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Domingo, 1/11/2015
Peias
Anchieta Rocha

+ de 500 Acessos

Sofri bastante na vida e as marcas ficaram nas minhas pernas. Muitos homens ainda me desejam. Sou uma mulher atraente. Disso eu sei.

Eram lisas e torneadas. O que passei, nem gosto de pensar. Com o tempo, as marcas foram aparecendo, veias estourando em todo lugar. Não tem gente que lê a mão das pessoas e falam de suas vidas? Cada parte das minhas pernas é um pouco do que vivi. Do lado de dentro, perto do joelho direito, veias roxas. Mais abaixo, na parte de dentro também, acima do calcanhar, manchas que surgiram por causa do trabalho pesado, logo depois da morte do marido. Quase na sola dos pés, vasos que nem mais sei por que estufaram. As minhas pernas são minha vida e minha história. Marcas surgidas por causa de nascimento de filhos, com elas não importo. As que doem por dentro, essas sim, doem muito.

Vivi um bom tempo casada, feliz, mas gostaria de começar uma vida nova. Mamãe sempre fala pra arranjar um namorado. Mas quando penso no meu corpo, ou melhor, nas minhas pernas, me entristeço. Se saio para um passeio, para uma festa, vou de calça comprida ou de longo. Gostaria de usar uma minissaia, um short, tenho um corpo bonito. Chego a ter sonhos que estou na praia usando biquíni - pesadelos também, como um, numa cadeira de rodas.

Outro dia achei que minha vida podia mudar.

Toda tarde, depois do serviço, via um rapaz no ponto do ônibus. No início não me chamou atenção. Mas seu jeito tímido me encantou. Passei a desconfiar que me observava. Quando eu virava o rosto pro seu lado, desviava o olhar. Muitas vezes assim, até que um dia criou coragem e veio até mim.

No início foi uma conversa cheia de pausa e de falta de assunto. Na hora em que entrei no ônibus, tenho certeza, ficou admirando o meu corpo enquanto eu subia a escada.

Vários dias passaram até que numa tarde as coisas mudaram.

Antes de deixar o serviço, fui no banheiro, coloquei uma saia e me aprontei.

Falamos de muitas coisas. Deixei o primeiro ônibus passar, a conversa foi ficando interessante. Com a chegada do outro ônibus, tive que ir embora, escurecia, disse pra ele. Senti as pernas pesadas enquanto subia os degraus e já me arrependia de ter quebrado o encanto.

Na tarde seguinte não apareceu. Veio o primeiro ônibus, o segundo. Peguei o seguinte.

Fui pra casa angustiada.

Não consegui me concentrar no trabalho no dia seguinte. Só esperava o fim do expediente pra ir pro ponto.

Passado um pouco ele chegou. Conversamos, não foi a mesma coisa. Resolvi ir embora logo. Preparei pra sentar, olhei pra fora, ainda me observava.

Abaixei o rosto. Foi a viagem mais longa. Ao chegar em casa, a primeira coisa que eu ia fazer era observar as minhas pernas. Tinha certeza que não seriam as mesmas de antes.

Naquela noite sonhei com ele. Sonhei que pegou minha mão ao descer do ônibus e me levou até o portão de casa. Disse da frescura do jardim e da beleza da noite. Segurou o meu rosto entre as mãos, beijou minha boca e me chamou de sereia.


Postado por Anchieta Rocha
Em 1/11/2015 às 22h14


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