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Quinta-feira, 14/9/2006
A crítica de Jerônimo Teixeira
Verônica Mambrini

"Nós não somos tão importantes assim." Jerônimo Teixeira, crítico de livros da Veja, começou sua palestra relativizando a importância do crítico literário. A segunda aula do curso de Jornalismo Cultural promovido pelo Centro de Estudos da revista Cult, nessa terça-feira, deu um bom panorama do cotidiano de quem tem como trabalho comentar livros. A relativização de Teixeira, no entanto, não vai muito longe: ele não deixa esquecer que a Veja é lida semanalmente por um milhão e meio de pessoas. E sobre a função do crítico, diz que ele tem de "mostrar, de alguma maneira um verniz de autoridade para o leitor", ao indicar o que ele deve ler, o que é relevante.

Essa aparente contradição é só um aperitivo do que acaba sendo cobrir literatura e livros no Brasil. Há que se fazer a diferença entre literatura e livros em casos como o do crítico da Veja, que além de ficção cobre livros de assuntos variados, como história e política. E ocupar esse cargo, na Veja, significa receber de editoras uma média de 100 livros por semana, para submeter a filtros e critérios. Em edições mais trabalhosas, são duas ou três resenhas, mais a seção Veja recomenda, com pequenos blocos de texto sobre dois ou três livros - a revista é bastante setorizada, então todo o trabalho ligado a livros fica na mão de uma pessoa só. Não ficaram muito claros quais são os critérios para a pauta de livros da Veja - falou-se muito em "interesse do leitor", o que é bastante vago no caso de uma revista que atinge um público tão genérico e difuso.

Há possibilidades variadas de cobertura da produção em livros do Brasil, claro, presas a especificidades de outros públicos e outras mídias. A palestra em parte reteve-se na rotina de trabalho daquele que é possivelmente o crítico literário mais lido do Brasil. E a dificuldade mais geral que ele enfrenta não deixa de ser a do jornalismo cultural e da crítica em geral: a crise do "homem de cultura", em favor de uma especialização cada vez maior e mais cedo. Nas palavras de Teixeira, "especialização que chega às raias da idiotia".

Livre de preocupações como a busca de novos autores e, em certa medida, das reclamações de escritores supostamente incompreendidos, restam outras dificuldades como o abismo entre o leitor que pouco ou nenhum contato teve com o mundo das letras e o iniciado, problema comum no jornalismo especializado.

Com um tom irônico presente quase o tempo todo, Teixeira se classifica como misantropo, avesso aos contatos com assessorias de imprensa (aos quais sobram petardos como "os releases são muito ruins em geral" e "eles dizem que o livro é interessantíssimo, e o livro não é nada interessante"). O olhar sobre os escritores também é de soslaio: brincando, diz que não freqüenta, sob hipótese alguma, a Vila Madalena, por questões de integridade física.

Resta a paixão pelos livros e o respeito pelos leitores. A primeira, manifestada nas indicações de leituras que pontilharam a palestra e pelo conselho dado em resposta à pergunta da platéia, sobre como avaliar os livros: "não é você quem vai matizá-los, são os livros que são matizados ou não". Frase que, ainda que discretamente, abre um caminho bastante genuíno para a crítica literária: que falem os livros.

Verônica Mambrini
14/9/2006 às 11h37

 

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