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Quinta-feira, 22/5/2003
Dicionário de Nomes Próprios, de Amélie Nothomb
Ricardo de Mattos

A viagem de ónibus entre Taubaté e Ubatuba demora duas horas; ida e volta, quatro. Este tempo, conforme um cálculo digno de Phileas Fogg, foi além do suficiente para a leitura das 151 páginas de texto do Dicionário de Nomes Próprios, romance – ou biografia – escrito pela belga Amélie Nothomb.

Amélie nasceu no Japão em 1.967, quando lá funcionava seu pai, o embaixador e escritor Barão Patrick Nothomb. Por acompanhar a família em suas viagens, ela só veio pisar definitivamente em solo belga aos dezassete anos. Mesmo assim, mantém uma vida relativamente nómade. Formada em filologia romana pela Universidade Livre de Bruxelas, já tem publicados dezasseis dos quase quarenta romances que diz ter escritos. A maior parte ela insiste em guardar, afirmando serem demasiado pessoais. Além do Dicionário, pode ser citada sua principal obra Higiene do Assassino como também A Sabotagem Amorosa, Catilinárias, Atentado, e a peça teatral Os Combustíveis. Também aventura-se pela composição e escreve letras para música.

Dicionário de Nomes Próprios é a tradução encontrada para o título em francês Robert des Noms Propres. Robert é um dicionário referencial da língua francesa, tal como aqui menciona-se o Aurélio. Apesar de masculino, é também o nome de uma cantora francesa da actualidade. Daí porque falei ser um romance ou biografia. Quem conhecer a cantora lerá a obra como biografia; se não a conhecer, como romance. E por isso falo em “literatura para moças”. Perdida a ligação entre o livro e a cantora, sobra a história de uma jovem a passar por vários problemas até encontrar o príncipe e viver feliz ad aeternum.

O livro é iniciado de forma banal, pois os primeiros personagens, verdadeiros pais da protagonista, formam um casal ordinário. Contudo, desenvolve-se muitíssimo bem e revela na prosa elegante e sucinta, nas divagações cultas, e no excelente humor, o talento real da escritora. Real, mas ainda imaturo, pois o final é de uma infantilidade inexplicável. A escritora faz-se personagem e é assassinada pela biografada. Uma forma no todo pueril de expressar sua dedicação à cantora, a quem acompanha na vida profissional e para quem escreve as aludidas letras. Parece pressa em terminar o trabalho.

Dois pontos dignos de nota
O primeiro concerne à predilecção de Plectrude – nome original de Robert – pelos salvamentos de última hora. Quando criança, tiranizava uma amiga ao ficar parada fora da calçada até o derradeiro instante da aproximação do ónibus escolar, sendo sempre puxada já com risco para a salvadora. N’outra ocasião, deixa-se cobrir pela neve até o ponto de congelamento e só grita por socorro ao sentir falta de ar. Ao final, é salva quando já estava sentada no parapeito de uma ponte, prestes a atirar-se ao Sena.

O segundo ponto é sua preocupação com a redibição, facto já tratado pela literatura mas assim nomeado pela primeira vez, ao menos que eu saiba. Trata-se do desencanto, da constatação de que a pessoa real não corresponde à imagem previamente formada ou aparecem certos defeitos não percebidos no início. Ou ainda, salientam-se os defeitos de forma que não se possa mais mascara-los. Esta comprovação serve de intermédio entre o aproximar-se e – mais corriqueiro – o frustrar-se. “Redibição” é termo ligado ao vocabulário jurídico e realmente pela primeira vez o vejo aplicado desta forma. Não se deve esquecer que a escritora é filóloga. É a fuga da redibição que causa todo o transtorno para o tenente do conto Insolação, constante do volume de mesmo nome, do escritor russo Ivan Bunin. Cinquenta anos depois de sua morte – aos 83 anos – a colectânea é traduzida para o português a partir da tradução inglesa. Facto desculpável, a não ser que se apresentem mais de dez tradutores competentes de russo no Brasil.

Isso não importa, e sim que recebemos esta primeira amostra da obra do escritor, e talvez outras traduções sejam estimuladas caso este volume encontre boa acolhida. O conto que abre e nomeia a colectânea – datado de 1.925 – mostra a angustia causada pelo entusiasmo abruptamente tolhido. Durante uma viagem de barco pelo Volga, um militar conhece certa mulher que sequer revela seu nome. Descem no primeiro porto, e após o saciar das paixões, ela parte pela manhã logo no primeiro barco, alegando querer manter a sensação provocada pelo encontro. Depois, acompanha-se a aflição do tenente, afastado da pessoa que lhe comoveu antes de definir seus sentimentos, antes de sequer saber mais sobre ela. Se ela preferiu o afastamento para manter o sentimento, ele não conseguiu fazer o mesmo, contorcendo-se ante à dúvida “do que poderia ter sido e não foi”. São bem vívidos o desânimo e as hesitações do personagem, envolvido além do aconselhável em tal situação.

Para ir além




Ricardo de Mattos
Taubaté, 22/5/2003

 

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