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Segunda-feira, 29/1/2007
Entrevista a Ademir Pascale
Julio Daio Borges

Sim, mais uma entrevista — a primeira do ano. Desta vez, a Ademir Pascale Cardoso, do site Cranik. Fora a história do Digestivo, que eu sempre conto, um ou outro insight sobre o futuro do livro, da língua no Brasil e da educação nas escolas. Fica ainda como presente de aniversário ao contrário, aos Leitores do site. Bom proveito! — JDB

Minibiografia:
Julio Daio Borges nasceu em São Paulo, a 29 de janeiro de 1974. Estudou Engenharia Elétrica, com ênfase em Computação, na Poli/USP, e foi redação nota 10 da Fuvest em 1992. Iniciou sua atividade de colunista independente em 1997, com um artigo crítico sobre sua faculdade, na época da formatura, que foi parar na coluna de Luis Nassif, na Folha. Mexe com internet desde 1995, trabalhou nos bancos Itaú e Real, sempre com tecnologia, e montou o Digestivo Cultural em 2000, depois de experiências com seu site pessoal. Dirige um grupo de Colunistas e Colaboradores desde 2001, trabalha com Parceiros e Anunciantes desde 2003, editou uma revista em papel com a FGV/SP em 2004, ultrapassou a marca dos 100 mil Leitores (visitantes-únicos) em 2005 e, desde 2006, trabalha em um projeto para editar o melhor do Digestivo em livro.

1. Quando e por que o site Digestivo Cultural foi ao ar?
O Digestivo Cultural, como newsletter, começou em setembro de 2000 e o respectivo site foi ao ar no final do mesmo ano. Eu já vinha fazendo experiências com jornalismo e internet desde 1997 — como colunista independente —, mas achava que precisaria montar uma revista eletrônica, com outros colaboradores, para saber qual o real alcance da coisa. O Digestivo mistura, desde então, meu interesse pessoal por cultura (e por jornalismo cultural) com a minha afinidade por tecnologia, que cultivo desde a adolescência e infância. O Digestivo Cultural surgiu também porque, além de tudo isso, eu achava que havia uma grande lacuna em termos de jornalismo cultural na internet brasileira.

2. Por que o nome Digestivo Cultural?
Porque eu queria falar de cultura na internet e porque, em 2000, eu achava que só poderia fazer isso de forma "digestiva". Ou seja: de maneira breve, concisa e minimamente interessante para o leitor. Digestivo Cultural, o nome, surgiu de um insight — que, como todo insight, não tem muita explicação, mas já teve várias interpretações. No fundo, eu queria mostrar que a cultura não era um bicho-de-sete-cabeças, podia ser divertida e absorvível por qualquer pessoa.

3. Qual a receptividade e público alvo do Digestivo Cultural?
A receptividade foi boa desde o começo, as pessoas, em geral, simpatizam imediatamente com o nome e o site se beneficiou do retorno à escrita e à leitura com o advento do e-mail desde os anos 90. Agora com a queda do preço dos computadores pessoais, e com o maior acesso da chamada classe C à internet, o Digestivo vem registrando um crescimento quase exponencial desde 2005. Hoje estamos com, aproximadamente, 5 mil visitantes-únicos/dia (150 mil/mês), 15 mil páginas navegadas/dia (450 mil/mês) e quase 20 mil inscritos na nossa Newsletter. E Parceiros como: Livraria Cultura, Companhia das Letras, Casa do Saber e Chakras, entre outros — são mais de dez no momento; fora Anunciantes como o Google e o Submarino.

4. No total, quantas pessoas trabalham hoje no Digestivo Cultural e como você seleciona seus Colunistas e Colaboradores?
Fora eu, que sou o Editor, o Digestivo tem 15 Colunistas fixos, mais 10 Colaboradores esporádicos, um Assistente Editorial, uma Assistente de Produção e duas Ilustradoras (webdesigners) freelancers. Sobre a seleção dos Colunistas e Colaboradores, acontece ou por indicação ou por afinidade. No primeiro caso, um Colaborador antigo indica um novo; no segundo, um potencial Colaborador se aproxima do Digestivo porque já o lê, sabe como ele funciona, entende o espírito da coisa, e acaba, às vezes, até se tornando Colunista fixo. O critério principal é a qualidade do texto. E tem de fazer jornalismo cultural...

5. Com o crescimento da internet e da inclusão digital para os menos favorecidos, você acredita que os e-books, poderão um dia tomar o lugar dos livros impressos? Ou isso não acontecerá, ou está muito longe de acontecer? Qual a sua opinião?
Eu acho que pode acontecer, sim. E não só por causa da inclusão digital, mas porque o próprio PDF — formato já consagrado há anos — é muito prático para quem quer disponibilizar livros na internet. Li uma meia dúzia de livros, no ano passado, a partir de PDFs da internet que eu mesmo baixei e imprimi. Dois deles foram os primeiros livros de contos de Daniel Galera e Daniel Pellizzari, em edição original da Livros do Mal, disponível nos seus respectivos sites. Lógico que existe diferença entre um livro comprado na livraria e um PDF impresso na impressora, mas isso não inviabiliza a leitura — às vezes, pelo contrário, até estimula.

6. Você acredita que a internet possa interferir nas variações diatópicas, excluindo cada vez mais as variações fonéticas em nosso país?
Não, porque outras mídias e outras formas de comunicação vieram, como o rádio e a televisão, e não excluíram. Ou então, se você não concordar, a internet pode "excluir" na mesma medida em que o rádio e a televisão já "excluíram". Na realidade, até penso que a internet pode vir a valorizar a cultura regional e local — embora essa não seja exatamente a minha especialidade... As ferramentas de publicação on-line, inclusive, permitem que a comunicação seja democratizada e que ela não dependa só dos grandes centros emissores de antes.

7. Você acha importante incentivar mais a norma culta e a gramática normativa na internet? Qual a sua opinião?
Nunca pensei nesses termos quando montei o Digestivo Cultural. Acontece que eu venho da tradição do jornalismo escrito, e da literatura, então mais ou menos sigo as "normas" deles. No site, achamos importante que haja uma certa padronização de formatos, ainda que haja estímulo para que cada um desenvolva sua própria linguagem, seu próprio estilo. Se você estiver atento às sutilezas, vai perceber que a Ana Elisa Ribeiro (MG) não escreve igual à Adriana Baggio (PR), que, por sua vez, não escreve igual ao Rafael Rodrigues (BA), que não escreve igual ao Luis Eduardo Matta (RJ), que não escreve igual à Elisa Andrade Buzzo (SP) — e assim por diante... A "norma culta" e a "gramática normativa", como você diz, são uma opção nossa, talvez, mas não vejo como uma obrigatoriedade para todos os sites.

8. Devido ao gigantesco interesse dos jovens pela internet e seus "derivados" — como Orkut, blogs, MSN, MP3, etc. —, as escolas públicas não deveriam repensar seu método de ensino e estimular o aluno para que interaja mais nesse campo lexical?
Sim, eu acho que deveriam; mas não só as escolas públicas, as escolas em geral. Na verdade, o "método de aprendizado" — se é que podemos chamá-lo assim — já mudou, porque o acesso à informação, com a internet, tende a ser pleno. Fica mais difícil, então, impor um "currículo" a cada nova geração de internautas, porque, graças à WWW, eles podem estudar os assuntos que quiserem, na ordem em que quiserem. O ensino, em qualquer nível, terá de ser interativo, dando abertura para sugestões, até estruturais, dos alunos. Na minha época, os professores atentos a isso eram poucos — espero que, hoje, tenham aumentado...

9. Joanne Kathleen Rowling teve uma grande importância no incentivo a leitura dos jovens, com a criação do personagem Harry Potter. Crianças que odiavam ler, hoje pedem livros com mais de 500 páginas nas cartinhas para o Papai Noel e, voltando à questão do ensino público, você não acha que os jovens teriam um melhor aproveitamento em sala de aula com livros semelhantes aos de J. K. Rowling?
Não sei; não é uma questão fechada para mim. Até porque fui um adolescente atípico: eu lia José de Alencar, Machado de Assis, Mário de Andrade, Jorge Amado e gostava. Existe uma discussão, que vem de longe, sobre a validade ou não de fenômenos com Harry Potter. O crítico Harold Bloom não aprova e o brasileiro Sérgio Augusto uma vez afirmou, num ensaio, que "quem começa lendo chorumelas, termina lendo chorumelas" — ou seja, para eles não existe esse "salto" da literatura de entretenimento em relação à alta literatura. No meu caso ainda, na adolescência também li best-sellers como os de Stephen King e Clive Barker, até porque meus amigos liam, mas tenho sérias dúvidas se foram eles que me levaram a Nélson Rodrigues, Paulo Francis e Rubem Fonseca, embora fossem muito divertidos. A meu ver — como já disse aqui —, é a internet que está aumentando, mais do que os livros, os índices de leitura e escrita.

10. Pedagogia Libertária ou Ensino Bancário? Qual a sua preferência e por quê?
Não sei se entendo tanto do assunto para responder corretamente. No meu ponto de vista, a Web empurra cada vez mais as pessoas para o autodidatismo, para os cursos mediados pela tela do computador e para a educação continuada, porque o fluxo de informação (e, por conseguinte, a formação) é permanente. Os estímulos das mídias são cada vez em maior número e os esforços da pedagogia, qual seja, é só mais um deles. Numa era de tanto relativismo cultural como a nossa, ninguém tem sempre razão; até para eleger um caminho ou outro é complicado. Minha sugestão é fazer como faço aqui no Digestivo: aposto mais nas pessoas do que nas coisas. As pessoas certas trarão as respostas; tem sido a minha aposta desde 2000.

Julio Daio Borges
29/1/2007 à 00h46

 

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