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Quarta-feira, 16/4/2003
Acordei que sonhava
Rennata Airoldi

Há maneiras e maneiras de se contar uma história. Aqui, nesta peça, este é o grande diferencial. Não é só uma peça, não é só um show, não é só um musical. A apropriação e o desenvolvimento do tema é sem dúvida surpreendente. Acordei que sonhava é o novo trabalho do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos. Com direção e adaptação de Claudia Schapira, a peça é uma releitura do clássico de Calderón de la Barca, A Vida é Sonho. Para quem não conhece, o texto conta a história de um príncipe que é mantido prisioneiro por seu próprio pai durante vinte anos, até que... têm um dia de rei! Mas fica para ele a eterna dúvida: seria a vida um sonho ou seria o sonho uma realidade?

Bem, nada de novo até aqui. O que há de realmente renovador é que o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos tem uma ampla pesquisa mesclando teatro com a cultura Hip Hop e, a partir daí, surge uma mistura muito interessante que resulta nesta experiência cênica. A direção musical é do DJ Eugênio de Lima. Na peça, se entrelaçam a música, o texto, o ator, o DJ, a arte multimídia e proporcionam juntos, para o espectador, uma vivência. Ao assistir, toma-se conhecimento da estética e da cultura proposta, e a vontade de interferir ativamente é constante. É uma grande parafernália, sem dúvida. Televisões, câmeras, microfones. Mas nada sem propósito ou sem função. Tudo isso é muito bem aproveitado. Não vemos nenhum elemento poluindo ou deslocado do contexto.

A peça começa meio sem dizer exatamente "a que veio". Porém, aos poucos, vai tornando-se um organismo que respira, pulsa e fala. Mais que isso: que nos faz pensar! Refletir sobre nós mesmos e sobre nossa própria vida. É um ato de muita coragem e ousadia apropriar-se assim de um texto tão conhecido e de maneira tão precisa. Um dos momentos mais hilários é a transposição do texto para os dias atuais, através da crítica à mídia. Programas de TV e shows esdrúxulos que vemos todos os dias denegrindo a imagem do ser humano na pequena tela que invade nossas casas. Não basta criticar toda a situação mas é preciso saber criticar, saber colocar de maneira correta a situação para que o espectador seja capaz de tirar suas próprias conclusões. Agir, acima de tudo. Aqui, isso é feito de maneira sublime.

Outro fato que surpreende são mulheres fazendo personagens masculinos de maneira ímpar. Não há maneirismo, nem vozes ou corpos forçando um gestual caricato. Em nenhum momento, a cena repele o olhar do espectador. Isso porque fica muito claro que todos os atores sabem muito bem sobre o quê estão falando. Há uma segurança e uma verdade inquestionável.

É um grito que ecoa! A música presente, quase o tempo todo, os DJs e as frases rimadas do Hip Hop são um tempero extra. Poucas vezes, surge a oportunidade de se assistir uma peça onde o conjunto, ou seja, todos os elementos que compõem o espetáculo, funciona de uma forma tão harmônica. Nada se sobrepõe. A música não é mais que a cena, mas, neste caso, é impossível pensar a cena sem a interferência musical. Confuso? É como ver uma flor onde todas as pétalas se somam formando o conjunto com caule e aroma, resultando no requinte fatal.

Há uma grande diferença entre um grupo que se reúne simplesmente para montar uma peça e um núcleo de pesquisa que se propõe a pensar e realizar arte sob determinado ponto de vista. Aqui, além da qualidade artística, fica também a maneira inovadora e acessível de se contar um clássico. É preciso ressaltar ainda que o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos foi um dos contemplados pela Lei de Fomento ao Teatro. Acredito que, somente com incentivos e parcerias, é possível transformar o teatro em um mecanismo de transformação cultural, educacional e social. Tomara que esta iniciativa (de juntar música, teatro e vídeo) se mantenha e se propague, pois, no mundo de hoje, nenhum segmento artístico sobrevive isolado. É tempo de globalização! Mas é preciso, também, saber unir, somar os elementos e não juntá-los sem nenhuma coerência.

"Eu entendi com o coração o que devo expressar. Se não for urgente e preciso, é melhor calar" (frase dita na peça por Maysa Lepique).

Para ir além
Acordei que sonhava está em cartaz na Funarte (sala Carlos Miranda), que fica na Alameda Northmann, nº 1058. Sempre às sextas e sábados, 21 hrs.; domingos, 20 hrs. Até o dia 24 de junho. Maiores informações pelo telefone: (011) 3662-5177.

Rennata Airoldi
São Paulo, 16/4/2003

 

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