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Terça-feira, 3/12/2002
Noite de Estrelas

Julio Daio Borges




Digestivo nº 110 >>> Na maioria dos casos, um marketing avassalador não corresponde a um produto de grande qualidade. Afinal, o que precisa ser tão incansavelmente promovido não deve ser lá grande coisa. Ledo engano, dirão os publicitários. Hoje em dia, ninguém dispensa (e ninguém vive sem) a tal da propaganda. Pode ser. O fato é que o CD "Maricotinha Ao Vivo", de Maria Bethânia, objeto da campanha mais agressiva já bancada pela gravadora Biscoito Fino, em tese, não careceria de todo esse aparato. Ou, justamente, por ser um álbum excepcional, careceria sim - e muito. Depois de hordas de cantoras com um fiapo de voz, repertórios catatônicos, injustamente insufladas por equívocos críticos, é um alívio reencontrar Maria Bethânia. A perfeição não é privilégio de todo grande artista, em todo tempo e lugar. A própria Bethânia já havia feito, recentemente, dois outros registros ao vivo sem o mesmo brilho: "Maria Bethânia Ao Vivo" (1995) e "Imitação da Vida" (1997). Mas "Maricotinha" justifica todos os ensaios que o precederam. Faz-se marco. Para começar, existe uma limpidez na gravação, rara ou então sui generis, que transporta o ouvinte direto para o show. Sendo a intérprete um ser eminentemente de palco, revela-se fundamental essa preocupação. Em segundo lugar, acompanhando a sonoridade transparente, há uma banda afinada e equilibrada, como poucas, em condução de Jaime Alem. Em seguida, um repertório escolhido a dedo, como todos, aliás, deveriam ser (mas não são). Ao lado de clássicos na voz da cantora - ao lado de um Chico Buarque, de um Caetano Veloso, de um Fernando Pessoa -, há espaço para novos nomes, amplificados com justeza, como Lenine ("Nem sol, nem lua, nem eu"), Adriana Calcanhoto ("Cantada") e Cazuza ("Todo o amor que houver nessa vida"). "Maricotinha" inova ainda na estrutura. Deve ter percebido quem viu o show (e não só quem o ouviu, agora). As canções e as citações são encaixadas de tal maneira que os trechos (cantados ou falados) nunca ultrapassam os três minutos. A média é de um ou dois, de modo que o conjunto de quase cinqüenta faixas flui solene e elegante. Não chega a ser um pot-pourri, breve e de mau gosto. Ao contrário: é como se Bethânia preservasse a essência da coisa, atirando fora os excessos. Se 35 anos de "Maricotinha" resultaram nisso, que venham os próximos 35.
>>> Maricotinha Ao Vivo - Maria Bethânia - Biscoito Fino
 
>>> Julio Daio Borges
Editor
 

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