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Segunda-feira, 30/5/2005
O Encoberto

Julio Daio Borges




Digestivo nº 229 >>> A poesia é um gênero considerado, hoje, difícil para a maioria das pessoas. Em algum ponto da vida contemporânea, perdeu-se o ritmo e quase ninguém consegue ler poemas mais. Uma das tentativas de aproximar os potenciais leitores novamente da poesia é transformá-la em música – com intérpretes, por exemplo, da constelação da MPB. Foi o que fez André Luiz Oliveira, que musicou versos de Fernando Pessoa, e que, no segundo volume do CD Mensagem, reuniu vozes as mais notáveis. Apesar de muitos veteranos, os melhores momentos ficaram por conta de gente nova, ou mesmo desconhecida do grande público, como Monica Salmaso (numa interpretação respeitosa em “D. Afonso Henriques”), Paula Rasec (num arranjo econômico para “‘Nun’ Alvares Pereira”) e Zeca Baleiro (trabalhando bem a rouquidão e a extensão das sílabas em “Ulisses”). Já Cida Moreira exagera no vibrato e na dissonância; Gilberto Gil só consegue soar burocrático e protocolar (como em tudo o que atualmente faz); Elba Ramalho está perdida em uma floresta de violinos e grita mais do que seria recomendável; Edson Cordeiro não deveria ter voltado do esquecimento, “eletro-operístico”, onde havia se enfiado; e Daniela Mercury, depois de tantas transformações malsucedidas e camaleônicas, perdeu completamente a identidade (se é que um dia teve alguma). O erro, na maioria dos casos, é carregar demais na interpretação e converter Pessoa em arte dramática. Se o houvessem realmente lido, em livro, saberiam que seu estilo não combina com os excessos e os floreios de voz empostada, muito menos com qualquer sotaque, e menos ainda com a entonação chorosa do fado. As melodias é provável que estejam corretas (difícil avaliar): aliás, não deve ter sido fácil transpor o “silêncio” dos versos brancos e livres por definição. De qualquer modo, não há sentido maior que não seja o de incitar à leitura. Afinal o poeta que ambiciona apenas virar música (como o escritor que ambiciona virar roteiro de filme ou seriado de televisão) entendeu muito pouco, ou quase nada, da sua profissão.
>>> Mensagem (ouça as faixas) - André Luiz Oliveira
 
>>> Julio Daio Borges
Editor
 

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