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Sexta-feira, 10/7/2015
Sonia Regina Rocha Rodrigues
Julio Daio Borges



Atendendo a pedidos, publicamos pequenas entrevistas com os Blogueiros do Digestivo. (Até que a plataforma esteja 100% pronta e você conheça os blogs propriamente ditos...!) - JDB

1. Qual é a sua história com o Digestivo? (Como conheceu; há quanto tempo lê; por que acredita na iniciativa do Digestivo Blogs.)

Fui ativista cultural por alguns anos em minha cidade, como escritora. Editei jornais, revistas, promovi exposições, palestras e eventos. Foi uma época bem feliz em minha vida. Depois, fui por assim dizer engolida por demandas profissionais e afastei-me desta atividade. Em 2013 aposentei-me e decidi dedicar-me ao que gosto: literatura. Voltei a frequentar grupos de leitura e oficinas de escritores, editei livros, fiz alguns blogs, sem conseguir audiência, então pensei em escrever artigos e resenhas culturais em outros blogs. Foi quando encontrei o Digestivo, completo em qualidade e conteúdo, e me interessei em participar ao lado de tão bons colunistas.

2. Qual é o seu "background" (sua formação)? De onde vem; o que estudou; quais trabalhos seus citaria etc.

Sou médica de formação, com várias graduações: pediatria, acupuntura, medicina do trabalho e Programação Neurolinguística (voltada para terapia na área médica). Iniciei como pediatra, migrei para medicina do trabalho, fiz acupuntura por gosto, ao final da carreira, e PNL como ferramenta adicional de trabalho. Fiz palestras em universidades de Santos, organizei alguns cursos de PNL para colégios, escolas de pais, educadores da rede pública e para algumas pequenas empresas da região. Escrevi um livro de PNL direcionado a pais: O que você diz a seu filho? (Ed. ESPA, 1999). Escrevi alguns livros de contos: Dias de Verão (Ed. Legnar, 1997), Coisas de médicos, poetas, doidos e afins (2104, Bookess) e É suave a noite (2015, Bookess). Os dois últimos em formato tradicional em papel e também em epub e mobi, à venda pelo site.

3. Sobre quais temas vai falar/tratar no seu blog?

Falarei sobre arte em geral e focarei em literatura, em forma de resenhas de livros, entrevistas com autores, artigos etc.

4. Você já teve blog? Se sim, qual (ou quais), e com que repercussão?

Em 2005 comecei o blog alegriadeler. Na época, eu organizava um revista cultural, chamada Zênite, para um site português, o CEN - Cá estamos nós - e comecei a postar a revista em meu blog também, com suas entrevistas, fotos, textos de poetas santistas. Posteriormente o CEN foi desativado e continuei com as postagens até 2010. O acesso ao blog era bem pequeno, praticamente só os autores publicados entravam de vez em quando.

Em 2010 comecei a fazer um blog secreto, onde coloco todos os meus textos, para acessar de qualquer lugar, independente de "nuvens" que parecem ter vida própria, nunca as compreendo... Em 2014 recomecei com os blogs públicos, um de viagem, onde coloco fotos, vídeos, informações, relatos de minhas viagens e ocasionalmente algum texto literário inspirado pelo local. O outro blog divulga meus novos livros e oferece degustação do livro anterior e trechos dos mais recentes.

5. Qual é sua relação com a escrita? Já escreveu em outros veículos/sites? Já publicou? Como foi a sua experiência nesse sentido (de colaborar e/ou publicar)?

Sempre escrevi.

Minha primeira oportunidade de publicar aconteceu em 1993, quando o Clube dos Professores de Bebedouro patrocinou uma feira de livros e dois colegas me convidaram para participar de uma publicação coletiva, Em Prosa e Verso, para vender durante o evento. Não vendi nada, mas o jornal local nos publicou em um caderno especial. Animados com a divulgação, nós, escritores, propusemos à Gazeta de Bebedouro um encarte cultural. A ideia foi recusada, porém eu sugeri que fizéssemos o caderno cultural por conta própria. Fomos até Ribeirão Preto, contratamos uma gráfica, pagamos um editor e eu coordenei o projeto. Todo mês havia entrevistas, críticas literárias, biografias de um autor famoso, e nossos contos, crônicas e poesias. O jornal Alternativo me proporcionou contato com outros grupos nacionais.

Em 1996 vim para Santos e iniciei uma outra publicação semelhante, Um dedo de prosa. Éramos patrocinados por propagandas pagas nos rodapés das páginas e distribuíamos o jornal nas bancas da cidade e pontos turísticos.

Iniciei a publicar na internet no site Blocos, que surgia pela mesma época, parceria muito importante. A internet nos propicia oportunidades de acesso a concursos, vídeos, oficinas literárias on-line e intenso intercâmbio com outros escritores, que de outra forma nem conheceríamos.

Tive alguns textos premiados em concursos, e vários foram aceitos para publicação em sites literários. Recentemente, ganhei em primeiro lugar o concurso Fora do Tempo, promovido pela Editora Bruma, que está organizando um ebook para postar online. O conto chama-se "O sonho continua..." e fala das culturas antigas da Austrália e Nova Zelandia, maoris e aborígenes. Digo antigas e não primitivas, porque considero essas culturas, em muitos aspectos, superiores à nossa.

6. Como é se interessar por cultura, ou ter uma atividade intelectual, ou simplesmente ler o Digestivo, num país como o Brasil, ou sendo brasileiro? É uma profissão de fé? Ou é um desafio que te motiva (no dia a dia)?

Acredito que as pessoas têm uma idéia fantasiosa sobre a cultura em outros países. Minha impressão é que, como no Brasil, 10% das pessoas se interessam por cultura, saem da norma e inovam; 90% é medíocre (quero dizer: fica na média, contenta-se com o que já existe).

Por exemplo, no Canadá o povo lê muito. O que eles lêem? Romances populares, como os veiculados pelas revistas Julia e Sabrina nas bancas. Vê-se Paulo Coelho aos montes, nas mãos dos usuários do metrô. Best-sellers discutidos nos clubes de leituras. Autores clássicos ou premiados com o Nobel, se não viraram best-sellers, você não encontra.

Na Austrália é pior, porque, como no Brasil, há praias e muitos jovens querem passar seu tempo surfando ou conversando em locais paradisíacos. Povo culto, mesmo, encontrei na França, que tem uma tradição cultural de discutir tudo e com muito ardor. Até na porta dos cinemas de bairro o povo está discutindo o tema, o diretor, o ator, o festival mais recente. Eles dão preferência à intensa produção cultural francesa e dizem mesmo, gaiatamente, "não há povos superiores e inferiores, há povos diferentes; exceto, é claro, o povo francês, que é superior a todos os outros".

Bem, esses são países onde vivi por algum tempo, e procurei pelas bibliotecas e clubes de bairro enturmar-me com o povo local. As bibliotecas estrangeiras são maravilhosas, promovem integração da comunidade em palestras, vídeos, exposições, grupos de discussões, uma avalanche de atividades; livros são comprados todos os meses, uma média de 20 títulos novos em diversos gêneros e vários exemplares, uma festa para grandes leitores como eu.

Quanto ao Brasil, como eu circulo há mais de 20 anos por grupos de escritores, posso lhe garantir que escritores e leitores existem, o que lhes falta é divulgação.

Recentemente tivemos aqui os Jogos Florais, que foram divulgados até no exterior, e nenhuma linha na mídia local, mesmo tendo recebido apoio cultural da prefeitura!

As livrarias não expõem nosso autores. Quando Lygia Bojunga ganhou o prêmio Andersen, tentei achar o livro e não o encontrei nas estantes. Isso ocorre sempre, bons autores de língua portuguesa, atuais, eu compro direto pela internet. As livrarias estão expondo apenas os vampiros e os diários dos bananas. Nada contra, são gêneros que têm seu nicho, e os mais jovens começam por ler coisas agradáveis e que estão na moda; apenas acho que os autores mais difíceis, no dizer deles, devem também ter o seu espaço. Afinal, um dia todos saem da fase vampiresca e saem à procura de novos horizontes literários.

7. Você acha que, através da internet, podemos mudar esse cenário (de pouca cultura, pouco interesse pela vida intelectual, parca discussão de ideias etc.)?

Acredito que através da internet os intelectuais encontram mais facilmente os seus iguais. As pessoas que não se interessam por arte vão navegar em outros sites, da mesma forma que hoje, ao ler o jornal, passam direto pelo Caderno Cultural e partem para a sessão de esportes, as cruzadinhas ou o noticiário econômico.

No que diz respeito aos estudantes, sim, creio que há uma oportunidade enorme. Se o aluno quer saber mais sobre um autor ou uma obra, basta "googar". Nós precisamos apenas orientar a procurar pelos sites confiáveis, direcionar aos sites oficias, às universidades, evitando o besteirol virtual.

Disponíveis também estão boas entrevistas em sites da televisão ou mesmo no youtube. Mesmo as entrevistas e palestras em língua estrangeira dispõem de legendas em português, é uma abertura maravilhosa.

8. Quais foram suas maiores influências? (Não precisa, necessariamente, ser alguém conhecido ou "famoso". Pode citar obras e/ou experiências também.) Quais "modelos" pretende seguir (ou te servem de referência)?

Fiz parte da geração Lobato. No entanto, a influência de Lobato em minha escrita foram seus livros de contos, excelentes. Outra grande influência foi Machado de Assis, cuja obra releio periodicamente. Citando os modernos, sou fã da Clarice Lispector, do Drummond, do Quintana. Não gosto muito de regionais nem de outros clássicos de língua portuguesa, principalmente os de Portugal, que li por obrigação, mas a geração de autores mais recentes me fascina: Agualusa, Ondjaki, Gonçalo Tavares, Valter Hugo Mãe e o maravilhoso Mia Couto.

9. Mais alguma coisa que os Leitores precisam saber de você (mais alguma coisa que você gostaria de falar e eu não te perguntei)?

Escrevo contos, meus temas preferidos são as bizarrices do cotidiano, e meu público alvo são os leitores de mais idade, acima dos cinquenta. Nada impede que os mais jovens leiam os meus contos, mas eu não estou falando sobre vampiros nem sobre as distopias tão em moda. Acho que Huxley, Asimov e Orwell esgotaram o tema, eu não seria capaz de escrever nada de novo depois deles. A realidade, no entanto, todo dia me presenteia com situações, temas e personagens pedindo para virarem texto.

10. Onde mais a gente pode te encontrar? (Links ou referências, na internet, que você quiser/puder passar...)

Bem, eu ficarei feliz em receber a visita de leitores e comentários nos meus blogs, tanto o de viagens como o de literatura, lerei com atenção e carinho todas as sugestões recebidas.

Meus endereços são: viagensrelatosedicas.blogspot.com.br e soniareginarocharodrigues.blogspot.com.br

Também frequento o site de desafios literários Entrecontos, um espaço para escritores aberto a quem quiser ler, participar dos desafios mensais e comentar.

Nota do Editor
Sonia Regina Rocha Rodrigues compõe o grupo de blogueiros do Digestivo Cultural ;-)

Julio Daio Borges
10/7/2015 às 12h05

 

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