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Segunda-feira, 20/5/2019
Juntos e Shallow Now
Luís Fernando Amâncio

Se já não bastasse todas as polêmicas que a política nos fornece, Paula Fernandes, em parceria com Luan Santana, lançou uma versão para “Shallow”. A canção de Nasce uma Estrela (2018), que rendeu um Oscar para Lady Gaga, foi traduzida de forma bem livre pela cantora sertaneja. O que, convenhamos, não é algo inédito na história da música brasileira. Quem não se lembra que Sandy & Júnior, ao traduzir “Immortality”, parceria de Bee Gees e Celine Dion, trocou “We don’t say goodbye/ We don’t say goodbye” por “O que é imortal/ Não morre no final”? Ah, se houvesse internet banda larga na época!

Em sua versão tupiniquim, “Shallow” reencarnou como “Juntos”. Até aí, tudo bem. O grande ponto de crítica da versão brasileira foi o refrão. Talvez por falta de habilidades com tradução lírica, ou por uma escolha infeliz, Paula Fernandes, que assina a letra, tacou um “juntos e shallow now”, uma mistura de idiomas que não é muito comum por aqui. Ficou confuso, ficou estranho e virou sucesso – ao menos na rede de memes.

A tradução de músicas estrangeiras é algo bastante comum no Brasil. A Jovem Guarda, por exemplo, teve versões célebres. É o caso de “Banho de Lua”, de Celly Campello, que veio ao mundo como uma canção italiana (“Tintarella di Luna”, de Mina). “Pare o Casamento”, de Wanderléa, veio do original “Stop the Wedding”. E “Era um garoto que como eu amava os Beattles e os Rolling Stones”, gravado por Os Incríveis e, com mais sucesso, pelos Engenheiros do Hawaii anos mais tarde, também era uma música italiana, interpretada por Gianni Morandi – e, acreditem, o título longo é a tradução literal do original.

A ideia, vamos ser sinceros, é muito boa. Você pega uma fórmula de reconhecido sucesso e faz uma letra em português, já que nem todo mundo tem a obrigação de dominar um idioma estrangeiro. Voilá, você tem um produto pronto para tocar à exaustão nas FMs, ou, atualizando, nos aplicativos musicais de streaming. O Latino, grande hitmaker brazuca, proporcionou alguns bons luxos ao seu macaco de estimação (in memoriam) graças às versões “Festa no apê” e “Despedida de solteiro”. Há quem goste.

O sertanejo, gênero musical em que nossa Lady Gaga Paula Fernandes se enquadra, também já abusou dessa fórmula. Chitãozinho & Xororó, nos anos 1990, provaram que também existe sedução vinda do norte do Paraná e fizeram uma versão para “Have You Ever Really Loved a Women?”, de Bryan Adams, sucesso no filme Don Juan DeMarco (1995). No mesmo espírito, um filho menos famoso de Francisco e seu parceiro, Cleiton, lançaram “Na Hora de Amar”, versão de “Spending My Time”, do grupo sueco Roxette. Houve muitas outras ocorrências do tipo, mas vou poupá-los do histórico.

Mas falar em versão brasileira para clássicos estrangeiros seria impossível sem mencionar dois cases de sucesso. O primeiro deles foi a banda Yahoo, fundada pelo guitarrista Robertinho de Recife, especializada em traduzir baladas de hard rock para o idioma português. Em um tempo em que o rock era pop, eles emplacaram músicas em trilhas sonoras de novelas e circularam por alguns dos bons programas de auditório do período.

Além deles, houve Angélica, que conseguiu, com “Vou de Taxi”, aos 15 anos, se tornar uma marca competitiva no acirrado mercado de “loiras apresentadoras de programas infantis”. A versão brasileira para “Joe le Taxi”, sucesso interpretado originalmente por Vanessa Paradis, foi uma das dez mais tocadas no Brasil em 1988. Anos depois, Angélica tentaria novo sucesso com versões. E eu até entendo que alguém tenha acreditado que uma versão de “Linger”, dos Cranberries, poderia emplacar. Agora, turbinar “Light My Fire”, clássico do The Doors com a frivolidade de “Bye que bye bye bye” só poderia dar certo. Se o objetivo fosse criar uma coisa muito exdrúxula, é claro.

Essa pequena coletânea de versões brasileiras Herbert Richers para sucessos internacionais não tem, verdadeiramente, um propósito muito claro. Mas o leitor pode entendê-la como uma ameaça. Enquanto você fica aí, horrorizado com a criatividade de Paula Fernandes, saiba que vem muito mais por aí. Sempre vem. Força, amigos, juntos e shallow now somos mais fortes.

Luís Fernando Amâncio
20/5/2019 às 14h08

 

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