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Domingo, 9/12/2018
A verdade? É isso, meme!
Ricardo Gessner

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O compartilhamento de memes em redes sociais, para além da função de entretenimento, cumpre uma função nem sempre percebida de criticar certos valores, a maioria associados a condutas consideradas conservadoras, em nome de um progressismo aguado. Vejamos um exemplo.



A construção dessa figura segue um padrão bastante comum, pela associação de uma frase de efeito a um nome, normalmente de alguma personalidade intelectual. O efeito gerado é de uma citação; contudo, nem sempre a frase corresponde com sua fonte de origem, ou nem sempre com seus dizeres originais.

A frase se efetua a partir da oposição entre “pensar” e “julgar”. Assim como no período cada palavra ocupa um polo, na prática a primeira se associa a um aspecto positivo, enquanto que a segunda, negativo. “Pensar” é bom, pois vislumbram-se aspectos que, numa atitude imediatista – irrefletida –, passariam despercebidos; “pensar” consente ao raciocínio acessar camadas de compreensão mais profundas e, assim, mais verdadeiras; permite reavaliar certos valores e passar a considerá-los sob outras óticas. Isso requer um esforço que exige não apenas um mínimo de repertório intelectual, como também capacidade de abstração; algo, portanto, pouco agradável a um público numericamente extenso.

Em contrapartida, “julgar” é uma espécie de atalho, visto que para emitir um juízo de valor não é necessário percorrer todo aquele doloroso procedimento descrito acima; basta uma resposta imediata. Aplicando-se a lei do mínimo esforço, o “julgar” é preterido em função do “pensar”, pois o comum é preferir o mais fácil.

Contudo, essa predileção tem os seus efeitos colaterais, como a permanência constante na superfície, além de legitimar o compartilhamento de memes duvidosos por um grande número de pessoas e, assim, seguir o fluxo da maioria. O alvo do meme são aqueles que julgam os demais sem necessariamente conhecê-los ou, ao menos, levar em consideração a sua situação de contexto. Noutras palavras, pretende-se um ataque aos fofoqueiros e, através da associação com a autoridade intelectual de Jung, a frase efetua um ar de “verdade”, de sabedoria ou, pelo menos, de profundidade, assumindo uma postura crítica.

De fato, a frase foi pinçada de uma obra de Jung, mas o modo como está escrita é infiel. Ela se encontra no livro “Um mito moderno sobre as coisas vistas no céu”, publicado pela primeira vez em 1958. Trata-se de um ensaio a respeito dos constantes relatos de avistamento de óvnis, discos-voadores e quejandos, no decorrer do período do pós-guerra e parte da década de 1950.

Nesse quadro, Jung defende a tese de que tais avistamentos correspondem a uma projeção do inconsciente coletivo, manifestado por meio dos boatos visionários e, assim, compõe-se uma espécie de mitologia moderna. Não se trata de questionar o fundamento verídico dos relatos, mas de investigar seu fundamento psíquico.

A frase citada no meme encontra-se no Capítulo 2, dedicado a apresentar e comentar um conjunto de sonhos em que aparecem, de maneira evidente ou não, experiências com óvnis:

"O único fato indubitável é que o mais importante dos instintos fundamentais, a saber, o instinto religioso de totalidade, desempenha na consciência comum hodierna o papel mais insignificante, porque, sob o ponto de vista histórico, ele só consegue livrar-se, com muita dificuldade, e sob constantes recaídas, da associação e contaminação com os outros dois instintos. Enquanto estes podem recorrer constantemente a fatos de todo dia conhecidos por todos, o outro precisa, para a sua evidência, de uma consciência muito mais diferenciada, de circunspecção, de reflexão, de responsabilidade e de outras virtudes mais. Por este motivo, ele não se recomenda absolutamente ao homem de impulsos naturais, relativamente, já que ele está preso ao mundo que lhe é conhecido, e se apega aos lugares comuns e ao evidente, ao que é provável e coletivamente válido, seguindo o lema: “Pensar é difícil, por isso a maioria é quem decide!”. Ele considera um notável alívio da sua existência, quando algo aparentemente complicado, incomum, difícil de ser compreendido, que ameaça trazer problemas, pode ser relacionado com algo costumeiro, até mesmo banal, ainda mais se a solução parecer surpreendentemente simples, e além do mais, engraçada". (2013, p. 50)

Veja-se que, em primeiro lugar, a frase é aplicada como um lema aceito pelo senso comum, e não são dizeres oriundos da pena de Jung. Em segundo lugar, a frase caracteriza uma conduta do homem comum, aquele de “impulsos naturais”, pouco afeito ao cultivo intelectual e espiritual: ao invés, prefere seguir a decisão da maioria e, sendo assim, delega aos demais a responsabilidade dos afazeres mais trabalhosos, como, justamente, o pensar. Em terceiro lugar, neste trecho em específico, Jung discute as idiossincrasias do “instinto religioso”, que se caracteriza, basicamente, pela preocupação e percepção da totalidade do ser humano: carne e espírito; matéria e alma.

Como afirmado no início do excerto, o instinto religioso, apesar de fundamental, desde aquele contexto desempenha função cada vez menos significante. Enfatizo: cada vez menos significante. Isso quer dizer que estava perdendo seu lugar no âmbito de dar significados à existência e os homens passaram a encontrar nas coisas materiais essa função, deixando de lado a espiritualidade, pois demanda esforço para ser cultivada. Dessa forma, os constantes relatos de avistamentos de óvnis funcionava, segundo Jung, como uma espécie de sublimação, pois o homem moderno, receoso pela possibilidade de uma guerra nuclear, projetou no espaço a solução material para seus problemas. (Seria, na era contemporânea, os memes a cumprirem essa função?)

Nesse processo os símbolos adquirem uma importância fundamental para Jung, pois fazem a manutenção do instinto religioso.

Como afirmei, a frase que aparece no meme não é a mesma utilizada por Jung. O meme é pretensioso ao enaltecer a diferença entre a ação de “pensar” e a de “julgar”, inclusive estabelecendo uma diferença de valor. Já a frase em inglês, originalmente é: “Thinking is difficult, therefore let the herd pronounce judgement”. A despeito de a palavra “julgamento” aparecer na frase original, seu sentido não é o do que está no meme, mas, sim, no de “decidir” (uma possível tradução literal seria: “Pensar é difícil, por isso, deixemos a maioria julgar”).

Sendo assim, o meme desonestamente rechaça uma compreensão mais aprofundada, não apenas do pensamento de Jung (cuja teoria está longe de ser o alvo de interesse do meme), mas também da própria ação de “julgar”, ali reduzida ao ato de falar mal ou sem propriedade. Paradoxalmente, ela incentiva os demais a agirem conforme o que ela mesma condena: julgar antes de pensar; quem a compartilhou, não pensou se ela é correta, mas a julgou como tal.

Além disso, é interessante o significado implicitamente atribuído à palavra “julgar” no meme. Como já vimos, é oposto ao de “pensar”; dessa forma, “julgar” implica a ação irrefletida, imprudente, de emitir um juízo de valor, seja por ser infundado, seja por ser preconceituoso.

Além disso a frase reflete uma conduta comum, aceita como positiva, de que não há valores absolutos e, portanto, julgar implica em incorrer em tal falácia. Mesmo porque, para emitir um julgamento é necessária uma referência pré-estabelecida, isto é, uma forma de pré-conceito – outro palavrão.

Nesse plano, a querela detrás a frase do meme é criticar certo conservadorismo em função do multiculturalismo, seja em âmbito moral ou cultural. Julgar e não-julgar se associam a condutas políticas de tolerância: a primeira é fascista enquanto que a segunda é democrática. Entretanto, a despeito dessa beleza moral, a frase, além de mentirosa, não diz nada. Em primeiro lugar, a associação entre política e arte redunda em confusão; em segundo lugar, essa relação não é determinista, pois a índole política do artista não salva (ou condena) sua arte:

"(...) é perfeitamente possível que, tendo alcançado uma sabedoria política fundamental (...), o valor de nossas produções culturais se afigure muito inferior ao das produções culturais de sociedades cuja necedade política vigorosamente condenamos. Além disso, é dado da experiência que, quando do colapso de sistemas políticos ou sociais terríveis e de sua substituição por sistemas que, ao menos abstratamente, são melhores, as pessoas nem sempre ficam felizes. É essa a verdade que se encontra por trás do ditado dos camponeses romenos (...), segundo o qual a mudança de governantes é a alegria dos tolos". (DALRYMPLE, Qualquer coisa serve, p. 158)

A frase deturpada e atribuída a Jung cumpre um apelo retórico. Como não está restrita a um contexto específico, pode ser aplicada a um leque extenso, que vai desde questões multiculturalistas, até questões de ordem afetiva. O intuito é salvaguardar a supremacia do relativo em detrimento do padrão (do normativo).

Nesse processo a frase revela seu sentido verdadeiro, isto é, revela um modo de ser julgado, uma tentativa de mascarar diferenças qualitativas para que tudo seja considerado conforme as especificidades de cada contexto. Isto é, a mensagem do meme é: julgar é excludente e, por isso, ruim. Toda diferença deve ser considerada. Quebrar padrões, não se enquadrar a nada, ser diferente em todas as esferas da vida, é isso o que importa. Paradoxalmente essa conduta inaugura novos padrões de conduta aos quais são estabelecidos como referenciais para outros julgamentos: todo aquele que não for diferente será um inimigo.

Por fim, o modo composicional da frase cumpre o oposto do que ela pretende dizer, pois não está contextualizada e, além disso, transmite não um pensamento, mas um julgamento. E aí ela revela seu verdadeiro conteúdo: o descompasso, tão comum, mas normalmente disfarçado, de certos discursos que valorizam as diferenças em nome de outros preconceitos e outros juízos, estes sim, deletérios.


Postado por Ricardo Gessner
Em 9/12/2018 às 16h16


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