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Segunda-feira, 7/10/2013
Mozart Piano Quartet
Eugenia Zerbini

Santo Agostinho (354-430), em suas Confissões, afirma que o homem é um ser atormentado pelo embate de suas vontades. Citado de cabeça (e por isso, embora o espírito seja esse, as palavras podem não ser exatamente aquelas por ele empregadas), o bispo de Hipona afirma que nem sempre esse tormento vem do conflito entre uma vontade boa e outra ruim. Em certas situações, podemos ficar divididos entre duas vontades boas. Por exemplo, assistir à missa em duas igrejas diferentes.

Mais ou menos o que aconteceu na semana que se encerra, quando, no dia 3 de outubro, os frequentadores das salas de concertos paulistanas viram-se diante do impasse: OSESP, com o pianista Nelson Freire como solista, na Sala São Paulo, ou o Mozart Piano Quartet, no Teatro Cultura Artística Itaim?

Não perdeu seu tempo quem optou por esta última opção. Fundado em 2000, por quatro solistas de carreira internacional (Paul Rivinius, piano; Mark Gothoni, violino; Hartmut Rohde, viola; Peter Hörr, violoncello), o grupo alemão, além de presença freqüente em festivais (em 2011, participou do Festival de Inverno de Campos do Jordão), é também aplaudido em salas de concerto do mundo inteiro. No programa do último dia 3, Beethoven (1770-1827), Quarteto para piano e cordas em Mi bemol maior, op. 16, e Brahms (1833-1897), Quarteto para piano e cordas em Dó menor, p. 60.

Por meio da simpática entrevista que antecedeu a apresentação, conduzida pela sempre competente e elegante Gioconda Bordon, ficamos sabendo que o Quarteto op. 16 de Beethoven, obra da fase inicial do compositor, é transcrição de outro quarteto para piano e instrumentos de sopro. Por isso, seria possível identificar, ainda que distante, os ecos do corne inglês e da clarineta, executando toques usuais de uma caçada.

Por sua vez, o quarteto de Brahms, é obra da maturidade do compositor. Conhecido como o "quarteto Werther", retrataria - através do emprego de constante do ostinato - a triangulação Brahms, Clara & Robert Schumman, em que os sentimentos nunca ficaram bem resolvidos entre os envolvidos. Como todos lembram, Werther, o desditado herói de Goethe, suicida-se pela frustração de sua paixão por Charlotte.

E foi no terceiro movimento, Andante, desse quarteto, que todo o talento do Mozart Piano Quartet revelou-se naquela noite. Simplesmente magnífico.

Na sequência, o Andante do "Quarteto Werther", interpretado em recital na Purdue University (Indiana), em 2001, por membros da universidade.




Eugenia Zerbini
7/10/2013 à 00h05

 

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