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Sexta-feira, 21/5/2004
Dois dedos a menos

Julio Daio Borges




Digestivo nº 176 >>> Jonny, um detetive pé-rapado, é contratado por um cliente cheio da nota para vigiar sua filha, metida no submundo. É o mundo de Jonny, e para ser respeitado entre a moçadinha que cerca a menina, ele se envolve numa fraude bancária atrás de milhões de dólares esquecidos desde 1930 pelos herdeiros de Al Capone. O plano é bem sucedido, a garotada põe a mão na vultuosa soma, mas é perseguida por uma gangue rival, cuja marca registrada é prender a vítima e decepar sua mão. Jonny se envolve com a moçoila, claro, e, por conhecer o chefão do grupo antagonista, salva o seu traseiro e o dela da morte certa. Parece enredo de filme de ação, mas não é. É “argumento” de história em quadrinho e estamos falando de “Jonny Double”, recentemente lançado pela Brainstore Editora, que faz um trabalho exemplar e que vem insistindo no nicho por tantos abandonado. O volume tem o texto de Brian Azzarello, descontando algumas excessivas liberdades de tradução (para torná-lo ainda mais coloquial?), e a “arte” de Eduardo Risso, que já passou até por “graphic novel” do Batman. Jonny Double é um “baby boomer” falido, em vias de se aposentar; o tipo de anti-herói decadente, charmoso e sem rumo – que tanto atrai o leitor jovem e adolescente. Como todo sobrevivente dos anos 60, rememora algumas passagens daqueles “tempos tão loucos”, que arrancam suspiros e exclamações da platéia que acabou de engrossar a voz. Já a mocinha, Faith (esse é o seu nome), faz o tipo rebelde sem causa, vagando por bares, com um “despojamento” de milímetros e uma feição permanentemente entediada. Vocês conhecem o tipo; já cruzaram com ele. Tirando a diferença de idade, eles não formam o par perfeito? O cenário é a São Francisco de “hoje”, com ecos de insurreição “beatnik” e com eflúvios do “hippismo” de Berkeley. A história não se destaca sobremaneira do que já se fez nos anos 90: em cenários de “Blade Runner”, outras almas perdidas já vagaram e já se encontraram, atrás de um sentido para suas vidas sem porquê e sem razão. Na verdade, os quadrinhos deveriam abandonar as imagens de hecatombe (que ainda não houve) e apostar um pouco mais na aurora do novo século. Talvez assim consigam encaixar um sorriso no acinzentado Jonny Double; e na desconsolada Faith.
>>> Jonny Double - Brainstore Editora
 
>>> Julio Daio Borges
Editor
 

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