Setup dos Colunistas
Manual de Estilo



Este não é um manual formal; é apenas o manual do Digestivo. Uma tentativa de uniformizar a apresentação de textos dentro do site, como é feito nos principais veículos da imprensa grande. Óbvio que as normas foram montadas por nós; pela nossa prática na internet – que ainda não consagrou nenhuma norma definitiva. Portanto, alguns pontos seguem passíveis de discussão. E de mudança.

Este Manual está dividido em quatro partes:

* Formatação: Negritos; Itálicos; Aspas; Maiúsculas, minúsculas, caixa alta e caixa baixa;

* Regras gramaticais: Por que, por quê, porque e porquê; Quê; Crase; Que, de que, etc.; Que e quem; Mais que, mais do que;

* Dicas de estilo: Data e hora; Mais nomes próprios (lugares, épocas, etc.); Números; Sinais gráficos; Pessoas; Literário versus coloquial; Frase longa e frase curta; Frases balanceadas;

* A seguir cenas dos próximos capítulos...

1. Formatação
A internet consagrou principalmente dois tipos de formatação: negritos e itálicos.

1.1. Negritos
Aqui usamos para subtítulos. Por exemplo, quando dividimos uma Coluna em várias partes, à maneira da Folha de S. Paulo.

Na internet, muitos usam para dar ênfase – como em literatura são usados os itálicos (vamos ver a seguir, item 1.2.3). Melhor não seguir essa diretiva, pois o texto fica carregado, incomodando a vista de quem lê.

1.2. Itálicos
Itálicos são usados em três tipos de situações: para títulos de obras; em palavras estrangeiras; e para enfatizar.

1.2.1. Títulos de obras
Itálicos são usados em títulos de obras totais (se é que se pode usar esta expressão).

Por exemplo: Machado de Assis é autor de Dom Casmurro.

E, não, em: Machado de Assis é autor de "A missa do galo" (que é um conto, uma obra parcial, logo aparece entre aspas e não em itálico).

Assim, não só títulos de livros, mas também títulos de álbuns de música, títulos de filmes, títulos de exposições, títulos de peças de teatro, títulos de programas ou séries de televisão.

E, não, em: capítulos ou seções de livros; faixas, canções e peças de música não-autônomas (embora os jornais usem); episódios ou cenas, dentro de filmes, de séries ou de programas de televisão; atos de uma peça de teatro ou ópera – todos, aqui, devem vir entre aspas.

Deste modo, merecem itálico: a Divina Comédia, de Dante Alighieri; o The Wall, do Pink Floyd; o E.T., de Spielberg; a Monalisa, de Da Vinci; o Vestido de Noiva, de Nélson Rodrigues; o Manhattan Connection, de Lucas Mendes; o Plantão Médico (ou, em inglês, E.R.), de George Clooney.

E não merecem itálico (mas, sim, aspas): o "Poema de Sete Faces", de Drummond; o "Apesar de Você", de Chico Buarque; o episódio "Blame it on Lisa", dos Simpsons, que se passa no Brasil.

1.2.2. Palavras estrangeiras
Como regra geral, adotar itálico para toda e qualquer palavra estrangeira é fácil. A dificuldade está em separar aquelas que já foram incorporadas à nossa língua (sem itálico) daquelas que não foram em definitivo ou daquelas que ainda não foram por serem muito novas (ambas em itálico). Na dúvida, sempre recorro ao dicionário Houaiss, que é, para mim, o melhor padrão a ser seguido (aliás, quem quiser uma cópia da versão em CD-ROM, é só me avisar que eu envio por correio).

1.2.2.1. Palavras estrangeiras não incorporadas à língua
Embora muito comuns, certas palavras estrangeiras ainda não foram incorporadas ao vocabulário da nossa língua e devem ser grafadas em itálico.

Por exemplo: e-mail, marketing, site, best-seller, blog, show, etc.

Não entram aqui os neologismos, muitos deles hoje a partir do inglês (quase sempre, abomináveis): deletar, resetar, inicializar, "bootar" (de boot), etc.

1.2.2.2. Palavras estrangeiras já incorporadas
Um exemplo recente: internet.

Outros exemplos não tão recentes (e já mais manjados, que mereceram "aportuguesamento"): táxi, mídia, computador, etc.

Na dúvida, como saber qual é qual? Consulte o Houaiss. Com o tempo, você decora.

1.2.3. Ênfase
O itálico usado como ênfase é um pouco sutil e até perigoso. Pessoalmente, demorei muito tempo para percebê-lo (e, mais ainda, para usá-lo).

Existe um exemplo clássico. Lá vai: "João Gilberto, em determinada época, não apenas inventou a bossa nova: ele era a bossa nova".

Esse "era" – se ajuda a guardar – lembra uma ênfase oral. Leiam a frase inteira em voz alta e percebam. Quando estiverem escrevendo, é uma boa regra para ser adotada. Eu a adoto.

Vale avisar que se esse itálico for usado indiscriminadamente perde a ênfase. Já fui mais apaixonado por essa forma; hoje sou econômico ao máximo.

1.3. Aspas
As aspas, mostrei antes (item 1.2.1), são designadas para partes, trechos ou fragmentos de obras.

Mas são também muito úteis para fazer citação. E fulano falou: "...".

Tem gente que prefere o itálico nesse caso. A preferência é individual. O que não pode, a meu ver, é colocar aspas e itálico para fazer citação. Fica extremamente carregado. Principalmente se o trecho for longo e literário. (Só pode quando for trecho em língua estrangeira ou então citação no início ou no final de um texto, tipo epígrafe.)

Citações curtas também vêm ao caso. Por exemplo, aí em cima (1.2.3), eu disse: a palavra "era" etc. Como estou citado essa palavra ("era") num contexto, uso aspas. Tem gente, claro, que prefere, aqui também, itálico. Eu acho que acaba se confundindo com a ênfase (o mesmo 1.2.3) e atrapalha.

1.3.1. Aspas simples
Na internet, muita gente, muita gente mesmo, usa aspas simples como se fossem aspas duplas (1.3). Ou seja, em vez de escrever: ele cantou "Alegria, Alegria"; escrevem: ele cantou 'Alegria, Alegria'. É interessante, é moderno, mas aqui vamos usar aspas duplas para citação.

As aspas simples servem, na verdade, para citação dentro da citação. Exemplo: ela disse o seguinte: "Você deveria parar de cantar 'Alegria, Alegria'".

Como fazer com citação-dentro-da-citação-dentro-da-citação? É muito raro e eu usaria: aspas simples, aspas simples e aspas duplas (digo, de dentro pra fora).

1.3.2. Gírias
Aqui, no meio, uma quase dica de estilo.

Particularmente, quando vou usar uma gíria ou uma palavra que me parece esquisita, uso aspas: ele me chamou de "pit bicha" (tsc, tsc...).

Há, claro, quem prefira itálico. E até quem não prefira nada. Fica, portanto, como uma dica.

1.4. Maiúsculas, minúsculas, caixa alta e caixa baixa

1.4.1. Maiúsculas e minúsculas
Maiúsculas sempre para nomes próprios. De empresas, de pessoas. De conglomerados de mídia (grupos donos de jornais e revistas), de estações de rádio, de teatros, de museus, de canais de televisão (e nunca em itálico). Exemplos: a rede Globo é dona do jornal O Globo; a rádio Jovem Pan transmitia o Pânico; o teatro Imprensa apresenta Esperando Godot; o MASP expõe Os Girassóis de Van Gogh; o SBT exibe Casa dos Artistas; etc.

Um exemplo controverso é nome de site. Se for empresa, uso só maiúscula, como em Microsoft, Google, Yahoo. Se for publicação, uso maiúscula (ou até, se pedir, minúscula), mas itálico: No Mínimo, Digestivo Cultural, Salon. UOL, Terra, iG são, às vezes, portais de notícia, mas são, antes de tudo, empresas, portanto, sem itálico e com maiúscula.

(Observação: nomes próprios, mesmo que estrangeiros, além de maiúsculas, não precisam de itálico. Vimos: Google, Microsoft, Yahoo...)

Mais controvérsia: títulos. Houve um Colunista que colocava tudo em maiúscula, nos títulos de suas Colunas. Eu acho excessivo. Houve outro que colocava tudo em minúscula. Acho excessivo também. Fico com o meio termo: maiúscula no início e minúscula nas demais palavras (para as Colunas).

No que concerne a obras, quando tenho dúvida (e não tenho indicação, em encarte de CD, por exemplo) adoto o seguinte procedimento: obra completa em itálico e maiúsculas; partes da obra entre aspas e com maiúscula só no começo. Exemplo: em The Wall (itálico+maiúscula), mais precisamente no segundo disco, o Pink Floyd (maiúscula, sem itálico – nome próprio) abre com "Hey you" (aspas+minúscula, o itálico entra por conta de ser língua estrangeira).

Sei que em inglês se joga tudo para a maiúscula e pronto, mas, em português, não. (Aliás, se você quiser jogar, segundo o Aurélio, deveria deixar em minúscula os monossílabos. Exemplo: A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água.)

1.4.2. Caixa alta e caixa baixa
Caixa alta – todas as letras em maiúsculo –, principalmente em e-mails, soa como alguém berrando. É antipático e é falta de educação. Evitem. Às vezes, só às vezes, porém, serve como ênfase (quando não se tem o itálico). Exemplo 1: CALE-SE! (falta de educação). Exemplo 2: não perguntei por que você fez aquilo, perguntei como você PÔDE fazer aquilo (ênfase).

Em literatura, a caixa alta é também usada para o "grito". Mas, particularmente, ainda prefiro o itálico – acho mais elegante.

Já caixa baixa – tudo em minúscula – virou moda em e-mails e entre profissionais de design. Não tem nada a ver com a gente, a não ser que você queria emular o estilo de uma adolescente teen no Messenger; ou então queria imitar a maneira fashion de determinados arquitetos. Em jornalismo não tem nada disso.

2. Regras gramaticais
Hoje a gramática é vista como autoritarismo e imposição. Mas ela continua existindo. Como meu aprendizado é empírico, posso estar errado em alguns pontos, mas tenho bastante certeza sobre o que exponho abaixo – e gostaria que vocês seguissem.

2.1. Por que, por quê, porque e porquê
Primeiro, o mais fácil: porquê. Porquê, junto e com acento, é substantivo. Usa-se tanto em pergunta quanto em resposta, assim: "Qual o porquê de você fazer isso? Os meus porquês não interessam, você deveria simplesmente aceitar" (ou "aceitá-los", para ficar mais evidente aqui).

Segundo, o segundo mais fácil: porque, junto e sem acento. É a justificativa da pergunta com "por que" ou "por quê". Logo: "Mais um chacina. Por quê? Porque a violência está incontrolável no Brasil." Ou então: "Por que tanto barulho por nada, afinal, é só mais uma chacina? Ora, porque ninguém agüenta mais tanta violência".

Terceiro, o menos difícil: por quê, separado e com acento. Ocorre geralmente quando não está especificado a que esse "que" (com acento) se refere. Digamos: "De repente, o mundo desabou sobre meus ombros. Por quê?" Ou seja: o autor da pergunta não tem a menor idéia de "por que o mundo desabou" sobre seus ombros – então joga simplesmente: "Por quê?" (Falo mais sobre esse "quê" no item 2.2.)

Quarto, o aparentemente mais difícil, mas que decorre da explicação anterior: por que, separado e sem acento. É quando a pessoa pergunta, mas tem alguma idéia ou limita mais o escopo da resposta. Assim: "Por que você fez isso?" Traduzindo: o "que" especifica a ação de "fazer", não está mais solto e indefinido.

Complicômetros: "por quê" e "por que" não aparecem só em perguntas, com interrogação, mas em perguntas indiretas e até em frases afirmativas – desde que não se mude o sentido. Por exemplo: "Ele ficou estupefato e passou anos querendo saber por quê". Ou ainda: "Ela perdoou, mas sempre lhe perguntou, de tempos em tempos, inconformada, por que ele fizera aquilo".

2.2. Quê
Do mesmo jeito que em "por quê", o "quê" aparece em outras situações, ao lado de outras partículas.

"O quê?" – pode servir de interrogação simples. O autor da pergunta pode, por exemplo, estar pedindo para repetir o que foi dito: "O quê? Repita. Não entendi".

"Para quê" ou "pra quê" – mais adiante, nas dicas de estilo (item 3.6), exploro as diferenças entre "para" e "pra", mas, por enquanto... – essa expressão poderia ser trocada por "para fazer o quê?". Como no primeiro "para quê" não está especificada a finalidade, o "que" com acento.

(É como se esse "quê" fosse substantivo; e pudesse ser trocado por "algo", "alguma coisa", etc.)

2.3. Crase
Existem milhões de casos e de exceções, mas vou abordar aqui algumas regras de ouro que simplificam bastante a questão – e funcionam.

Por exemplo, como disse num texto meu, não existe crase antes de palavra masculina. Portanto, o correto é: a princípio, a prazo, etc. Outra: não existe crase antes de verbo. Logo, não existe em: "a partir (de)" e suas variantes.

A crase pode ser percebida se se evocar a situação equivalente no gênero masculino. Por exemplo: para saber se "à meia-noite" tem crase, basta se lembrar que "ao meio-dia" pede artigo masculino "o" – como a crase é a junção de preposição ("a") mais o artigo ("a"), ela ocorre.

Existem, claro, expressões que pedem crase sempre. E eu não sei bem por quê. Decorei e pronto. Como: "às vezes", "à beça", "à grande", "à Luis XIV". Os gramáticos explicam o fenômeno como a supressão de determinadas palavras no meio ("à moda de Luis XIV"), mas não sei se é suficiente...

Quando diante de pronomes possessivos, dizem que a crase não é obrigatória. Eu coloco quando acho que vai artigo (falo mais sobre isso nas dicas de estilo, item 3.6). Logo: "Mande lembranças à sua mãe. Sinto falta de dizer algumas verdades àquela sua prima".

O caso mais esquisito, a meu ver, que contraria a primeira regra (não existe crase antes de palavra masculina) é o do pronome demonstrativo "aquele(s)". Ele pede crase. Vide: "Diga àquele seu primo que ele é um canalha". (Se alguém conseguir me explicar...)

2.4. Que, de que, etc.
Atualmente é muito comum que não se respeite a concordância, e os "ques" ficam todos soltos, sem preposição, no meio das frases. Não é difícil perceber quando está errado, basta evocar a regência verbal e, em alguns casos, o complemento nominal.

"Falar", por exemplo, pode aparecer no sentido de "falar de" alguém ou alguma coisa. Portanto, o certo é: "Lembra daquele amigo de que te falei?" E, não: "Aquele amigo que falei ontem vem aqui em casa".

"Medo", geralmente, vem acompanhado de "de que". Assim: "Você tem medo do escuro? Não, apenas tenho medo de que me assustem à noite". (E, não: "Tenho medo que me assustem à noite".)

Assim também "a que", "para que", etc. "O homem a que me dediquei a vida inteira, nunca me valorizou". E, não: "O homem que me dediquei...".

2.5. Que e quem
É simples. Em frases subordinadas adjetivas, o "que" concorda com o sujeito da outra frase e o "quem" vai sempre para a terceira pessoa do singular. Não entendeu? Lá vai:

"A confusão fui eu que fiz" – como o sujeito é "eu" (primeira pessoa do singular), o verbo (fazer) concorda com ele (ela), porque se usa "que" como conjunção.

"A confusão fui eu quem fez" – aqui, não importa o sujeito: "quem" exige terceira pessoa do singular e assim o verbo (fazer) é flexionado.

2.6. Mais que, mais do que
Essa diferença eu demorei pra perceber. Ia de ouvido. Mas errava. Existe uma regra.

"Mais do que" aparece em comparações: "Ele é muito mais escritor do que eu". E "mais que" não aparece em comparações, mas quando se quer extrair mais "daquilo": "Mais que escritor, ele é um grande sujeito".

Existem situações delicadas, mas, na maioria dos casos, é assim que funciona.

3. Dicas de estilo
Vou das mais evidentes para as mais sutis.

3.1. Data e hora
Embora em inglês se use nome de mês em maiúscula, em português se usa em minúscula: janeiro, fevereiro, março... Salvo quando a data fica substantivada. Exemplo: Durante o 11 de Setembro,...

Dias da semana, mesma coisa. Minúscula. Prefiro, pessoalmente, a forma por extenso (segunda-feira, terça-feira, quarta-feira...), ainda que a forma contraída também exista (2ª feira, 3ª feira, 4ª feira...). Enfim.

Hora se escreve assim: 9h25. E, não: 9:25, que se faz em inglês, mas que, em português, significa divisão. A abreviatura – às vezes tenho dúvida e grafo "hrs." – é "hs." ("h." para hora e "hs." para horas – descobri, outro dia, no Aurélio).

3.2. Mais nomes próprios (lugares, épocas, etc.)
Eu costumava escrever "Avenida Paulista", mas então li o livro do Roberto Pompeu de Toledo e passei a preferir: "avenida Paulista" – ou seja: "Paulista" é o nome e "avenida", apenas a designação. Não é questão fechada, porque o Aurélio (de novo) prefere tudo em maiúscula. Mas eu fico assim; também para designação de outros locais geográficos. Acho mais leve e simpático.

Também para épocas. Sei que a maioria escreve "Antigüidade", "Idade Média", "Renascença". Eu ponho tudo em minúscula. Talvez mude; por enquanto, não.

Na imprensa acompanhei a evolução de um nome: de "AIDS" (uma sigla) para "Aids"; agora, para "aids". Penso que essa é a "evolução" das palavras, por isso grafo "internet" (e não "Internet"). Mesmo grafando "Web"...

3.3. Números
E já que falamos de datas...

Eu prefiro colocar os cardinais: 1, 2, 3,... Por extenso ("um", "dois", "três"...), uso apenas quando quero enfatizar – ou quando os cardinais estão excessivos.

Ordinais continuo usando, embora a maioria tenha abolido. Prefiro "século XX", para não confundir com as suas décadas, do que "século 20". E prefiro "João Paulo II", a "João Paulo 2º", como muita gente faz agora.

3.4. Sinais gráficos
Aprendi a usar travessão ("–") com o Nélson Rodrigues. O travessão, a meu ver, é uma explicação mais ligeira (para não carregar de parênteses), e, também, no fim da frase é uma ênfase. Exemplos: "Ele – que era muito meu amigo – entrou sem bater à porta" ou "Grande sujeito – honesto, fiel, leal". Já usei mais parênteses e hoje prefiro evitar; acho que não preciso explicar, todo mundo sabe para que é que servem (os parênteses).

O colchete ("[" e "]") vem das lições de matemática, da computação... e dos blogs. Uma das primeiras vezes em que vi colchetes, na internet, foi no Catarro Verde. Hoje acho que, na maior parte dos casos, como o negrito para ênfase (1.1), é apenas mau uso (no lugar) de parênteses. Assim, como as aspas simples dentro de citação (1.3.1), uso apenas para "parênteses dentro de parênteses" – ou para omitir, com reticências, trechos de uma citação. Ou para incluir outros. Assim: "Ele disse [...] finalmente que a adorava" ou "Cuidado com os degraus [em] que você tropeça" ("em que" no item 2.4). Etc.

3.5. Pessoas
Relutei muito, como vocês sabem, em usar a primeira pessoa (do singular). Hoje uso "na maior". É bom para depoimentos; para testemunhos; e para crônicas. Não muito para jornalismo objetivo, nem muito para quem busca isenção. Embora, hoje, seja tão normal.

Segunda pessoa do singular nunca uso. Só para pronomes. Usar o "tu" e, principalmente, os verbos em segunda pessoa é cafona e fora de moda. A não ser que você queira emular alguma coisa. Mas é raro. (Procurem evitar...) Mantenho os pronomes porque não há outra forma: "Eu te dei", "Eu te liguei", "Eu te falei" – se usar "lhe", soa extremamente formal.

Terceira pessoa do singular, como disse, para "descrição". E para uma relação, aí sim, mais formal. Por e-mail talvez...

Primeira pessoa do plural. Em geral, fujam. Principalmente dos verbos conjugados. Muito populares em teses acadêmicas, mas, acreditem, soam terrivelmente maçantes – mais ainda no início da frase (e no tempo futuro).

Terceira pessoa do plural, eu uso como tratamento, a exemplo do "você": "Viu, leitor?", "Gostou, leitor?", "Entendeu, leitor?" – vira: "Viram?", "Gostaram?", "Entenderam?". Me parece afável, embora meio pedante (didático); mas está OK.

3.6. Literário versus coloquial
Vocês perceberam que isso tudo é um embate entre o literário, de Portugal, e o coloquial, do Brasil. É a nossa sina. Não tem solução. ("Não acredito em brasileiro sem erro de concordância", Nélson Rodrigues.)

Como vocês também perceberam, costumo misturar. Não tenho uma regra para isso. Quando estava descobrindo as palavras, usava um estilo mais empolado (d'antanho, todavia, porquanto...), como uma espécie de virtuosismo. Depois fui aprendendo a simplificar. E a soar mais perto do que as pessoas falam – não exatamente igual (porque elas falam mal), mas próximo. Aboli, por exemplo, alguns pronomes e fui enxugando, enxugando, enxugando...

Não falo, digamos, "eu me lembro" e, sim, "eu lembro". Estou aprendendo – com a Ivana Arruda Leite e a Ana Elisa Ribeiro – a diferença entre "para" e "pra" (ela existe: "Pra quê mentir? Se, para mim, faz tanto sentido..."). Limei muitos artigos. Quando posso, substituo "da" ou "do" por "de" – e suprimo artigos definidos (ou indefinidos) soltos no meio da frase.

E vocês sabem, uso gírias. Muitas gírias. "Pô", "beleza", "cara"... Nem sempre, claro. Não toda hora. Mas areja, em muitas situações. Dá uma "atualizada" no registro... E próclise. Tinha um pudor... Agora: me digam se não é legal? Às vezes, também, claro.

3.7. Frase longa e frase curta
É um conceito que inventei. Não está em nenhum manual de gramática. É, portanto, questionável.

Escrevia de algum jeito... Quando descobri o Diogo Mainardi e as frases curtas: qualquer coisa, ponto. Ponto, ponto, ponto. Parece um telegrama. Mas, hoje, funciona. As pessoas têm raciocínio entrecortado.

Me ajudou muito a escrever notas. Que devem ser breves. Diretas. Simplificadas.

Depois, porém, eu quis escrever longo de novo. O jornalismo quase não o faz; ou faz pouco. É na literatura que encontramos. Mesmo na dos modernos Proust e Thomas Mann. Vírgulas. Pontos. Ponto-e-vírgula. Dois pontos. Travessão. Parênteses...

Pratiquem as formas curta e longa. Cada qual tem a sua utilidade. A curta, por exemplo, em diálogos (leia as peçais de Nélson Rodrigues e veja). A longa, para contos, para romances – vocês não querem ser escritores?

3.8. Frases balanceadas
É outro conceito meu. Mistura engenharia, eu acho.

Mas funciona assim: procure soltar frases equilibradas. Com sujeito, verbo, etc. Que fiquem bonitas no papel. E não garranchos desconjuntados. Muitos dos meus ídolos não tinham essa preocupação (Paulo Francis, por exemplo) – mas acho-a fundamental.

Veja como eu tento: entre um sinal gráfico e outro, sempre uma frasezinha completa; nada de palavras soltas (ou trechos). Nada de falta de equilíbrio nos períodos. Tem de soar bem. Fluido. Viu?

É um pouco difícil. Você tem de pensar assim... e ir soltando as coisas assim. (De lá de dentro da cabeça.)

Claro, nem sempre é imediato. O stream of consciousness, às vezes, atrapalha. E vamos registrando como dá... Mas preocupem-se! Uma hora sai.

E vocês não esquecem mais.

4. A seguir cenas dos próximos capítulos...

* Todo, todo o, toda a: é a mesma diferença entre "toda pessoa" (qualquer pessoa) e "toda a pessoa" (a pessoa por inteiro).

* Ser e ter, como verbo auxiliar (ou não), no singular e no plural: prefira "ter de fazer é uma obrigação de todos nós" a "termos de fazer..." (ambos estão corretos).

* Pronomes (oblíquos ou não) no início da oração: em vez de "saiu; te falei que ela não ia voltar?", use "saiu; bem eu que te falei que ela não ia voltar" (pronome em início de frase – a não ser que seja próclise, proposital (item 3.6) – é feio demais.

* Esta semana e nesta semana, qual a diferença? Não tem. Para ficar mais leve uso "esta"; mas se há outros advérbios ou pronomes ("este", "esta", etc.), prefiro "nesta" (para diferenciar, ou marcar). Agora fujam de "dia desses", é sempre abertura de crônica de cronista preguiçoso (reparem, reparem).

* É, são... concordam com o sujeito ou com o verbo? Aprendi com o Professor Pasquale: depende do que você quer enfatizar. "Em português, o problema são as regras" (enfatizo "as regras"). "Em português, o problema é as regras" (enfatizo "o problema"). Ambas as formas estão corretas.

* Entre, dentre – ainda estou destrinchando, mas existe diferença. Tem a ver com concordância; à maneira do item 2.4.

* Vogais repetidas (ou consoantes; coloquialismo). Aprendi com Tom Wolfe. Prefira número ímpar. Tipo: "Ele é muuuito legal" (três Us e não dois ou quatro). Ou: "Shhhhht! Eu pedi pra fazer silêncio!" (cinco Hs e não quatro ou seis).

(Lembrei tarde e não queria sobrecarregar este Manual. Um dia ponho essas observações no lugar certo...)

* Ah! Este, esse, aquele... Este para "o presente": este Manual de Estilo. Esse para "o próximo": essas observações (aí em cima). Aquele para o distante: aquele Colunista (que saiu do Digestivo). Tem quem troque "esse" por "esta", mas aí é outra história...

(Estória não existe mais. História, com maiúsculo, só a matéria. O resto é história mesmo, OK?)

Setup dos Colunistas
Manual de Estilo