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Sexta-feira, 2/7/2010
E a Holanda eliminou o Brasil
Tatiana Mota

O "Milagre de Port Elizabeth", assim definiu o jornal holandês De Telegraaf a vitória de seu time contra nossa seleção. Em geral os jornais daqui publicaram artigos na internet detalhando os lances mais importantes da partida, as palavras de Dunga após a derrota e a repercussão na própria mídia brasileira, incluindo a mensagem de Ronaldo através do Twitter. O tom geral de surpresa se misturava à alegria dos torcedores, fielmente fantasiados de laranja. Laranja, a cor da família real, estava em todas as direções, nas mais inusitadas decorações, nos permitindo dizer que no quesito torcida eles mostraram-se muito patrióticos. Ainda engasgados, lembravam que demorou 36 anos para novamente vencer nosso país em uma disputa de Copa do Mundo.

Na segunda-feira, dia em que tentavam seguir às quartas-de-final, percebi que tudo estava paralisado em função do jogo, inclusive o comércio, quase todo fechado. Mas os torcedores lotavam os bares e cafés para vibrarem juntos, e aí vi uma banda com tiozinhos tocando músicas nacionalistas, a energia oranje acabou me contagiando. Pensei nesta possível disputa entre Holanda e Brasil que vivemos hoje e quase quis que a Holanda ganhasse. Assustada, apelei aos anjos do futebol, pedindo seu auxílio para me fortalecer até sexta-feira.

A fim de recobrar minhas forças de torcedora em território inimigo recorri ao estádio de Utrecht, onde se reuniriam torcedores canarinhos em favor de nosso time. Sempre que me encontro em eventos da comunidade brasileira acho curioso que todos os clichês sobre o Brasil se concretizem. Em dia de jogo, então, não podia faltar: pandeiros, cornetas, apitos e até surdos, além de belas mulheres de short e salto sambando. Bom, era tudo que precisava para explodir em ufanismo e torcer integralmente a favor da seleção.

Durante o primeiro tempo foi aquela alegria, uma gritaria imensa enquanto nossos "inimigos", também presentes, observavam com curiosidade aquela dança coletiva e até tentavam ensaiar uns passinhos, fazendo muito feio em frente às nossas "passistas". Não havia muita concentração no jogo em si, mas os lances mais importantes eram motivos de gritaria para ambas as partes, sambando bem ou mal.

Veio, então, o segundo tempo. O quê? A Holanda empatou? Ahn? Mais um gol da Holanda? Cartão vermelho? Essas perguntas passaram a inquietar a todos, inclusive os próprios torcedores laranja, que não viram seus jogadores bem no primeiro tempo, mas não acharam ruim que os jogadores brasileiros tenham perdido a cabeça no segundo tempo.

Resolvi apelar para eles novamente, os anjos do futebol. Imaginei Leônidas da Silva, Didi e Garrincha pairando sobre o estádio e tentando soprar bons fluidos para nossos jogadores. Podem muito ter tentado, mas não adiantou. Um rapaz, o tal de Wesley Sneijder, a quem havia eu apelidado Wesley Snipes (rá, rá), praticamente um anão para os padrões de altura holandeses, fez a diferença na partida, cabeceando e marcando o segundo gol para seu time. Pensei um pouco e percebi que a concentração brasileira havia sido organizada em local equivocado, visto que foi dali, daquele estádio de Utrecht, que Sneijder, jogador da Internazionale de Milão, saiu para brilhar.

Após o apito final confesso que fiquei triste e ouvi falar que havia alguma moça chorando em meio à nossa torcida, mas de um modo geral a tristeza demorou um minuto. Depois passou, tudo acabou em samba, todos ali juntos comemorando (?), dançando bem ou muito mal. Os oranje não se importaram, pois em Port Elizabeth seus conterrâneos acertaram o passo ― ou foram os adversários, nós, que perdemos o compasso. A camisa do torcedor holandês aludindo a pernas de pau passou de ridícula a pertinente, que ironia!

Querendo compensar minha tristeza pensei em fazer umas comprinhas, de repente um pretinho básico para demonstrar meu luto diante da terrível derrota. Olhei para as lojas e, adivinhem, tudo era laranja. Pensei em entrar em uma lojinha, mas fiquei com medo de escutar: "Darling, oranje is the new black!".

No caminho para casa escutamos o gol narrado com emoção pelo radialista, em replay. Ele gritava: "Sneijder tem 22 centímetros de altura e fez o gol de cabeça!". Depois vi Dunga, também um anão, ao menos de nome, dando suas declarações, e lembrei-me de outro praticamente anão, a quem intitularia Zangado, que segue firme na Copa enquanto nossos jogadores e Dunga fazem as malas. Assim não vale, mas quem sabe dessa forma não pego um gostinho de torcer para os laranjas encontrarem este time na final e, por favor!, ganharem, e quem sabe a nossa derrota fica menos. Nossos hermanos, do país de Zangado Mano de Diós, não estão perdendo a oportunidade de escrever disparates em sua imprensa, inclusive trazendo à memória a perda triste contra o Uruguai em 1950 no Maracanã.

Querido Diamante Negro, inesquecível Mr. Football, amado Mané Guarrincha, cuidem de nossos corações feridos, tragam-nos forças para que nos recuperemos e possamos fazer um jogo bonito e perfeito daqui a quatro anos e desta vez conseguir ganhar a Copa em nosso país. E, por favor, "inspirem" nossos rivais vizinhos para que permitam a entrada de Mick Jagger no estádio, usem casacos de um estilista famoso e percam o compasso de seu tango.

Tatiana Mota
2/7/2010 às 21h02

 

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