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Terça-feira, 25/11/2008
Se minha gramática falasse
Daniel Bushatsky

Penso. Penso mais um pouco. Não consigo visualizar vantagem no decreto que reforma a gramática brasileira e a uniformiza com os outros países que falam o português.

Ah, talvez agora sejamos a terceira língua mais falada no mundo. Terceira? Quarta? O que importa?!

A verdade é que a língua portuguesa não possui expressão a nível mundial. Não é tendo Uganda e Príncipe com a mesma língua escrita que seremos mais importantes. Os EUA não colocarão em sua grade curricular o português como língua obrigatória e necessária para o desenvolvimento do país.

Mas não é só isso que me incomoda com a unificação. São nas diferenças que notamos as características populares, suas culturas, raízes e mutações que exprimem como a língua se desenvolveu em cada região.

A língua é como uma pessoa. Tem personalidade e nuanças vinculadas ao meio em que vive. Seu desenvolvimento não deveria ser através de leis, e sim por meio de seu crescimento e amadurecimento.

Não quero ser pessimista e acho que estamos muito longe do que vou dizer agora: mas se a língua é uma pessoa, se ela cresce e amadurece, ela também pode morrer. O pesquisador britânico David Crystal afirma que em média 1 língua morre por semana e até o final do século metade das 6 mil línguas catalogadas já não existirão. Lembre-se que só não morre o que gostamos e nos identificamos. Se não gostarmos da nossa língua como ela é, quem gostará?

Observe que cada vez mais usamos, indiscriminadamente, as palavras importadas. Ora, isto é um reflexo direto da carência de nossa língua e da força da cultura estrangeira inserida em nossa sociedade.

E seguindo com meu inconformismo, verificamos ainda a dificuldade inerente à língua portuguesa. Em um país que há um mar de analfabetos, com um alto índice de repetência nas escolas, é uma crueldade fazer as crianças reaprenderem o que já não aprenderam.

Quase no mesmo sentido, é uma crueldade que um país como o Brasil (e Angola, e Príncipe, e também Portugal) seja representado por políticos que pensam nessa baboseira em vez de investirem seu tempo tentando resolver problemas tão mais graves, tais como: saúde, infra-estrutura e, óbvio, a educação.

Como diria Machado de Assis, não vou dar pernas longuíssimas a assuntos brevíssimos e, portanto, vou perguntar a opinião da própria gramática: "a senhora é a favor ou contra a lei que a altera?"

Gramática: "não sei. Como você se sentiria caso alguém fosse aos poucos destruindo sua alma?"

Daniel Bushatsky
25/11/2008 às 09h26

 

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