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Segunda-feira, 9/7/2001
Herança
Arcano9

1985

Mamãe e seus pimentões. Eu nunca gostei de pimentões. A casa da minha tia cheira a pimentão. Como minha casa no Brasil. Mas minha tia mora muito longe. Mora num lugar muito quente. Norte da África, sul da Europa. Meu tio bebe água no cântaro. O cântaro é típico daqui, é um jarrão de barro, com uma ponta por onde sai a água. Depois, minha tia chega para ajudar minha mãe. Pimentões para almoçar. Pimentões com esse tal presunto que toda vez que minha mãe falava no Brasil, minha boca se enchia d'água. Nem preciso dizer que deixo todos os pimentões de lado e só como o jamón.

Hoje fomos à catedral, pela manhã. Lugar escuro, gigantesco, assustador. No Vaticano tem uma maior. Mas a daqui é a maior catedral gótica do mundo. Seguimos pela calle Sierpes até a construção monumental. Aquela torre, la Giralda. Ela é maravilhosa. Fiquei me perguntando se a torre Eiffel ou a torre de Pisa poderiam ser mais lindas. Toquei na torre fria, as pedras carcomidas pelo tempo, como se fosse um astronauta pisando na Lua. Minha mãe achou graça. Na minha casa no Brasil, há réplicas de plástico da Giralda, umas duas delas. Algumas tem uma luzinha dentro, você coloca na tomada e ela se acende. A original tem pouco mais de 102 metros de altura e pode ser vista a quilômetros de distância.

O Alcázar. Parece ser um castelo construído pelos árabes na época em que eles dominaram toda esta região da Espanha. Sentir a água fresca na fonte no chão, a meus pés, naquelas salas ricamente esculpidas com aquelas letras árabes estilizadas. O mármore, os pátios versus o sol agressivo, tentando em vão destruir a sombra fresca. A parede é áspera, passo a mão para acariciá-la. Senti que há muita história que o Alcázar guarda, mas eu não me interessei.

Também fomos aos jardins de Maria Luiza. Fomos numa carruagem, uma que a gente apanhou perto da catedral. O cara dirigindo a carruagem explicou tudo sobre o parque, mas eu não lembro de nada. Estava fazendo muito calor quando chegamos à Praça da Espanha. Encontramos minha tia por lá, com um dos meus primos. Fiquei impressionado com a arquitetura e com o termômetro. Era agosto, estava fazendo 48 graus. Súbito, quase desmaiei de sede, tomei uma Coca-cola. A Coca-cola tem o mesmo gosto da do Brasil.

Depois, fui visitar meus tios. Infinitos tios. Infinitos primos. Não lembro o nome nem da metade deles. Todos tem a minha cara. Todas as tias me apertam a bochecha e dizem que estou gordinho. No Brasil, tem eu, minha mãe, meu pai e meus dois irmãos. Mais ninguém.

Passa-se um mês. Começo a querer voltar para casa. Saudade da escola.

Mas sei que vou voltar.

1997

Sevilla é parada obrigatória. Embarquei no ônibus em Lagos me preparando psicologicamente para tentar não comer tudo o que minha tia fosse me colocar pela frente, e para ser simpático e educado com todos os meus tios. No caminho, reflito sobre tudo o que eu queria conhecer na cidade e que em 1985 não conheci. Não sei. Sevilla é a última cidade que eu vou "conhecer" na Europa. Eu sempre digo para meus amigos: a capital andaluza é muito bonita, mas eu não posso falar muita coisa. Só fiz o turismo por um dia, aquela inesquecível tarde de 48 graus. Depois, visitei meus parentes, os milhares. Na verdade, é tudo diplomacia, eu acho que eu preferiria ir para Praga em vez de ir à Espanha desta vez. Mas preciso manter boas relações com eles. Eu quero cultivar essas relações, eles são todos pessoas legais.

Meu primo me pega na estação de ônibus. Sevilla mudou. Houve uma exposição internacional aqui. Vejo ao longe a ponte do Alamillo, uma gigantesca construção, um arco de metal de uns 200 metros de altura. Meu primo continua desempregado. Vejo rapidamente a Praça da Espanha, continua gloriosa. Minha tia, diz meu primo, está com reumatismo. Vejo passar pela janela jovens espanholas. Lindas. Isso eu não havia percebido antes. E o sol, o sol, o sol.

Minha tia diz que eu estou muito magrinho e me prepara um sanduíche de queijo oleoso e jamón. Vou ficar uma semana. No dia seguinte, antes que qualquer pessoa acorde, escapo, pego o ônibus, vou para o centro.

Pelo bairro de Triana, as sacadas colorida, floridas, são os gerânios que minha mãe plantou no jardim lá de casa. E em Triana, um bar, outro bar. Os donos dos bares batizam os locais com seus sobrenomes, como se os bares fossem seus filhos. E todos eles têm nomes parecidos com o meu. Alguns, nomes idênticos. Atravesso a ponte de Triana, cruzo o Guadalquivir. Manolín, no te acerques tanto a la orilla, diz a mãe gorda, com peitos imensos, da sacada à minha direita ao moleque de oito anos à minha esquerda, o moleque pescando no rio. Ao longe, acho que do outro lado do rio, ouço uma pessoa gritanto. Atravesso mais, e a pessoa não está gritando, está cantando, um canto de grande dor ou de amor. Um canto gritado. O canto me atrai. Ando então à sombra da catedral. Sevilla tem cerca de 700 mil habitantes, é a quarta maior cidade da Espanha. Lembro de João Cabral de Melo Neto, brasileiro.

Dentro da vida de Madrid,
onde Castela, monja e bispa,
alguma vez deixa-se rir,
deixa-se ser Andaluzia,

logo se descobria
seu ter-se, de Sevilha:
como, se o riso é claro,
há mais riso em quem ria.

(extrato de Uma Sevillana pela Espanha)

Uma praça famosa, a Alameda de Hércules, é um lixão, está cheia de sujeita e mendigos. Mas o resto da cidade, está OK. Hércules, reza a lenda, fundou Sevilla em aproximadamente 1000 A.C. Isso explica a tal alameda, com uma estátua de Hércules, e também a outra estátua perto da prefeitura. Hércules teria sido um navegador fenício que teve coragem de passar do estreito de Gilbraltar na época que todos tinham medo de fazer isso. Depois, entrou pelo plácido Guadalquivir e se fixou numa ilhota no rio. Catequizou os locais com a religião egípcia. Morreu e foi considerado herói, e sua fama chegou a outras partes do Mediterrâneo. Virou semideus.

Chego à muralha medieval. Meu pai nasceu aqui, na rua Patrício Saez. Depois ele se mudou para o bairro de La Bartola, aqui perto. Tenho um tio que até hoje mora na La Bartola. Mas lá ao lado da muralha eu encontro a igreja. A da Virgem de Macarena. Nunca fui católico praticante, mas ao vê-la sinto um impulso irrefreável de persignar-me. Seu rosto lacrimejante, sua rica túnica dourada, seu sacrifício sempre estiveram presentes na minha casa no Brasil. Tinha uma imagem logo na entrada de casa. Outra, na sala. Dios bendiga esta casa, ao lado da foto da santa. Lembro que preciso ver a Semana Santa em Sevilla. Tomar um jerez ou um vino de manzanilla. E ver a Macarena passear pelas ruas. As pessoas por aqui são fanáticas.

Passo pela plaza de toros. Acho uma selvageria. Mas gosto de ver os cartazes - há um lugar, ali perto, que você pode por seu próprio nome num desses cartazes, substituindo o El Cordobes. Foi engraçado há uns anos, quando assisti Sangue e Areia. Tyrone POWERS perfeito andaluz. Eu entendia as entrelinhas, entendia por que ele era impetuoso, entendia porque as pessoas dizem que eu sou muito nervoso e porque às vezes grito à tôa. Porque, às vezes, sou um bruto, um animal. Nem toda a educação do mundo vai acabar com essa herança incontrolável.

Meu primo de 17 anos passa em casa mais tarde e vamos dar um passeio com outros primos. Vamos a uma espécie de festa a céu aberto. Uma rave, talvez, mas com a diferença de que só se toca esse ritmo típico, as Sevilhanas. Impressionante é que todo mundo sabe os passos. Os passos para dançar as Sevilhanas são difíceis, não é só deixar o corpo se levar, há toda uma seqüência. Meu primo se enrosca com uma loira. Olhos nos olhos. Pés batendo forte no chão. Ela veste jeans apertado, mas segura na longa saia virtual. Todos batem palmas, marcando o ritmo. Há muitas mulheres fortes, morenas. Todas fumam. Todas olham despudoradamente para os homens, e os homens para elas. Há um cheiro de sexo no ar.

Na volta, meu primo de 16 anos está muito borracho e pede para parar o carro. Enquanto ele vomita, eu e meu primo de 17 conversamos sobre viajar. Ele dá a entender que não tem muita vontade de conhecer Paris, ou Londres, ou Nova York. Ele gosta de Sevilla. O que mais se pode querer no mundo?

Vou embora dias depois. Vou ver as minas catalãs. Mas sei que vou voltar.

2001

Eu, meu tio e meu irmão num maravilhoso restaurante na rua Dos de Mayo, pertinho da catedral. Chama-se Mezón de la Infanta, e é um dos melhores daqui. Meu irmão, que é professor de espanhol, me corrige os infinitos erros na minha tentativa de falar andaluz perfeito. Tenho que ignorar boa parte das consoantes no final das palavras, dedo vira deo. Pescado vira pescao. Pescadito vira pescaíto, e é isso que meu tio pede. Eu peço um maravilhoso Gazpacho, uma sopa de legumes servida gelada, perfeita para o calor. O líquido desliza pela minha garganta abaixo. Damos risadas. Olho para meu irmão. Reflito em um milissegundo, esse negócio de herança. Depois, olhando para a catedral, lembro que em 1890 construíram no Madison Square Garden, em Nova York, uma réplica da torre sevilhana. 35 anos depois, a cópia seria destruída. A Giralda, construída pelos árabes muçulmanos, assimilada pelos cristãos, copiada e destruída pelos yankees. Quem diria, até a Giralda já imigrou. E já viveu crise de identidade. Identidade imigrante. Voltando para a casa da minha tia, no mesmo subúrbio imutável de 1985, no mesmo ar quente de deserto de 1997, chego à conclusão que Sevilla sou eu. E, se eu às vezes não me conheço, é só voltar.

Para ir além

Mesón de la Infanta - calle Dos de Mayo, 26, Arenal
Telefone 95456 1554.
Por um gazpacho, uma chuleta de cordeiro e uma cerveja paguei 2675 pesetas.

Arcano9
Londres, 9/7/2001

 

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