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Terça-feira, 22/8/2017
Luz sob ossos e sucata: a poesia de Tarso de Melo
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 3400 Acessos



A Lapso, conjunto de poemas de Tarso de Melo, publicado pela Alfarrabio Edições, em 1999, situa o sentido da poesia entre os restos do humano (ossos) e os restos do mundo (sucata).

Adotando a exigência moderna da poesia de dar forma ao mundo no construto da linguagem, Tarso evoca a natureza humana e o mundo numa dicção complexa que procura tencionar esses dois universos numa perspectiva também moderna da oposição poeta-mundo.

O poema “Ainda” situa essa complexa relação em que o poeta se pensa numa perspectiva negativa, de “ser/ diferente” ou “talvez/ vazio/ estranho”, num espaço onde “sinais” ou “contatos” são nulos na sua passagem que se dá “ao léu.

O que se repete ao longo do livro é a forma pausada dos espaços inabitados como no poema “Soneto”, também de verve bem negativa, pois que não se tem nem alguém, nem espaço algum ou qualquer outra coisa: “noite, ninguém/ nenhum lugar/ coisa alguma.”

A questão dos espaços é frequente no livro, lugar que poderia ser o terreno do encontro mas que, no entanto, aparta o outro para o reino de um tempo apenas desejado ou de um lapso de memória: “guardo memórias inencontráveis/ memórias/ ausentes de outro/ lugar comedido/ se bem me recordo// troco o tempo/ por você, e paro// nada se passe”. (poema “Você).

Nessa mesma clave da relação entre o Eu e o espaço exterior, o poema “Guapé”, que vale ser citado na íntegra, também reclama essa memória opaca das cores da existência:

GUAPÉ



entre a rua e meus

óculos, janela

e algumas grades

- nuvens atrás –

a tarde fria

segura, secas

guias por onde

meninos passam



...

os dias gravados

no muro

com a cor indecisa

das tintas ausentes



Mesmo a poesia é colocada em situação negativa, como em “Um Poema”, que no entrecortar dos versos insinua sua inutilidade, ou apenas sua possibilidade de ser “mácula no branco”: “por trás dos -/ em preto e nítidos/ – caracteres/ à página presos,/ verdade que, in -/ útil, contra/ o que esperam,/ mácula no branco.”

Se considerarmos o valor da poesia como sua própria negatividade em relação ao mundo, ou ainda como contraprodução no mundo das coisas úteis, o poema elege esse inútil como útil ao fraturar a palavra em “in/ útil”. O que é positivo na poesia é sua inutilidade, seu desenraizamento que contraria os códigos esperados.

Um poema que podemos eleger como a metáfora da própria poesia é o belíssimo “Espessa”, que, se aceitamos a poesia como seu tema secreto, a temos guardada no recôndito dos abandonos do mundo, mas, mesmo encoberta pelos destroços, no entanto, eis que ela ressurge como uma lâmina iluminada:



ESPESSA

espessa como

certos ossos

sob a sucata



entre guardada

e esquecida jaz



mais que pura

intacta



a ferir quem

observa: lâmina,

lâmpada, límpida

luz



Para além das “cores em branco”, como diz o poema “Alegria”, o poeta às vezes se rejubila, depois da exaustão da procura pela palavra certa, com uma ideia luminosa. Mesmo que na adversidade da busca por um sentido num mundo que lhe parece desconexo, eis que lhe aparece “entre suas ideias/ uma que/ agrada e joga/ luz sobre as demais”.

No entanto, essa batalha, esse esgrima do poeta, como diz Baudelaire, nem sempre é o encontro. Entranhado em si mesmo, ou nos espaços fechados, como no “Quarto”, aqui está o poeta, este ser com “seu propósito de sempre// procurar/ nunca encontrar”.

Como no poema “Espaços”, o desencontro, não é ele mesmo, na poesia, esse lugar, ou os espaços da impostura da linguagem que nos oferece no seu “ofício mudo// lúdico/ (...)/ um pássaro/ em cada pulso”?

O pulso é a mão do poeta, o pássaro, sua poesia. O voo o livro A Lapso.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 22/8/2017


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01. O dinossauro de Augusto Monterroso de Marcelo Spalding


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