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Segunda-feira, 1/5/2006
O elogio da ignorância
Jaime Pinsky


You don't know, óleo de Carlos Ramos

Basta observar o olhar perdido de adultos sem ter o que fazer durante horas, em vôos internacionais, ou, pior ainda, vendo filminhos para adolescentes no vídeo do avião, para ter certeza de que ler um livro é a melhor escolha para esses momentos. O passageiro desocupado é um chato: ri alto, chama a comissária de bordo a cada momento, toma mais bebida do que seria desejável, ou ronca alto, enquanto o leitor de livros atravessa a desagradável viagem placidamente, correndo incólume o risco alheio, podendo imaginar, a partir do seu universo de referências, o rosto e o jeito de cada personagem, e não sendo obrigado a engolir os atores que o diretor do filme escolheu para representá-las.

O chato, na verdade, é o “sem-livro”. Mesmo assim, é freqüente tratar leitores como pessoas sem graça. Uma amiga conta que, durante sua adolescência, adorava ir ao sítio de um tio, no interior de São Paulo, e ler, calmamente, seu livrinho, enquanto a brisa movia silenciosamente a rede em que se refestelava e os pássaros faziam um coral único. Seus familiares, contudo, não se conformavam com a “chata” que preferia ler a jogar buraco e diziam que ela não gostava mesmo de “se divertir”, como se diversão fosse colocar o dez perto do valete e sonhar para que uma dama aparecesse, e não a leitura do seu livro, que a transportava para mundos maravilhosos.

Com a música, o mesmo. Há até propagandas de televisão e rádio que “demonstram” a supremacia de sons bregas sobre a música clássica. Incapazes de se sentar para ouvir uma sinfonia inteira, ou mesmo o primeiro movimento de uma sonata, os ignorantes transformam o vício em virtude e atribuem ao volume produzido por super woofers a qualidade sonora que a melodia não tem. Sejamos claros: o aparelhamento de som é apenas o meio, a mídia, utilizada pela música para se manifestar. Imbecis sonorizados rodando com altos decibéis serão somente imbecis rodando com altos decibéis, nunca gente com bom gosto musical. E antes que eu me esqueça, música se discute, sim, pois gosto e ouvido podem ser educados. Quase sempre, pois sempre há uns casos perdidos. Por isso, o idiota que diz não gostar de música clássica, como um todo (sem nunca tê-la ouvido adequadamente), deve ser tratado como um idiota, e não como uma pessoa que manifesta um gosto.

Num momento em que se luta para que diferentes parcelas da população tenham acesso à universidade, em que as pessoas estão empenhadas em fazer pós-graduação, mestrado, cursos livres de cultura geral, em que todos reivindicam o direito de conhecer parcelas importantes do patrimônio cultural da humanidade, fazer o elogio da ignorância é um contra-senso. Contra-senso, por sinal, que só pode partir de dois tipos de pessoas: ou alguém da elite, que, por medo de concorrência, não quer que o contingente de pessoas cultas no país aumente; ou alguém que teve a possibilidade de adquirir um bom cabedal de cultura, mas, por preguiça ou desleixo, não o fez. Nenhum deles é bom conselheiro: não se pede para o rato opinar sobre as qualidades da ratoeira.

Respeitar o saber do povo significa dar oportunidade para que ele tenha acesso ao patrimônio cultural já estabelecido. Respeitar o povo é permitir que ele conheça Machado de Assis e Joaquim Nabuco, Sérgio Buarque e Florestan Fernandes, Glauber Rocha e Nelson Rodrigues. Entender o mundo, ao contrário do que muitos pensam, não se resume a assistir folhetins óbvios repetidos há décadas, ou programas apresentando supostas situações reais com personagens supostamente interessantes, merecidamente enjauladas, tudo entremeado com mensagens comerciais (falo, evidentemente de novelas e reality shows apresentados pelas emissoras de TV e assistidos bovinamente por telespectadores acríticos).

De resto, tenho uma profunda desconfiança... não do saber autêntico desenvolvido através dos séculos por brasileiros do Norte ao Sul, mas de certa “cultura”, orquestrada por programadores musicais cevados por jabaculês fornecidos pelas grandes gravadoras, por sinal, multinacionais. E confundir a cultura do jabaculê com cultura popular ou é burrice incurável, ou má fé evidente. Colocar a cultura, chamemos assim, erudita, à disposição do povo, não quer dizer impô-la, evidentemente, mas permitir o contato entre eles. Livre escolha. Elitista mesmo é não permitir esse acesso e, em nome de um populismo pseudo-respeitoso, abandonar a população à breguice rançosa que grassa nos meios de comunicação de massa.

O elogio da ignorância, que desqualifica a leitura, a música de qualidade, a cultura artística e humanista, tenta se apresentar como atitude democrática, mas não o é. Trata-se de uma face disfarçada do preconceito e da discriminação.

Não há porque engolir isso. Venha de quem vier.


Something about her, outro óleo de Carlos Ramos

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Publicado originalmente na revista Panorama Editorial, na edição de abril de 2006.

Jaime Pinsky
São Paulo, 1/5/2006

 

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