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Sexta-feira, 13/3/2009
O fim, segundo Pedro Doria
Julio Daio Borges

[...]Aqui nos EUA, metade dos jornais vão morrer nos próximos dez anos. Os grandes, tipo New York Times, sobreviverão. Possivelmente sairão menores do que entraram. A curto e médio prazo, a situação no Brasil é diferente. Os governos FH e Lula trouxeram muita gente para a classe média e o número de alfabetizados aumenta. Há mais leitores de jornal. Mas, a longo prazo, isso só quer dizer uma coisa: os grandes grupos de mídia brasileiros têm mais tempo do que os norte-americanos para enfrentar as mudanças que já estão acontecendo. Em sua maioria, estão postergando tais mudanças por dois motivos. O primeiro é que não sabem exatamente o que têm de fazer. O segundo é porque nós, jornalistas, somos bichos extremamente conservadores. Resistimos a mudanças.[...]

[...]aqui nos EUA, os leitores com menos de 40 anos não lêem jornais.[...] Lêem os sites de jornais, é verdade. E é por isso que uma das sugestões da moda é que se os jornais cobrarem alguns centavos por cada artigo on-line tudo se resolve. [...]em todo o Vale do Silício, há uma certeza: jornais não conseguirão cobrar por conteúdo. Por um motivo simples: notícia de graça existe às pencas na Web. O que acontece com quem cobra por conteúdo é que termina sem ser lido. O New York Times cobrava pela leitura de seus colunistas, e o dinheiro lhe rendia uma quantia bastante razoável. Mudou de idéia e sacrificou a fonte de renda porque suas colunas não eram mais tema de debate. Deixar de repercutir é justamente o que um jornal não pode fazer.[...]

[...]Nosso modelo de imprensa não é uma tradição de séculos. Ele data, isto sim, de entre os anos 1920 e 40, nos EUA. Alguns princípios são sacrossantos para nós, jornalistas. Um deles é a separação entre Igreja e Estado: quem mexe com publicidade, nas grandes empresas, não dá pitaco na redação.[...] Outro princípio que corre em nosso sangue é o da isenção e objetividade.[...] O modelo caducou.[...] Vocês, leitores, não acreditam que sejamos objetivos.[...] Não é só no Brasil, é em todo o mundo: leitores não acreditam na objetividade jornalística. E uma campanha publicitária não resolverá o problema.[...] Nos próximos anos, queiramos nós jornalistas ou não, o jornalismo será refundado, recriado, reinventado. Se continuarmos como estamos, na defensiva, fingindo que o problema é apenas um modelo de negócios, o novo jornalismo surgirá independentemente de nós.[...]

[...]pusemos uma rotativa nas mãos de quase todo mundo. Agora, acabou.[...] A 'rotativa' é a internet. O modelo de negócios da imprensa era baseado na escassez de distribuição. Quem tinha o poder de imprimir informação e botá-la nas bancas de todo a cidade, estado ou país podia ganhar muito dinheiro. Acabou. Às vezes, vejo jornalistas discutindo a falta de qualidade de informação on-line como se o produto que produzimos todos os dias fosse a melhor coisa do mundo. Não é.[...] Não é repetindo mil vezes que produzimos algo melhor do que o blog da esquina que vamos convencer alguém disso. Não é repetindo duas mil vezes que alguém tem que pagar pela produção destas notícias que o público, comovido, dará um passo à frente e pagará. A informação que temos é igual à informação que existe em vários outros lugares, de graça.[...]

[...]O jornalista profissional, por ser pago para se dedicar[...], acumula fontes, sabe a quem perguntar, tem acesso a figuras no poder, após anos de experiência sabe o que fazer, não é ingênuo. Blogueiros que trabalham somente à noite poderão fazer o mesmo? Cheguei aos Estados Unidos convicto de que não. Hoje, tenho minhas dúvidas.[...] Não porque o blogueiro solitário fará o que um repórter faz. Mas porque um grande grupo de blogueiros e seus leitores, dedicados a descobrir informação sobre algum assunto, podem ser capazes de mais do que repórteres.[...] Por anos, falei eu mesmo muito mal da Wikipédia. Mas se algo de muito importante está acontecendo em alguma parte do mundo, a página da Wikipédia sobre aquele assunto é a melhor cobertura que há. Lá, gente de toda parte está reunindo o melhor que sai na imprensa por toda parte. Um trabalho, diga-se, incrivelmente responsável, com o cuidado de citação de fontes para cada novo dado.[...]

[...]para mim, como para um enorme número de jornalistas, este processo gera uma ansiedade profunda. Este não é um momento tranquilo. A indústria que está ameaçada, afinal, é aquela que nos paga salários. E, em alguns casos, é um trabalho pelo qual temos uma devoção quase religiosa. Temos uma cultura profundamente arraigada. Este processo de transformação não afeta apenas o jornalismo, evidentemente: a indústria musical e de cinema estão aí para demonstrá-lo.[...] Jornalista adora culpar o patrão. Mas não é só o patrão que é pouco transparente. Nós, enquanto classe, também somos.[...] Se a imprensa é o quarto poder, é o mais opaco dentre eles.[...] É um mundo muito diferente este que está à nossa frente. E as mudanças estão apenas começando.[...]

Pedro Doria, que trocou a redação do Estadão pelo Vale do Silício, em "O futuro do jornalismo. (Que futuro?)".

Julio Daio Borges
13/3/2009 à 00h59

 

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