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Terça-feira, 17/5/2005
Não gaste o seu latim
Julio Daio Borges

Um pedinte nos fez parar numa esquina escura e começou a conversar conosco, insistindo na idéia de que ele era um homem de boa família e boa educação. Bill, que gostava muito das ruas de Roma, trocou idéias com ele. Quando o pedinte ficou sabendo que Bill dava aulas de literatura grega e latina, ficou extasiado e apertou as duas mãos contra o peito.

- Escute só isso - disse ele. Como uma gaivota, ele mergulhou num mar de latim e, quando voltou à tona, virou a cabeça para o rosto de Bill, ergueu os olhos e perguntou: - Quem eu estava citando?

- Suetônio? - Bill tentou advinhar.

- Suetônio! - repetiu o pedinte, cheio de desprezo. - Você não sabe distinguir Tácito de Suetônio? Agora escute isso aqui. - Falou gesticulando, e nós o ofendemos quando rimos. - Uma segunda chance para você. Quem escreveu essas palavras?

- Plínio - respondeu Bill.

- Cícero - gritou o pedinte. - É assim que são os professores na América? Eles não têm educação nenhuma. É uma desgraça.

Rimos de novo e lhe demos dinheiro.

- O latim dele era bom? - perguntei.

- Contei vinte erros. Esses textos não são nem de Suetônio, nem de Tácito, nem de Cícero, nem de Plínio. Na certa algumas palavras que as crianças memorizam no colégio. Bem, com isso nós dois já fomos bastante humilhados por hoje, não é?

Mais Saul Bellow, no mesmo livro, em ensaio sobre William Arrowsmith.

Julio Daio Borges
17/5/2005 às 16h08

 

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