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Sábado, 22/8/2009
O Pai dos burros
Rafael Rodrigues

Na edição número 2 da revista Norte (de janeiro/fevereiro de 2008), foi publicado um texto de Humberto Werneck sobre o livro que ele estava finalizando na época, O Pai dos burros ― Dicionário de lugares-comuns e frases feitas (Arquipélago Editorial, 2009, 216 págs.), além de uma pequena prévia da obra. Aguardado ansiosamente desde então por inúmeros leitores e amigos do escritor e jornalista mineiro, eis que, finalmente, a obra chega às livrarias.

O autor explica, no prefácio (divertidíssimo, aliás), que a mania de arquivar expressões comuns demais se deu por acaso: "No começo, sem saber exatamente por que estava guardando semelhante cacaria, eu fazia anotações em qualquer pedaço de papel, que depois enfiava num envelope, mais tarde num envelopão". Como quem procura agulha em palheiro, Humberto conta que nem em velório deixou de anotar uma "nova entrada" para sua coleção de lugares-comuns. Sem falar na ajuda inestimável e desinteressada de amigos, que volta e meia enviavam para o autor novas expressões gastas.

Mas como essa "brincadeira" virou coisa séria? O próprio Werneck responde, ainda no prefácio: "O que me levou [a trabalhar n'O Pai dos burros], ainda quando não passava de embrião de um livro involuntário, foi a obsessão que sempre tive com a funcionalidade da linguagem. A necessidade de que cada palavra, esse precário instrumento de comunicação, chegue o mais perto possível daquilo que se quer dizer. Se escrever vale a pena, deve ser para enunciar algo que se pretende novo ― e me parece um contrassenso, sobretudo no jornalismo, tentar passar o novo com linguagem velha".

E está redondamente enganado quem pensar que o autor "odeia" ou é "contra" lugares-comuns e frases feitas: "Não se ofenda nem se avexe se encontrar aqui alguma ou muitas de suas expressões prediletas. Há várias que também são minhas. O que se quer com este livro é apenas recomendar desconfiança diante de tudo aquilo que, no ato de escrever, saia pelos dedos com demasiada facilidade".

Fernando Sabino, também mineiro, foi outro que teve um "carinho" especial pelos lugares-comuns. Tendo, inclusive, publicado o livro Lugares comuns, que continha: uma introdução sobre o assunto; o Dicionário de ideias feitas, de Gustave Flaubert; e o seu próprio Esboço de um dicionário brasileiro de lugares-comuns e de ideias convencionais. No posfácio do livro, Sabino diz: "Ninguém escapa ao lugar-comum. Esta é a conclusão a que chego, depois de travar com ele uma batalha, da qual, reconheço, saí derrotado. Ele é o pão nosso de cada dia, é a substância de que somos feitos".

Portanto, não se trata de vencer o lugar-comum. Nem de fugir dele como o diabo foge da cruz, ou não utilizá-lo em hipótese alguma. Não é o que propõe Humberto Werneck, com esta que é sua obra mais pessoal. Se trata apenas de, pura e simplesmente, abrir o olho e evitá-lo sempre que possível. Afinal, todo excesso é condenável.

Nota do Autor
Os trechos em itálico são alguns dos lugares-comuns e frases feitas "catalogados" em O Pai dos burros.

Para ir além
Lançamento de O Pai dos burros ― 25 de agosto, às 18h30 ― Livraria Cultura ― Conjunto Nacional ― Av. Paulista, 2073, São Paulo.

Rafael Rodrigues
22/8/2009 à 00h00

 

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