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Terça-feira, 9/9/2003
Os cyberpunks e o futuro
Marcelo Barbão

O mundo está reduzido a uma confusão ideológica e isso se reflete na vida dos indivíduos que acabam não sabendo o que é sonho, delírio e realidade. Não sou eu que falo isso, mas é o que pretendem os autores de ficção científica das décadas de 80 e 90. Foi uma mudança tão grande em relação à ficção científica feita até a época pré-Internet, que até um novo nome foi criado para eles (na verdade, eles mesmos se auto-denominaram): cyberpunks.

Punks porque seus personagens funcionam fora da lei, ou no limite dela, e cyber porque toda a revolução da informática e da cibernética está presente dentro das novelas e contos.

É uma mistura muito estranha entre os valores e sonhos dos hippies dos anos 60, com o desespero e falta de perspectivas dos punks dos anos 70, o consumismo e materialismo (no mau sentido) dos yuppies dos anos 80 e o libertarismo e rebeldia dos hackers dos anos 90. Tudo embalado em uma pseudo-literatura renovadora.

Ao misturar delírio com ciência, os cyberpunks foram rechaçados pelos próprios amantes da ficção científica. Difícil de acreditar, mas verdade.

"Futuro Proibido" é uma coletânea antiga, feita pela revista Semiotext(e) em 1989 que somente chega agora ao Brasil. Nestes quase 10 anos que separam os dois livros, muita coisa aconteceu, até mesmo a decretação da morte do movimento cyberpunk.

Agora, uma coisa é preciso dizer: a distância entre a teoria e a prática é gigantesca. Quer dizer, partindo de uma idéia extremamente interessante de renovação conteudística da literatura, chega-se a uma prática pouco criativa, monótona e, até mesmo, conservadora.

A maioria dos contos selecionados tem pouco a acrescentar à literatura seja de ficção científica, seja no geral. As histórias se repetem, mostrando um mundo, no geral, caótico, mas tudo é mostrado de forma superficial e de forma bastante óbvia.

É isso que mais fica evidente nas histórias, os personagens são pouco profundos, banais até. Muitos podem dizer que essa é a realidade do mundo de hoje (e até eu poderia concordar com isso), mas o problema é que essa banalidade não cria boa literatura.

E o pior é que os chamados "papas" da literatura cyberpunk são exatamente os que mais desapontam como Bruce Sterling, William Gibson e Sol Yurick que mostram um festival de obviedades. Já o grande William Burroughs, que nem forçando se encaixa no mundo cyberpunk, é o ponto alto da coletânea apesar de participar com dois pequenos contos.

A editora Conrad ainda pretende lançar o segundo volume da coletânea. Esperemos para ver se existem outros autores que fogem das soluções óbvias e conseguem criar histórias que respondam verdadeiramente a estes tempos pós-modernos. Todos os elementos para criar boas narrativas estão ali. É só romper com o conservadorismo e partir para as experimentações na forma, só assim veremos coisas realmente inovadoras.

Para ir além



Futuro proibido
Vários autores
Editora Conrad
R$ 29,00

Marcelo Barbão
São Paulo, 9/9/2003

 

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