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Quinta-feira, 14/3/2013
Como a Verdade se veste
Duanne Ribeiro

"Era a Verdade esposa legítima do Entendimento, porém a Mentira, sua grande êmula, empreendeu desterrá-la de seu tálamo e derrubá-la de seu trono. Para isto, que embustes não intentou, que trapaças não cometeu? Começou por desacreditá-la como grosseira, desalinhada, desabrida e néscia, e, ao contrário, por vender-se a si mesma como cortês, discreta, bizarra e aprazível; e, se bem que feia por natureza, procurou desmentir suas faltas com seus enfeites. Tomou por árbitro ao Gosto, com que em pouco tempo tanto fez que tiranizou para si o rei das potências.

Vendo-se a Verdade desprezada, e ainda perseguida, buscou amparo na Agudeza, comunicou-lhe seus desgostos, e consultou-a sobre seu remédio. 'Verdade amiga' disse a Agudeza, 'não há manjar mais desabrido nestes tempos estragados que um desengano a seco - mas, que digo, desabrido! - não há bocado mais amargo que uma verdade desnuda. A luz que fere diretamente atormenta os olhos de uma águia, de um lince, quanto mais dos que fraquejam. Para isto, os sagazes médicos do ânimo inventaram a arte de dourar as verdades, de açucarar os desenganos. Quero dizer (e observa-me bem esta lição, estima-me este conselho) que os façais, política: vista-os segundo o costume do próprio Engano, disfarce-os com seus próprios adornos, pois com isso eu lhe asseguro o remédio e ainda a vitória.

Abriu os olhos a Verdade e começou desde então a andar com artifício; usa das invenções, introduz-se por rodeios, vence com estratagemas, pinta longe o que está bem perto, fala do presente no passado, apresenta naquele sujeito o que quer condenar neste, aponta um para indicar outro, deslumbra as paixões, desmente os afetos e, por engenhoso circunlóquio, acaba sempre por chegar ao ponto que pretendia.

Uma mesma verdade pode vestir-se de muitos modos; e já por um gostoso apólogo, com o doce e fácil de sua ficção, a verdade persuade eficazmente. Usaram disso graves autores para o ensino mais importante, tanto político como moral. [...]"

Baltasar Gracián, Discurso LV do tratado Agudeza y arte de ingenio (1648). Tradução de Alcir Pécora.

Duanne Ribeiro
14/3/2013 às 21h17

 

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