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Sexta-feira, 1/5/2009
Matinas sobre a Serrote
Julio Daio Borges


Man carrying question marks
de Saul Steinberg

"Tivemos uma recepção que eu classificaria de calorosa, e só temos a agradecer ao público leitor e aos jornalistas por isso. Não tínhamos muita ideia do que iria ocorrer e não poderíamos prever que os pedidos das livrarias praticamente esgotassem o nosso estoque em duas semanas. A Serrote ficou durante uma semana em 3 lugar entre os 10 mais vendidos em não-ficção na Livraria Cultura. É uma posição altamente expressiva para uma revista de ensaios."

1. Como no caso da Piauí, a New Yorker serve de inspiração mais uma vez?

No caso da Serrote a inspiração maior foi a The Virginia Quarterly Review, editada pela Universidade da Virginia, nos EUA. Ela é publicada desde 1925, mas sofreu uma grande transformação na década de 1990 e se tornou mais "jornalística".

2. E, no Brasil, qual a inspiração de vocês?

Nós temos boas revistas do gênero no Brasil. Vou citar apenas duas, cometendo uma irreparável injustiça com as outras que estou omitindo: a revista Novos Estudos, do Cebrap, que recebeu um novo vigor editorial no tempo em que foi dirigida pelo Rodrigo Naves e que agora tem um ótimo editor, o Flávio Moura e a Sibila, que tem um enfoque mais literário.

3. Antes da Piauí ― e antes, agora, da Serrote ―, quando se falava em jornalismo literário, no Brasil, era preciso retroceder aos anos 70 (Realidade), aos anos 50 (Senhor)... Vocês querem retomar essa tradição?

Não posso responder pela Piauí, embora como leitor habitual creia que ela faz muita coisa na melhor tradição da chamada narrativa de não-ficção. No caso da Serrote, creio que sim, em um sentido amplo da ideia de jornalismo literário que inclui, além das reportagens e das narrativas mais longas, o ensaio pessoal de tradição anglo-saxã e, em certa medida, a crítica literária.

4. Organizar uma revista, como a Serrote, é muito diferente de organizar uma coleção, como a de Jornalismo Literário na Companhia das Letras? Ou o princípio é o mesmo?

Há uma diferença de pauta. A coleção é feita basicamente de grandes reportagens e a Serrote traz, além dos ensaios, cartas, fotos, ilustrações, críticas.

5. Foi difícil montar o time que hoje compõe a Serrote?

A equipe de texto foi montada pelo Flávio Pinheiro, o superintendente do IMS. A ideia de que haveria uma boa receptividade por parte do leitor brasileiro para uma revista de ensaios, aliás, é dele. O Flávio havia convidado o Samuel Titan Jr. e o Rodrigo Lacerda para coordenarem a área editorial do Instituto. Quando a ideia da revista amadureceu, ele me convidou para fazer a parte operacional. Nós quatro passamos a fazer conjuntamente a revista. O Cassiano Machado, da editora Cosac Naify, nos indicou o diretor de arte Daniel Trench, um jovem talentosíssimo que fez um brilhante trabalho no projeto gráfico da Serrote. É um ato de coragem e de crença no desenvolvimento da cultura brasileira o fato de o IMS ter topado lançar uma revista com essas características em um momento como este, de crise e de grandes incertezas no mundo editorial.

6. Os autores estrangeiros vão continuar tendo muito peso ― até para dar o tom ― ou vocês pretendem aumentar, cada vez mais, o espaço para os brasileiros?

Na verdade, o primeiro número da Serrote tem bem mais autores brasileiros (ou locais) do que estrangeiros. No geral, vamos tentar manter o equilíbrio, mas, pessoalmente, não considero este um grande problema. Nosso compromisso é o de publicar textos de qualidade, bem escritos, inéditos. Considero esses pontos mais relevantes do que a nacionalidade dos autores. Temos a impressão de que existe um público que gosta simplesmente de ler bom textos sem se preocupar com a cor do passaporte do escritor, do fotógrafo ou do ilustrador.

7. Você acha que o ensaísmo à brasileira pode igualmente frutificar ou somos mais dados ao descompromisso, à leveza e à brevidade da crônica?

Acho que o ensaio mais pessoal e menos acadêmico tem grandes chances de prosperar no Brasil.

8. Como tem sido a repercussão, na própria imprensa, até agora? E o que vocês esperavam?

Tivemos uma recepção que eu classificaria de calorosa, e só temos a agradecer ao público leitor e aos jornalistas por isso. Não tínhamos muita ideia do que iria ocorrer e não poderíamos prever que os pedidos das livrarias praticamente esgotassem o nosso estoque em duas semanas. A Serrote ficou durante uma semana em 3 lugar entre os 10 mais vendidos em não-ficção na Livraria Cultura. É uma posição altamente expressiva para uma revista de ensaios. Temos uma estratégia de longo prazo de venda de assinaturas, uma vez que infelizmente nem todas cidades brasileiras contam com uma boa livraria.

Nós pudemos notar também um fênomeno bastante interessante: a Serrote foi muito bem acolhida pelos sites e blogs de cultura e de literatura ― como é o caso do Digestivo ―, mostrando que há um diálogo aberto e amigável entre os veículos impressos e os novos formatos da internet.

9. Vocês apostam no impresso com força... Ele ainda sobrevive, por tempo indeterminado, ao menos em formato livro? O que pensam do assunto?

O impresso permite uma fruição prazerosa, o tato, o cheiro, o folhear de um lado para o outro, uma diagramação diferenciada das imagens. Há uma relação inconsciente com o produto impresso. Se uma pessoa está procurando apenas a leitura em estado bruto, ela poderá se contentar com as versões digitais e eletrônicas. Se ela procura um instante de prazer estético ― uma experiência insubstituível como ir ver uma boa exposição na Pinacoteca do Estado ― junto com a leitura, creio que o formato impresso conservará os seus encantos para esta pessoa por mais algum tempo. Digo isto sem nenhuma nostalgia, pois sou uma pessoa que também enxerga imensas vantagens no mundo virtual.

10. E a internet ― está mais para O Culto do Amador (Andrew Keen) ou pode, igualmente, abrigar ensaios de alto nível? A Serrote terá uma presença também forte na Web? Como será?

Nós achamos que a Serrote na internet deverá ter características diferentes. Estamos analisando as possibilidades, mas o objetivo é também ter uma participação expressiva na Web.

Para ir além
Revista Serrote

Julio Daio Borges
1/5/2009 à 00h15

 

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