>> Jeff Bezos é o mais rico
>>> Ensaio sobre a Cegueira, por Fernando Meirelles
>>> ConaLit
>>> A Música Erudita no Brasil
>>> Porque assim é São Paulo
>>> Marçal Aquino: o Rei do Clima
>>> Aberta a temporada de caça
Mais Recentes
>>> Aritmética da Emília - edição comentada
>>> Mangá - O Livro Monstro do Mangá
>>> O Fim da Pobreza
>>> A Dieta do Suco
>>> A Dieta do arroz
>>> Bilionarios
>>> Acento em português - abordagens fonológicas
>>> Livro de um Desconhecido
>>> Questões de linguagem: passeio gramatical dirigido
>>> Pororoca, pipoca, paca e outras palavras do tupi
>>> Português ou brasileiro?
>>> Pesquisar no labirinto: a tese, um desafio possível
>>> Sete erros aos quatro ventos
>>> Sociolinguística quantitativa
>>> Semântica para a educação básica
>>> Todo mundo devia escrever
>>> Tradução: história, teorias e métodos
>>> Linguística computacional
>>> História concisa da semiótica
>>> A semântica
>>> Estrangeirismos: Guerras em Torno da Língua
>>> Quarto de Badulaques
>>> Raimundo de oliveira ( O progresso da Apostasia )
>>> A Revelação dos Sete Selos
>>> Fundamentos da economia
>>> Guia Prático de Conjugação de Verbos
>>> Cotidiano: Conhecimento e Crítica
>>> Estágio & Supervisão
>>> Educação, Ideologia e Contra Ideologia
>>> Wittgenstein - Os Pensadores
>>> Schelling - Os Pensadores
>>> Heidegger - Os Pensadores
>>> As Dores da Alma
>>> Animais da Fazenda - Brinque
>>> Cartilha do Bem
>>> Meninos em Guerra
>>> Reino Dividido- Uma Introdução à Bíblia- Volume 4
>>> A Assustadora História da Medicina
>>> A Sabedoria do Sutra de Lótus Volume 2
>>> Reflexologia- Um Método para Melhorar a Saúde
>>> Apocalipse - A Revelação de Jesus Cristo- Crescer e Amadurecer
>>> Ensaios (Sobre Arte e Literatura) - Olívio Montenegro
>>> Madre Coraje y suas hijos - Bertolt Brecht (Teatro alemão) - Em ESPANHOL
>>> Brasil: Manual de Instruções - Ziraldo (Literatura Infanto-Juvenil)
>>> Storia del Teatro Antico (Grécia e Roma) - Giovanni Antonucci (Em Italiano)
>>> A rosa do povo & Claro enigma (Carlos Drummond de Andrade - Roteiro de Leitura)
>>> Seu Creysson - Vídia e Óbria (Casseta e Planeta) - Humorismo
>>> O melhor de Vinicius de Moraes (Poesia brasileira)
>>> O prazer das palavras 1 - Um olhar bem humorado sobre a Língua Portuguesa - Cláudio Moreno
>>> 20 Poemas de amor y una canción desesperada - Pablo Neruda (Literatura Chilena) Em ESPANHOL
ENSAIOS

Segunda-feira, 8/7/2002
Os críticos se divertem
Luís Antônio Giron

+ de 3400 Acessos
+ 1 Comentário(s)

Não há raça mais comicamente narcisista que a dos críticos de música erudita. Eles se pavoneiam nos concertos, ocupando os lugares gratuitos que lhes são concedidos pela produção do espetáculo e, dali a no máximo dois dias, fazem publicar suas observações sobre o desempenho da atração musical a que assistiram. Tais textos servem para informar o leitor e fazer com que aquele que viu o mesmo espetáculo possa discutir o conteúdo da matéria crítica; daí nascerem as polêmicas, geralmente entre um amador e um profissional. Em geral, o amador não passa do crítico; o profissional é o leitor, aquele espécime de unabomber postal que vive de enviar cartas e e-mails furibundos às redações. A intenção deste é, talvez, abocanhar um naco na eternidade das publicações impressas. E tudo terminaria nos arquivos mortos.

Mas o que deseja o crítico? Não se compraz em publicar o folhetim de sua sensibilidade para o leitor eventual; quer mais, ser mais eterno que o leitor profissional e não resiste ao contemplar suas crias recicladas em volumes. A coletânea de comentários dá ao crítico a ilusão da glória, a embriaguez de que suas palavras ficarão para a posteridade, pelo simples fato de figurarem num volume (o editor sabe que não vai vender, mas fica feliz em – para usar um verbo horroroso da moda – "fidelizar" um sujeito influente). E há a noite de autógrafos, a sessão de salamaleques dos colegas, bajuladores e músicos temerosos de ataques futuros, mesmo que a farpa não se baseie em conhecimento de música. Ah, há o poder...

Para evitar que os desprezíveis anões da cultura que decoram o jardim dos concertos escrevessem os textos das contracapas de seus discos, o pianista americano Charles Rosen, de 73 anos, tomou para si o encargo de interpretar obras musicais. O impulso surgiu com as notas de um disco que gravou com obras de Chopin, cuja contracapa era do crítico James Huneker: "Em um dos últimos noturnos, ele defendia a idéia de que a música 'cambaleava bêbada com o perfume das flores'. Esta não era a minha visão sobre a obra. Eu não entendia para que serviam aquelas notas. O estilo de Huneker é um convite para o ouvinte sonhar e dissipar a atenção no devaneio. O tipo de escritos sobre música que eu prefiro – e de performance – fixa e intensifica a atenção do ouvinte. Quando ouço música, prefiro me perder nela, não escapar para meu mundo pessoal com a música como decorativa e fundo distante."

Movido pelo alvo de fazer o público atentar para a música, Rosen derivou para a crítica e o folhetinismo. Passou a ser identificado como um dos boboli que observam a vida musical. Mas é melhor que os críticos impressionistas de ocasião.

Ao publicar sua segunda coletânea, o músico-crítico traiu um misto de constrangimento e prazer sádico em trazer à tona suas idéias. O tomo se intitula, sintomaticamente, Critical Entertainments - Music and New. Atualmente catedrático de pensamento social e música da Universidade de Chicago, ele dá continuidade à coletânea Romantic Poets, Critics and Other Madmen (Harvard University Press, 1998), na qual aborda a poética de Balzac e Byron, a loucura de Hölderlin e o estatuto da crítica musical na obra de George Bernard Shaw ("The Journalist Critic as Hero"). Outro livro, Romanticism and Realism (1999), integra os estudos de Rosen sobre história da cultura e as associações desta com a música.

Na reunião de textos escritos ao longo dos últimos 25 anos e estampados em diversas publicações, Rosen exibe ironia e, às vezes, ligeireza. Ainda que estampe citações de passagens em pentagrama, o estilo se revela muito diferente dos produzidos em duas décadas de trabalho teórico. Este resultou em obras como The Classical Style (1972), aula de anatomia da forma-sonata de Haydn e Mozart, e A Geração Romântica (The Romantic Generation, 1995), lançado no Brasil no início de 2000, interpretação sobre o Romantismo, com base na idéia de que a música incorreu em promiscuidade com as outras artes e fundou, assim, a Modernidade.

Critical Entertainments é o tipo de coletânea de artigos que serve como vade-mécum do melômano incontinente. O tomo não defende posições de grande impacto, mas ajuda a refletir sobre a comunicação musical. Rosen postula que o entusiasmo é tanto o motor primordial da boa análise de partituras como o princípio gerador do cânone da música erudita. Para comprovar a tese, o autor revela um espírito incomum ao gênero. Afinal, ele não se enquadra no talhe de crítico banal. Desdenha a postura retrógrada daqueles que odeiam as obras contemporâneas e professam dogmas como o método da desmontagem "neutra" de peças musicais desenvolvido por Heinrich Schenker. Sem entusiasmo e envolvimento de todas as esferas da produção, acha, não pode existir arte nem conhecimento. Recepção se torna tão fundamental quanto produção e distribuição. Naturalmente, a crítica integra os círculos mal-afamados e pouco estudados da fruição estética.

O estudioso inicia a obra desculpando-se pelos exemplos musicais, que, para ele, são incontornáveis para o leitor mergulhar no saber dos sons. "Haverá o dia em que a crítica musical será fácil e rotineiramente acompanhada de uma ilustração audível do tema, mas esse dia ainda não chegou", diz, sem considerar as possibilidades que as novas tecnologias, como MP3 e Napster, podem abrir, desde já, ao exercício crítico.

Segundo ele, os 18 textos de Critical Entertainments se pautam por três questões: o dogmatismo limitador da teoria musical; o fato de os musicólogos desconsiderarem o lado profissional da música e o inverso, a ignorância da musicologia pelos músicos; em terceiro lugar, a relação ambígua entre crítica e experiência musical. Rosen pensa que, dentro da primeira preocupação, os formalistas shenkerianos são tão dogmáticos quanto os anti-schenkerianos. Em vez de optar por um dos pólos, indica que o procedimento correto é se valer de todo tipo de instrumento para fazer uma análise mais completa. Ignorar circunstâncias em que as obras foram feitas significa, de acordo com o crítico, incorrer em erro. É preciso manter a análise próxima da sociedade e sua tradição. Por fim, não se ilude sobre a função que a crítica exerce na alteração da história. "Escrever sobre música é como tocar: um desempenho ruim de uma obra de alta qualidade, desde que não seja, pode ainda dar prazer ao fã médio de música, cujo gosto não foi corrompido pela especialização." Crítica ainda serve para apurar a sensibilidade.

O volume se divide em cinco partes. A primeira se debruça sobre performance e musicologia e traz um ensaio antológico: "A Estética do Medo de Palco" – momento que Rosen compara com a epilepsia, "por ser divino, uma loucura sacra". É o instante de pânico em que o músico começa a tocar diante do público, que acomete até o mais experiente virtuose. O "ritual profano do recital" gera embaraço, mas também um momento redentor. A segunda parte abrange o século XVIII, com textos sobre a redescoberta de Haydn, a invenção da ópera moderna pelo dramaturgo Beaumarchais (autor que teoriza sobre o papel da ópera) e a carreira de Beethoven. Devota a terceira parte ao compositor Johannes Brahms, a quem encara como "inspirado" e "subversivo". A quarta sessão se intitula "Estudos Musicais: Visões Contrastantes". Ali, avalia obras de referência como os dicionários New Grove e Harvard. Encerra o livro com "A Crise do Moderno", com ensaios sobre Schoenberg e Elliott Carter, além do melhor ensaio da reunião, chamado "A Irrelevância da Música Séria".

O texto discute a afirmação em moda segundo a qual a música clássica está morrendo. Para ele, esse tipo de pessimismo é uma antiga tradição, vinculada ao espanto dos ouvintes diante da novidade; foi assim com Beethoven no início século XIX, com A Sagração da Primavera, de Stravinsky, em 1912, e continua sendo hoje, quando inimigos do modernismo "não podem aceitar o modo como a vanguarda está tomando posse da corrente principal da grande tradição ocidental". O sucesso da música contemporânea não depende de vendas estilo Três Tenores nem do amor do público, mas do entusiasmo dos músicos para tocar música nova. Provoca: "O que está desaparecendo hoje é o público." Audiência de concerto, explica, é fenômeno recente, contemporâneo à invenção do museu. Ambos quiseram "retirar as obras do contexto social e ideológico". Ele denuncia que "museus e concertos sinfônicos compreendem valores sociais pretensiosos". Ora, nada mais esnobe que críticos – e esses anti-heróis também tendem a encolher. Para Rosen, a única relevância no saber musical é a paixão. Nesse sentido, os fãs deste ou daquele músico superam os especialistas.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado no "Caderno Fim de Semana" da Gazeta Mercantil, a 17 de novembro de 2000.

Para ir além






Luís Antônio Giron
São Paulo, 8/7/2002

Mais Luís Antônio Giron
Mais Acessados de Luís Antônio Giron
01. Paulo Coelho para o Nobel - 21/11/2005
02. Villa-Lobos tinha dias de tirano - 3/11/2003
03. JK, um faraó bossa-nova - 6/2/2006
04. A blague do blog - 11/8/2003
05. Francisco Alves, o esquecido rei da voz - 5/8/2002


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
10/7/2002
00h06min
A leitura crítica deveria ser uma leitura apaixonada da obra de arte, uma interpretação da beleza como objeto de saber.
[Leia outros Comentários de Pedro Maciel]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.

Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




EROS E REPRESSÃO
ROLLO MAY
VOZES
(1982)
R$ 23,90



CASSINO
PIETER ASPE
FUNDAMENTO
(2008)
R$ 3,99



HELLO KITTY: UM DIA COM PAPAI
CAROLINE FURUKAWA
MADRAS
(2005)
R$ 20,00



NA FORÇA DA IDADE - VOLUME 1
SIMONE DE BEAUVOIR
DIFUSÃO EUROPÉIA DO LIVRO
(1961)
R$ 37,70



CRIANÇAS FRANCESAS NÃO FAZEM MANHA
PAMELA DRUCKERMAN
FONTANAR
(2013)
R$ 15,00



O MILIONÁRIO JOSUÉ
CATHERINE PONDER
NOVO SÉCULO
(2012)
R$ 12,90



PAZ INTERIOR
PARAMAHANSA YOGANANDA
SELF REALIZATION FELLOWSHIP
(2010)
R$ 11,00



OS SANTOS QUE ABALARAM O MUNDO
RENÉ FÜLÖP-MILLER
JOSÉ OLYMPIO
(2010)
R$ 39,99



ECOLOGIA MENTAL
MURILLO NUNES DE AZEVEDO
PENSAMENTO
(1995)
R$ 18,60



MANIQUEÍSMO HISTÓRIA FILOSOFIA E RELIGIÃO
MARCOS ROBERTO NUNES COSTA
VOZES
(2003)
R$ 49,99





busca | avançada
24651 visitas/dia
954 mil/mês