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Quarta-feira, 27/11/2002
Achados
Julio Daio Borges

Filho querido, a gente cruzou tantos mares, tantas pontes, até desertos. E eu vi você crescendo, aprendendo, no seu corpo e no seu espírito, você crescia e aprendia, caminhando ao meu lado. Às vezes você se afastava, eu chamava, você voltava, e assim seguimos. Foi aumentando a distância dessas suas idas para longe, e aumentando o tempo que você precisava para voltar. Que hoje já são bem grandes: você aprendeu a dizer "não", a conhecer a cidade, a entender as pessoas (mais ou menos...) e, mais que tudo, você É uma pessoa, inteira e separada das outras, e você SABE disso. Eu sinto que uma parte da minha tarefa, de amor e ensinamento, está pronta. Faltam outras, sempre vão faltar outras, e você nem sabe o tanto que eu gosto de pensar que você vai voltar sempre, por alguma coisa qualquer, para meu lado. Antes, certo, de partir de novo.

Há muito tempo, acho que sempre, eu precisei de você, tanto quanto você de mim. E, apesar de ser muito difícil para mim falar de mim mesma, das coisas realmente importantes e profundas, eu quis deixar claro para você, todo o tempo, que amar você nunca foi somente uma tarefa de "mãe" (tarefa, às vezes, muito chata, como você percebe agora, vendo seu irmão sendo o que você era).

Durante esses anos todos, você me deu energia e alegria, deu um sentido e um rumo à minha vida, que teria sido muito diferente, sem você. E de repente você cresceu, e eu já não posso fazer nem dizer as mesmas coisas de antes. E no entanto, há tantas outras coisas, que eu preciso dizer e você precisa ouvir: você agora ama uma mulher, pensa numa profissão, critica o mundo, e tem que se acomodar nele. Tudo isso me preocupa, porque antes eu determinava sua vida, hoje já não determino nem suas camisas. Eu tendo medo que você erre e sofra, hoje, tanto quanto tinha antes. (Você não me dá muitas razões para isso, mas eu continuo sentindo assim.) E o que posso fazer, além de continuar a lhe ensinar, e a continuar a me preocupar? O problema é que eu continuo sendo sua mãe, mas você é menos meu filho, no sentido da proteção, da orientação que você precisa menos.

A vida da gente, sempre tão corrida e cheia de tropeços, curvas e vitórias. Sempre foi, e ainda é assim. Você foi crescendo no meio do rodamoinho, e eu não sei se você percebeu que eu sempre estive atenta, por mais que estivesse ocupada, preocupada, angustiada com outras coisas. Talvez, agora, a gente tenha chegado a algum lugar, a algum tipo de porto. Mas, você vê, a vida continua mudando, tudo acontecendo, e é bom, não é? Eu quero é que a vida continue a correr, como o rio que foi até agora.

Eu quero ver você caminhando, chegando, descansando. Quero ver você criando alguma coisa, como você sempre fez. Quero que você aprenda a amar as mulheres, numa ou em várias. Diz o Reich que uma vida humana se baseia no trabalho, no amor e no conhecimento.

Eu também sigo caminhando, trabalhando, brigando e amando. A gente tem mil coisas a se dizer, por essa vida afora. Eu quero sua opinião, seu julgamento, para minhas loucuras e minhas certezas. Porque eu já sou meio velha, e às vezes os pés nos pesam muito. Ah! Mas eu vejo longe... e por isso é que posso lhe dizer umas tantas coisas, também.

Meu filho querido, obrigada por tudo que você me deu.

Que você seja feliz, muito feliz.

SUA MÃE

Carta de Irles Coutinho para Daniel, o filho do irmão do Henfil (aquele). Está em Achados, de Caique Botkay.

[Filho, mande para a sua mãe. Mãe, mande para o seu filho. Já!]

Julio Daio Borges
27/11/2002 às 08h24

 

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