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ENSAIOS

Segunda-feira, 23/3/2009
Para você estar passando adiante
Ricardo Freire

+ de 5600 Acessos
+ 6 Comentário(s)

Este artigo foi feito especialmente para que você possa estar recortando e possa estar deixando discretamente sobre a mesa de alguém que não consiga estar falando sem estar espalhando essa praga terrível da comunicação moderna, o gerundismo. Você pode também estar passando por fax, estar mandando pelo correio ou estar enviando pela internet.

O importante é estar garantindo que a pessoa em questão vá estar recebendo esta mensagem, de modo que ela possa estar lendo e, quem sabe, consiga até mesmo estar se dando conta da maneira como tudo o que ela costuma estar falando deve estar soando nos ouvidos de quem precisa estar escutando.

Sinta-se livre para estar fazendo tantas cópias quantas você vá estar achando necessárias, de modo a estar atingindo o maior número de pessoas infectadas por esta epidemia de transmissão oral.

Mais do que estar repreendendo ou estar caçoando, o objetivo deste movimento é estar fazendo com que esteja caindo a ficha das pessoas que costumam estar falando desse jeito sem estar percebendo.

Nós temos que estar nos unindo para estar mostrando a nossos interlocutores que, sim, pode estar existindo uma maneira de estar aprendendo a estar parando de estar falando desse jeito. Até porque, caso contrário, todos nós vamos estar sendo obrigados a estar emigrando para algum lugar onde não vão estar nos obrigando a estar ouvindo frases assim o dia inteirinho. Sinceramente: nossa paciência está ficando a ponto de estar estourando.

O próximo "Eu vou estar transferindo a sua ligação" que eu vá estar ouvindo pode estar provocando alguma reação violenta da minha parte. Eu não vou estar me responsabilizando pelos meus atos.

As pessoas precisam estar entendendo a maneira como esse vício maldito conseguiu estar entrando na linguagem do dia a dia.

Tudo começou a estar acontecendo quando alguém precisou estar traduzindo manuais de atendimento por telemarketing. Daí a estar pensando que "We'll be sending it tomorrow" possa estar tendo o mesmo significado que "Nós vamos estar mandando isso amanhã" acabou por estar sendo só um passo.

Pouco a pouco a coisa deixou de estar acontecendo apenas no âmbito dos atendentes de telemarketing para estar ganhando os escritórios. Todo mundo passou a estar marcando reuniões, a estar considerando pedidos e a estar retornando ligações. A gravidade da situação só começou a estar se evidenciando quando o diálogo mais coloquial demonstrou estar sendo invadido inapelavelmente pelo gerundismo.

A primeira pessoa que inventou de estar falando "Eu vou tá pensando no seu caso" sem querer acabou por estar escancarando uma porta para essa infelicidade linguística estar se instalando nas ruas e estar entrando em nossas vidas. Você certamente já deve ter estado estando a estar ouvindo coisas como "O que cê vai tá fazendo domingo?" ou "Quando que cê vai tá viajando pra praia?", ou "Me espera, que eu vou tá te ligando assim que eu chegar em casa".

Deus, o que a gente pode tá fazendo pra que as pessoas tejam entendendo o que esse negócio pode tá provocando no cérebro das novas gerações?

A única solução vai estar sendo submeter o gerundismo à mesma campanha de desmoralização à qual precisaram estar sendo expostos seus coleguinhas contagiosos, como o "a nível de", o "enquanto", o "pra se ter uma idéia" e outros menos votados.

A nível de linguagem, enquanto pessoa, o que você acha de tá insistindo em tá falando desse jeito?

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado na coluna Xongas, no Jornal da Tarde, em 16 de fevereiro de 2001 e posteriormente incluído no livro As cem melhores crônicas brasileiras. Leia também "Telemarketing, o anti-marketing dos idiotas" e Entrevista com Ricardo Freire.


Ricardo Freire
São Paulo, 23/3/2009

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* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
23/3/2009
13h25min
Inicialmente, vou estar comentando o que estive lendo acima. Estamos considerando uma genialidade o autor estar podendo colocar de modo simples mas extremamente competente o que todos pensamos a respeito do malfadado gerundismo. Assim, estamos pensando no que traduções mal feitas podem estar causando quanto ao uso da língua e, especialmente, quanto à nossa já tão fatigada paciência. Na oportunidade, estamos mandando um fraternal abraço. Sem gerúndios.
[Leia outros Comentários de Hilton Besnos]
25/3/2009
15h59min
O autor está certo em atacar, de forma tão bem humorada, o gerundismo. Só não podemos exagerar na dose e acabar, de uma vez por todas, com o gerúndio. Este recurso de linguagem é útil e, quando bem aplicado, pode tornar o texto mais eficiente e compreensível.
[Leia outros Comentários de Ari Dias]
30/3/2009
12h27min
Se olharmos para a origem do gerundismo, nascido das traduções mal feitas dos manuais de utilização dos primeiros microcomputadores e de manuais de telemarketing americanos, responsabilizaríamos a quem? Se olharmos o nível de ensino nas escolas públicas e mesmo nas privadas da nossa língua portuguesa, de quem seria a responsabilidade? Acredito que a melhor pergunta é: Como chegamos a isso? E tentar corrigir, de forma eficaz, esta aberração que se tornou o uso desta forma de falar, tanto quanto a forma de escrever dos jovens nas mensagens instantâneas, que é outra aberração cheia de símbolos e grafias, algumas vezes indecifráveis para nós, simples mortais.
[Leia outros Comentários de Rosangela Friedrich ]
3/4/2009
10h05min
Infelizmente não consegui terminar de ler o texto...
[Leia outros Comentários de Bruna Célia]
3/4/2009
19h55min
Não podemos acabar com o gerúndio em qualquer parte que nos caiba deste latifúndio. Acima do gerundismo está o neologismo. Qual é o maior dos males? Como se referir a um pobre homem como "Coitado", quando se sabe que o termo deriva de Coito e não de Pobreza? O que pensar dos "Princípios Básicos", ou mesmo das "Estruturas Fundamentais", ou dos, até piores, "Princípios Básicos das Estruturas Fundamentais", quando se sabe que princípio, base, estrutura e fundamento são sinônimos? Partindo da base lógica, qualquer Coisa Desconhecida não possui sequer um Conceito. Qualquer palavra dita sobre a Coisa é uma Suposição. Se a suposição antecede ao conceito, vira sinônimo de Pré Conceito. Uma vez Conhecida, ganha a chance de adquirir o Conceito. Portanto, quando Reconhecida, a Coisa eleva ao estado de Pós Conceito. Visto tudo isso a respeito da Coisa, o que fazemos com o termo Pré Suposto? Alguém se arrisca a partir do Pressuposto? Eu não ousaria, mas invejo quem o faça.
[Leia outros Comentários de Dalton]
9/4/2009
08h40min
Coincidentemente, fiz uma postagem em meu blog em agosto de 2008 no intuito de advertir meus leitores sobre o gerundismo. Creio que a língua é um patrimônio que deve ser respeitado pelo povo e cabe fazer sempre a nossa parte. Parabenizo-lhe pelo trabalho de conscientização.
[Leia outros Comentários de Leninha]
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