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Terça-feira, 25/9/2007
Você come escondidinho?
Adriana Carvalho

Ontem foi dia de aula de gastronomia brasileira no Mercado Municipal de São Paulo. O chef Carlos Ribeiro coordena bravamente o projeto de valorização da cozinha nacional, arrebanhando chefs voluntários de vários cantos do Brasil para dar as aulas. Agora que estamos perto do Dia das Crianças, a platéia contribuiu a título de ingresso com a doação de brinquedos para as crianças do Lar Novo Mundo.

Os temas nesta segunda-feira, com direito a degustação, foram a cozinha capixaba e a da Paraíba. Uma das coisas que eu mais gosto em aulas de culinária é de entrar na sala e já sentir o perfume dos pratos sendo preparados. No caso, era o cheiro da torta capixaba, prato servido na Semana Santa e feito com bacalhau desfiado, carne de siri e camarão, unidos por ovos batidos, cobertos com claras em neve e temperados com cebolinha e... coentro.

Ah, coentro, a minha diferença na cozinha. Mas, parecendo ler o pensamento da platéia paulista, o chef Carlos Ribeiro diz: "Sim, vai coentro. É preciso aprender a respeitar o coentro. Não, não dá para substituir por salsinha. Não fica o mesmo prato". Certo, farei um esforço. Acho que meu trauma com coentro vem da primeira vez que senti seu sabor, numa salada esdrúxula no refeitório da empresa onde trabalhava: acelga com coentro. Toneladas de coentro. Tinha gosto de sabão. Mas, isso é passado. Preciso lutar para superar o trauma. Após a execução e explicações da chef Mônica Meneghel, a torta vem para nossas mesas e é impecável. Sem querer fazer média, o coentro, colocado em proporções adequadas, cai muito bem.

A moça que divide a mesa comigo não prova. Ouço comentar que é estudante de gastronomia, mas não gosta de tomate, nem de cebola, nem de nenhum tipo de peixe ou fruto do mar. Faz lembrar uma estudante de jornalismo que conheci que não gostava de fazer entrevista. Em outras mesas, felizmente, o papo é outro. Bastante entusiasmo e ansiedade de ver as dúvidas serem resolvidas pela chef. Depois da torta, ela ensina a executar a autêntica moqueca capixaba que, diferentemente da baiana, não leva nem leite de côco, nem dendê, nem pimentão e deixa a pimenta à parte para que cada comensal decida a quantidade que quer colocar. Para finalizar, provamos o seu doce de laranja sidra em calda de açúcar.

O segundo convidado do dia foi Jackson K., proprietário do restaurante Vila Cariri, da Paraíba, que tem um site tão delicioso quanto o o prato que aprendemos. A receita apresentada foi carne de sol com cuscuz e creme de queijo de coalho. Cuscuz, é óbvio, do tipo nordestino, que é bem diferente do cuscuz paulista e do cuscuz da moda agora, o marroquino. Muito saboroso, temperado com manteiga de garrafa. De sobremesa, espetinho de queijo coalho e abacaxi com mel de engenho (melado de cana).

Falando em comida brasileira, outro dia minha sogra me perguntou se eu gostava de comer "escondidinho", que vem a ser creme de mandioca recheado com carne seca (ou com carnes de aves e peixes, já são muitas as variações existentes sobre o mesmo tema). Francisco, 4 anos, já com pós-graduação em semvergonhice, prontamente respondeu: "Eu gosto, vovó. Eu pego chocolate antes do almoço e como escondidinho da mamãe".

Adriana Carvalho
25/9/2007 às 13h50

 

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