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Quinta-feira, 12/1/2017
Na trilha de um corredor
Isaac Rincaweski

+ de 800 Acessos

Hoje é segunda-feira. Ainda estou “curtindo” as dores da corrida de sábado. Foram as 3 horas e 43 minutos mais longos da minha vida.

Quando me inscrevi para participar dos 23 km da primeira Ultra Trail Rota das Águas, realizada em Gaspar-SC, apesar de já ter participado de outras provas que julgava semelhantes, eu não tinha a menor noção do que me aguardava.

Éramos uns 150 corredores fazendo esse percurso (os outros faziam percursos de 8 ou de 50 km) e, logo após a largada, numa estrada de terra, entramos em fila indiana numa trilha da mata, que, apesar de estreita, ainda permitia que se fizessem ultrapassagens em vários pontos sem a necessidade de “empurrar” o colega à sua frente no mato.

A partir desse momento, me senti numa montanha-russa, ora subindo, ora descendo, ora fazendo curvas fechadas, ora “freando”, para não me perder nas descidas das intermináveis trilhas.

Corri “às cegas” nos primeiros quilômetros, pois meu Garmim (relógio com GPS) não estava localizando o satélite, ou seja, eu não sabia qual era o meu ritmo, tampouco o percurso que já havia percorrido e, por ironia do destino, foi esse pequeno problema que me ajudou a completar essa prova.

O gosto por corridas em trilhas ainda é muito recente em minha vida de corredor e, apesar de todo o prazer que hoje elas me proporcionam, há sempre um lado negro e sabotador da nossa mente com que temos que aprender a lidar. São aqueles momentos de dificuldades em que você pensa que poderia estar no conforto de sua casa ou em qualquer outro lugar, menos ali, numa trilha no meio do mato!

Como até então eu só havia participado de trilhas no litoral catarinense (Guarda do Embaú, Praia do Rosa, Lagoa da Conceição), lugares lindos, com vistas paradisíacas, eu não estava preparado para correr num local que, digamos, não oferecia esse bônus da vista de “perder o fôlego”, ou de correr à beira-mar, com uma brisa marinha me acariciando o rosto.

Não, definitivamente, durante esses 23 km de corrida, caminhada e quase rastejamento barranco acima, o que eu enxergava era somente mato, mato, e... Muito mato! É claro que, para os olhos de um botânico, por exemplo, talvez houvesse muitas espécies raras e maravilhosas de plantas a serem contempladas com um prazer idêntico ao que eu sentia quando corria nas paisagens de cartões postais das trilhas do litoral. Mas, infelizmente, não era o tipo de beleza que eu sequer imaginava que pudesse existir naquele momento e lugar.

Eu reclamo das trilhas sem paisagens, mas, paradoxalmente, acabava sentindo saudades delas nos pequenos trechos de terra batida, quando saía do mato, onde a poeira e a força inclemente do sol das 10 horas da manhã me faziam lembrar e, até mesmo, desejar voltar ao abafado, mas gostoso abraço úmido das árvores que me protegiam daquela bola de fogo.

Apesar das dificuldades impostas por todo o trajeto, as primeiras duas horas de corrida foram relativamente agradáveis. Eu vinha correndo num bom ritmo e ainda estava inteiro. Mas, após essas duas horas, eu comecei a ficar um pouco chateado, entediado eu diria, pois a falta do Garmim, no início da corrida (agora ele já estava funcionando) me deixara sem norte, pois eu não sabia qual a distância que já havia percorrido e, principalmente, qual a distância para terminar a minha saga.

E continuei correndo, caminhando, rastejando, quando, como num passe de mágica, avistei a linha de chegada. Naquele momento, eu já estava me arrastando há mais de 3 horas, e não acreditei que a minha aventura havia terminado. E, como sempre, aquela força vinda das entranhas do meu corpo me atingiu como um choque de 220 volts para me acordar para a realidade da chegada. Meu sorriso se abriu espontaneamente para as pessoas que ali estavam, e consegui me reerguer para o tímido, mas triunfante sprint final...

Logo à frente, eu vi uma mangueira d`água trazendo aquele precioso líquido gelado do alto do morro, fazendo às vezes de chuveiro, mas não parei, pois antes eu queria cruzar a linha de chegada, que, na minha doce inocência, era somente alguns metros à minha frente... Ledo engano!

Logo após aquele verdadeiro oásis no meio do deserto de árvores, eis que um staff (pessoa ligada à organização da corrida) sinaliza-me para continuar e adentrar novamente na trilha da mata. Pensei que era uma brincadeira de mau gosto (pois a chegada era para o outro lado), mas, pela insistência daquele mercador de más notícias, tive que seguir em frente, totalmente desanimado, destruído. O sorriso e a força que estavam comigo um segundo atrás pareciam lembranças de uma infância remota. Será que era verdade?! Sim, era verdade...

E foi aí que eu entendi o porquê de meu Garmim não ter funcionado logo no início da prova, pois, se eu tivesse a mínima noção de que ainda faltavam quase 3 km de trilhas, eu teria desistido de completá-las, tamanho era o meu desgaste, tanto físico quanto emocional.

Eu praticamente me arrastei nesses últimos 3 km de subidas íngremes, tendo que administrar um conflito de interesses totalmente divergentes entre o meu corpo (que queria parar devido à exaustão) e o meu cérebro (que insistia em encontrar o lado positivo daquele momento).

Corri praticamente sozinho durante todo esse trajeto, tendo como companhia somente a “minha mata”, que me consolava à sua maneira, ou melhor, à maneira que “eu” enxergava (me protegendo do sol).

Eu estava tão só que, em determinado momento, me peguei falando sozinho, criando novas estratégias para não pensar na distância que ainda faltava para concluir a prova. E, de fato, de alguma forma, acabei me desligando totalmente e me concentrei somente em seguir em frente, correndo nas descidas e me arrastando nas subidas.

Foi aí que avistei um túnel e me lembrei de que, em algum momento, alguém da organização havia comentado sobre essa passagem da trilha para dentro do parque aquático.

Agora sim, eu já podia comemorar, pois ninguém mais iria impedir a minha chegada e, numa rápida reunião interna, selei o acordo de paz entre meu cérebro inacessível e meu corpo reclamão, e pude saborear em toda a sua plenitude aquele momento tão desejado, cruzando a linha de chegada com a deliciosa sensação de que tudo valera a pena...De que viver vale a pena! E, dessa vez, além do banquete (água e frutas) à minha espera, fui agraciado com um revigorante banho de mangueira, com aquela água cristalina e imaculada, vinda diretamente do ventre da mata, inundando meu corpo e minha alma com toda energia da natureza.


Postado por Isaac Rincaweski
Em 12/1/2017 às 08h04


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