Transformação de Lúcifer, obra de Egas Francisco | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
51627 visitas/dia
1,8 milhão/mês
Mais Recentes
>>> “É Hora de Arte” realiza oficinas gratuitas de circo, grafite, teatro e dança
>>> MOSTRA DO MAB FAAP GANHA NOVAS OBRAS A PARTIR DE JUNHO
>>> Ibevar e Fia-Labfin.Provar realizam uma live sobre Oportunidades de Carreira no Mercado de Capitais
>>> PAULUS Editora promove a 6º edição do Simpósio de Catequese
>>> Victor Arruda, Marcus Lontra, Daniela Bousso e Francisco Hurtz em conversa na BELIZARIO Galeria
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A suíte melancólica de Joan Brossa
>>> Lá onde brotam grandes autores da literatura
>>> Ser e fenecer: poesia de Maurício Arruda Mendonça
>>> A compra do Twitter por Elon Musk
>>> Epitáfio do que não partiu
>>> Efeitos periféricos da tempestade de areia do Sara
>>> Mamãe falhei
>>> Sobre a literatura de Evando Nascimento
>>> Velha amiga, ainda tão menina em minha cabeça...
>>> G.A.L.A. no coquetel molotov de Gerald Thomas
Colunistas
Últimos Posts
>>> Fabio Massari sobre Um Álbum Italiano
>>> The Number of the Beast by Sophie Burrell
>>> Terra... Luna... E o Bitcoin?
>>> 500 Maiores Álbuns Brasileiros
>>> Albert King e Stevie Ray Vaughan (1983)
>>> Rush (1984)
>>> Luiz Maurício da Silva, autor de Mercado de Opções
>>> Trader, investidor ou buy and hold?
>>> Slayer no Monsters of Rock (1998)
>>> Por que investir no Twitter (TWTR34)
Últimos Posts
>>> Parei de fumar
>>> Asas de Ícaro
>>> Auto estima
>>> Jazz: 10 músicas para começar
>>> THE END
>>> Somos todos venturosos
>>> Por que eu?
>>> Dizer, não é ser
>>> A Caixa de Brinquedos
>>> Nosferatu 100 anos e o infamiliar em nós*
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Aventuras pelo discurso de Foucault
>>> Chega de Escola
>>> Hipermediocridade
>>> A luta mais vã
>>> História da leitura (I): as tábuas da lei e o rolo
>>> Sinatra e Bennett (1988)
>>> La Cena
>>> YouTube, lá vou eu
>>> Uma história da Sambatech
>>> The Shallows chegou
Mais Recentes
>>> Chico, Eu e a Oitava Séria de Lino de Albergaria pela Saraiva (2010)
>>> O Bicho-da-seda de Robert Galbraith; Ryta Vinagre pela Rocco (2014)
>>> Surfistas Beijos e um Pé de Pato de Carolina Cequini pela Atheneu Cultural
>>> O mundo tem de ser desse jeito? de Fernando Vaz pela FTD (1996)
>>> Pretty Little Liars, V. 7 - Heartless de Sara Shepard pela Harper Usa (2010)
>>> Lucíola de José de Alencar pela Martin Claret Pocket (2012)
>>> Vigilancia Em Saude Ambiental de Solange Papini pela Atheneu (2012)
>>> Não Faça Tempestade Em Copo Dágua de Richard Carlson; Joana Mosela pela Rocco (1998)
>>> Rima do Azul Infinito de José Donizete Gonçalves pela Thesaurus (2004)
>>> O Silêncio dos Amantes de Lya Luft pela Record (2008)
>>> Principios Fundamentais e Normas Brasileiras de Contabilidade de Vários pela Cfc (2002)
>>> Filhos Para Leigos de Sandra H. Gookin pela Mandarim (1996)
>>> Cha Entre Amigas de Paula Jacome pela Multifoco (2011)
>>> Quando e Preciso Voltar de Zibia Gasparetto pela Vida e Consciencia (2001)
>>> Rowan, o Guardião: Rowan e os viajantes de Emily Ronda pela Fundamento (2008)
>>> Logística e Gerenciamento da Cadeia de Distribuição de Antônio Galvão Novaes pela Campus
>>> Shibumi de Trevanian pela Círculo do Livro (1981)
>>> Metodologia do ensino Voleibol de Pedro luiz bulgarelli pela Distribuidora Educacional (2017)
>>> Escaldado Em Agua Fria de John Straley pela Globo (2001)
>>> Fire Watch de Connie Willis pela Bantam Books (1998)
>>> Organizações Inovadoras do Setor Financeiro: Teoria e Casos de Sucesso de José Carlos Barbieri/josé Carlos Barbieri pela José Carlos Barbieri (2009)
>>> Surfista, Ex-drogado, Ex Traficante de Franjaques Chulam pela Francisco Alves (2009)
>>> A Doutrina de Buda de Bukkyo Dendo Kyokai pela Bukkyo Dendo Kyokai
>>> Um Lugar no Mundo de Alberto Aggio pela Contraponto (2015)
>>> Constituição do Estado do Rio de Janeiro de Claudio Brandão de Oliveira pela Roma Victor (2003)
COLUNAS

Terça-feira, 7/6/2016
Transformação de Lúcifer, obra de Egas Francisco
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 3700 Acessos




“Havia sempre em meu espírito algo a tirar de si um grande oposto.” (Byron)

O pintor paulista Egas Francisco criou, em 1988, uma de suas mais fascinantes e perturbadoras pinturas. Trata-se da obra denominada "Transformação de Lúcifer".

Na tela aparecem duas figuras envoltas e sustentadas por uma densa e ricamente movimentada massa pictural. Em termos de contrastes de cores, a tela divide-se em duas partes: de um lado, à esquerda, predomina a cor branca, através do qual o personagem infantil é criado e sobre o qual é amparado; do outro lado, à direita, um grande fluxo de cores (que vão do roxo ao amarelo, laranja e vermelho) aparece através de densas pinceladas que modelam e reforçam a escuridão na parte de cima da tela. Essa escuridão parece querer sugar para dentro de si tudo o que está dentro da tela.

Nas telas de Egas, de uma forma geral, a energia que brota do uso das cores e da movimentação das pinceladas nunca é tranquila, ao contrário, constitui-se como um grupo de forças que se opõem num enfrentamento que revela/desvela a natureza dos conteúdos de suas obras.

É o caso de Transformação de Lúcifer. Aqui, uma criança que é representada através de um amplo uso da cor branca, com traços e constituição suave, encontra-se acomodada sobre uma pastosa massa de tinta também branca. Pequenos sombreamentos da cor permitem perceber seus traços. Ao seu lado, de forma contrastante com a primeira figura, surge um ser desfigurado, numa insurgente aparição fantasmagórica. Ao contrário das pinceladas mais delicadas que constituem a primeira figura, esta se apresenta de forma mais desfigurada, através de uma movimentação mais inquieta e frenética das cores e das formas.

Há uma concentração de cores escuras que estão na tela sugando e fazendo esvair-se a força que poderia constituir o personagem infantil. Se observarmos a mutação das cores, partindo do menino em branco até o alto, no lado oposto da tela, percebemos que há ali uma espécie de instância sugadora que é formada por esta concentração movimentada de formas e cores mais escuras que criam uma espécie de zona tenebrosa: o destino?

Essa mudança das cores mais claras para as mais escuras é que nos transmite essa dimensão da mutação da criança em adulto. Nosso olho caminha pela tela partindo do branco da criança, depois passando pelas partes claras do corpo de Lúcifer, que vai ganhando mais cores na cabeça, até a densa matéria escura que surge atrás dele. É esse caminhar visual que nos proporciona a sensação das zonas obscuras do espírito da personagem central da tela. Egas, nesse sentido, é um grande mestre na arte de produzir efeitos subjetivos através dos deslocamentos de massas e cores dentro de suas telas.

A pureza do universo infantil pode ser percebida no uso da cor branca, símbolo da leveza e ausência de mácula, perceptível na lívida palidez de sua face, e pela inocente sensualidade do corpo despojado de tensões. A abjeção é, por sua vez, representada pela tensão pastosa da pincelada que cria a figura que está ao lado, com uma face de aspecto fero que insinua um traço perverso ou espectral, como um ser dotado de força maléfica.

As duas figuras se olham. A criança vê materializar-se o terrível destino que a aguarda; Lúcifer se põe diante do universo de sua perda inevitável. Não podemos saber ao certo o quanto há de terror no encontro desses olhos. Parafraseando Baudelaire, os olhos de Lúcifer observam a criança como um animal feroz que a vítima vigia, após havê-la antes marcado com os dentes. Pressentimos que no fundo deste embate há qualquer coisa de ardente e triste. Isso é provocado no quadro pelo amplo uso do roxo que domina parte da tela. E a partir desta percepção sabemos que o demônio celerado da idade adulta precipitará a inocência no mais profundo abismo da danação.

Na tela aparece tanto o lado luminoso como o lado tenebroso da condição humana. E a confrontação desses universos encontra a sua expressão na oposição das cores, que modelam os personagens, e na forma com a qual as pinceladas atingem a tela, com extrema violência.

Há uma tensão dramática nesta obra que provém de seu tema-limite: a inevitável perversão do Ser que ocorre durante a transformação da criança em adulto. Aqui as duas figuras são uma só, uma como devir da outra. A criança e seu espelho futuro: a perda da inocência e o mergulho no seu destino que é tornar-se um adulto abjeto.

Se essa perda da inocência fosse tratada pelo artista como um tema de natureza bíblica poderia encontrar dentro da tela sua redenção em algum simbolismo religioso. No entanto, a obra de Egas afasta a possibilidade dessa saída. Este outro que surge à frente da criança é uma espécie com seu destino selado por uma condição ontológica: tornar-se adulto significa, também, tornar-se abjeto, demoníaco, ou simbolicamente falando, através da figura do próprio Lúcifer, tornar-se fonte do Mal.

Lúcifer não é tratado por Egas como a mão esquerda de Deus ou sua outra face. Não se trata, portanto, de uma reflexão sobre o lado demoníaco da divindade, o Demon est deus inversus.

A tela trata, certamente, do Mal, encarnado na figura de Lúcifer. Não dentro da concepção agostiniana do mal, que existe como ausência do bem, mas como uma corrupção e destruição inescrutável do Ser. Esta é a condição inelutável ao qual se condena o homem ao sair da infância. Trata-se, portanto, de uma reflexão sobre o próprio destino humano. Não há o signo de uma esperança por vir.

Egas nos coloca frente a um fato consumado, sem possibilidade de redenção. Essa realidade que se cristaliza num destino, na qual a força religiosa não pode interferir, torna sua tela a reflexão de um ateu. Já que o mal não está inserido numa problemática da liberdade, da escolha de um caminho a seguir, ou na busca de sua superação através dos códigos religiosos, mas está inscrito no coração de uma realidade insuperável, essa condição enclausura o Ser dentro de uma fatalidade.

Como uma espécie de canto do mal para duas vozes, o que a tela apresenta é o mal que não se opõe ao bem, que não representa a outra face, sombria e bela, do divino. A figura de Lúcifer já nasce como condição do Ser do menino. As figuras se correspondem uma à outra, não se opõem, não se combatem, ao contrário, mantém, uma relação íntima que define a condição de devir do tema da tela. Não interessa saber se Deus é todo poderoso, se Deus é absolutamente bom. O chamado de Deus não tem sentido aqui, pois o mal não é cometido nem sofrido. Não se trata de pecado ou sofrimento. O mal acontece de uma vez por todas e é a própria condição na qual o homem é chamado a existir ao tornar-se adulto. Isto faz do quadro de Egas uma obra extremamente perturbadora.

DADOS SOBRE A OBRA: Título: Transformação de Lúcifer Data: 1998 Técnica: Óleo sobre tela Medida: 88 X 116 cm


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 7/6/2016


Quem leu este, também leu esse(s):
01. A forca de cascavel — Angústia (Fuvest) de Renato Alessandro dos Santos
02. Crítica/Cinema: entrevista com José Geraldo Couto de Jardel Dias Cavalcanti
03. Senhor Amadeu de Ana Elisa Ribeiro
04. Dilapidare de Elisa Andrade Buzzo
05. Em nome dos filhos de Luís Fernando Amâncio


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2016
01. O titânico Anselm Kiefer no Centre Pompidou - 5/4/2016
02. Os dinossauros resistem, poesia de André L Pinto - 9/8/2016
03. Tempos de Olivia, romance de Patricia Maês - 5/7/2016
04. Poesia e Guerra: mundo sitiado (parte II) - 1/11/2016
05. A literatura de Marcelo Mirisola não tem cura - 21/6/2016


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Cadernos da Amatra IV - 13º
Varios Autores
Amatra



Almanaque Disney Nº 196
Walt Disney
Abril
(1987)



Fraudes e Golpes Em Crédito e Cobrança
Adriano Blatt
Printed
(2000)



A Arca Perdida de Noé
Charles Berlitz
Círculo do Livro
(1987)



Picchi
Picchi
Copyjet
(1988)



O Livro das Sombras
N. E. Genge
Frente
(2002)



A Abadia de Northanger
Jane Austen
Principis
(2020)



Guia turismo 10+: Orlando
Vários Autores
Dk



O Segredo da Floresta do Pânico
Gillian Summers
Bertrand Brasil
(2014)



O poder político na URSS - De Kruschev a atualidade
Jacques Tatu
Expressão e Cultura
(1970)





busca | avançada
51627 visitas/dia
1,8 milhão/mês