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Segunda-feira, 22/9/2008
Lembrando a Tribo
Millôr Fernandes

A tribo intelectual se reúne. Não é todo dia, mas é quase toda noite.

Encontros normais, sempre agradáveis, em que os presentes analisam os ausentes ― os ausentes, é claro, nunca têm razão. Amanhã seremos nós os sem razão. Apesar de tudo, um dia sempre poderemos dizer, saudosamente, como no filme de Monicelli: "Nós, que nos amávamos tanto".

De vez em quando alguém da tribo promove um encontro maior ― o que a periferia chamaria de festa ― para reunir todos e mais alguém. Não há regras, mas há um padrão. Todos são, um pouco mais, um pouco menos, famosos. Entre os famosos, claro, há o famoso da hora ― lançou o último livro, fez o último show, ganhou o prêmio do festival de Calcutá, de Caracala, dos Pireneus, tudo fajuto, saudado como se fosse verdadeiro. Mas há também os prêmios indiscutíveis, a coroa de Berlim, a medalha de Baireux, o ouro do Japão, gozados para esvaziar grandiloqüência.

Não há regras, mas há padrões: mulheres bonitas, um ou mais casais em processo de dissolução, duas lésbicas (uma escritora, outra pintora, uma sapatona, outra sapatilha, não se conhecem), um cantor que está lançando seu primeiro CD, alguém da área rica procurando se afirmar, um muito engraçado (quase todos aqui tentam ser), um que as mulheres não sabem ainda em que time joga, mas "é uma graça", um diplomata que veio da Coréia, uma quarentona vestida pra matar, muito seio, muita coxa, muita roupa apertada onde (as outras acham) não deve, um casal caçador de aventuras sem risco, uma divulgadora que conhece todo mundo, um casal (suspeita-se que alagoano) que não conhece ninguém, uma cantora de ópera, um analista de mainframes residente no MIT, todos os escritores, todos os cineastas, todos os humoristas. Na arca cabe tudo, exceto crianças e (bebe-se muito, e é bom não confundir) alcoólatras.

As pessoas vêm para euforias e ânsias ― ou inesperados ― vêm para se meter e conferir, para dar vazão, ter comunhão. Todos são íntimos, ou já tiveram algum encontro, um affair, um nariz consertado pelo outro, pequenas intimidades visíveis ou grandes intimidades zelosamente divulgadas. Os que chegam primeiro são mais calmos, mas, à medida que a reunião se amplia, os que chegam já chegam mais quentes. Há gritinhos, beijinhos, beijos mais afoitos, apertões meramente formais, ocasionais, ou mais entregues ― somos todos mui amigos. Cheiramo-nos, esfregamo-nos, lambemo-nos ― momentos fáticos, é só procurar no Aurélio.

Bebidas correm, alguns se servem sós, a estrela maior e dona da casa ajuda, sugere, insinua, oferece, conversa-se sobre tudo e qualquer coisa, os assuntos sempre ficam no ar, interrompidos por gente que chega ou se agrega, oferecendo tópico novo sempre inoportuno. A máfia nos assegura, a todos os habitués habituados, e deixa mais ou menos de fora os ianomâmis. Tentamos ajudá-los: "Vocês ainda moram em Pirapora?".

A reunião é uma tensão permanente ― fracassa se houver demais, fracassa se não houver nenhuma. O novelista de tevê, com quase 2 metros de altura, que surge sem ter sido convidado, triscado e inconveniente, como sempre, agride a atmosfera, e a anima exatamente quando o embaixador em Paramaribo, chato sem galochas, tinha levado a conversa de seu grupo à sonolência. E a gostosona gaúcha que entra ameaçando todas as mulheres e estuprando todos os homens (figuradamente, é claro) abre novo caminho nas relações intersexuais.

Já são 2 da matina, houve conversas de todos os matizes, música, canto, as piadas chegaram ao escabroso, os (muitos) que ainda não partiram têm uma intimidade inimaginável numa reunião de bancários, mas fiquem tranqüilos ― a noite não vai acabar em orgia, fornicação, sexo grupal ou striptease. Isso é no andar de baixo. Aqui é a ilha da fantasia, e, no fim, respeito é bom e todos gostam. Se há algum desregramento visível, insinuado ou combinado, isso será resolvido depois, entre as partes interessadas. Os outros apenas observam e registram para a maledicência telefônica de amanhã de manhã.

Mas a festa tem fecho de ouro quando há surpresa, mesmo pros que já não se surpreendem com coisa nenhuma. Entra inesperadamente, trazido pelo embaixador do grupo, o português timorense, prêmio Nobel da Paz, cercado por seus acólitos, assessores e profetas, todos com muita barba, muito cabelo desgrenhado, dois terços aparentemente sem banho, cheios de proselitismo com justa causa, para comungar com esses intelectuais brasileiros, companheiros, irmãos, artistas da pesada. Entra no exato momento em que Chico Caruso com seu vozeirão (ninguém é Caruso impunemente) começa a cantar o maior hit de sua carreira: "Sou pederasta".

Quié qué isto, ô pá?

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado na revista Veja.

Millôr Fernandes
Rio de Janeiro, 22/9/2008

 

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