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COLUNAS

Quarta-feira, 24/2/2010
O retorno à cidade natal
Guilherme Pontes Coelho

+ de 6700 Acessos

O retorno à cidade natal, depois de alguns anos ausente, sempre tem o efeito de uma madeleine proustiana. Chegando, basta respirar o ar da cidade para que todo esse clichê do novelo de reminiscências se desenrede aos olhos da memória. Sobretudo se esse ar for o de Recife, minha cidade natal. Eu, já tão acostumado, e mesmo enamorado, ao ar seco de Brasília, me senti noutro planeta quando desembarquei no Aeroporto Internacional Gilberto Freyre um mês atrás. A umidade me entrava narinas adentro, e as reminiscências espocavam coração afora. Viradas no cão.

A primeira delas foi a de quanto eu detesto Boa Viagem. Quando pequeno, os passeios familiares à praia só eram bons se fossem para Pau Amarelo, Gaibu, Calheitas, Maria Farinha etc. Mas Boa Viagem, com toda aquela exibição de prédios "modernos", cuja arquitetura tem a cara do dinheiro sem requinte, era um saco. Já era assim duas décadas atrás. O tempo teve efeito hipertrófico sobre o espírito daquela região e hoje aquilo tudo lá só piorou.

Do aeroporto ao hotel, tive aquela sensação de clausura que conheci em Belo Horizonte. O que é algo bizarro, convenhamos: sentir-se enclausurado perto do mar. Mas, com todos aqueles arranha-céus de Boa Viagem, não era pra ser diferente. Não só são prédios gigantes, como são feios e sem desenho. Caixotes mesmo, retos, quadradões. Covas verticais, diria. Não sou nenhum expert em arquitetura, mas gosto muito, sim. Gosto a ponto de abominar a arquitetura pasteurizada, como a de Boa Viagem.

A última sentença do parágrafo anterior é facilmente rebatida, acreditará o possível defensor de BV e connaisseur de arquitetura. Mas não, não é. Isso por causa do fator tempo. Em BV os edifícios não sabem o que é isso. O ciclo de demolição e reconstrução por lá é meio frenético, considerando que falamos de grandes construções. De maneira que a arquitetura de lá é sempre, digamos, a da moda. Sabe, os prédios art decó que vemos acidentalmente no Rio de Janeiro precisaram sair de moda um dia, permanecer "intactos", adquirir a perenidade necessária para serem características da região e hoje representarem parte da identidade carioca. Isso não acontece em Boa Viagem. Hoje, a única coisa charmosa de Boa Viagem são os tubarões, que não gostam d'a gente.

Mas não é só de diatribes que meu novelo é composto. Passado o choque inicial, algumas horas depois, no táxi a caminho da casa da família, me senti melhor. Além de matar a saudade de seis anos, passei pela Recife de que gosto mais.

Essa Recife é a da História. Se você mora ou tem sua origem nalguma grande metrópole brasileira, talvez nunca tenha parado para pensar no quanto de História há nas ruas pelas quais você anda. Eu não tinha (mas era adolescente e adolescentes não sabem de nada), até vir morar em Brasília e ficar impressionado com o seguinte pensamento: "Poxa, essa rua tem só quarenta anos". Então vi minha cidade natal com outros olhos.

Veja bem. Diariamente eu vinha andando da escola pra casa pela Estrada do Arraial e parava no Sítio da Trindade pra paquerar ou arrumar briga. Foi lá que os holandeses levaram uma surra. Ou então, nos fins de semana, ia ao Recife Antigo com cinco reais no bolso (e eram mais que suficientes), parava pra mijar* na frente da Kahal Zur Israel, e nem sabia que aquela sinagoga foi a primeira das Américas ― e de onde saíram os judeus que seriam os futuros colonos de Manhattan. Ou, quando voltava de algum show de death metal, andando trôpego pela Ponte Buarque de Macedo não me caiu a ficha de que aquela era "a ponte do Augusto dos Anjos", o poeta predileto de todo adolescente de gostos tétricos. Enfim, a Recife da História.

Gosto disso no Rio de Janeiro também, da história da cidade impregnada em cada prédio, rua, praça, ilha e o escambau.

Os nativos de cidades litorâneas como o Rio, Recife e Salvador devem se sentir noutro planeta quando pisam aqui em Brasília. Eu me senti assim quando vim morar aqui quinze anos atrás. A umidade de Recife, a secura de Brasília. A desorganização urbana de lá, o planejamento daqui. O nervosismo do trânsito de lá, a educação daqui. O calor humano de lá, o retraimento daqui. Dois planetas diferentes. Apesar de todas as diferenças físicas entre estas duas cidades, a principal delas, é claro, é a que se vê nos relacionamentos humanos. O brasiliense nato, ou forasteiro já aclimatado à cidade, não é exatamente frio, porque, afinal, somos brasileiros. Mas são, sim, reservados e de uma maneira muito peculiar. Como me disse outra digestora, a Pilar Fazito, o brasiliense se comporta como se estivesse no set d'O Bebê de Rosemary.

O brasiliense é anômico também. Qualquer paulistano ou gaúcho pode abrir a boca pra se gabar de quatrocentos anos de História. O brasiliense mal tem cinquenta anos pra reclamar um palito de dente. O brasiliense carece de sotaque (pois é, eles não têm, mesmo), de comida típica e de tudo isso que cria identidades regionais. O brasiliense é um alienígena.

Foi assim que sempre me senti em Recife, aliás. Um alienígena. Apesar de tudo, um alienígena. Principalmente pelo clima, ao qual eu jamais me acostumei.

Como completo trinta anos este ano (e assim saio de vez da adolescência) e há quinze moro em Brasília, sou mezzo recifense, mezzo brasiliense. Depois de matar a saudade da família, rever as ruas que pixei, as escolas onde estudei e os morros onde enchi a cara em Recife, chegou a hora de voltar para Brasília.

Não sei se minha cidade natal é a que havia deixado ou a para a qual retornava.

Nota do Autor
O xixi à frente da sinagoga era acidental e por motivos meramente etílicos.


Guilherme Pontes Coelho
Brasília, 24/2/2010


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