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Sexta-feira, 26/9/2003
Canto Infantil N 1: É Proibido Miar
Daniel Aurelio

Dedicado ao mero estudante de sociologia que o assina.

"Vem que vem cantar/ Vem que vem soprar/ Vem que vai voltar/ Vem que vai trazer/ Tudo aquilo que eu tive/ E o ventou carregou/ Quando eu estava distraído/ a olhar pro meu umbigo/ E o momento já passou"
("Vento Perdido", Pedro Bandeira in Cavalgando o Arco Íris, 1984).

O livro da minha vida chama-se É proibido Miar, do Pedro Bandeira. Uma revelação dessas, iniciativa de alguém que, deduz-se, seja um suposto crítico literário ou congênere, não é lá algo muito positivo para o currículo. Estou disposto a pagar o preço. Não seria honesto renegar que toda minha volúpia - às vezes exacerbada, confesso - pela leitura tenha nascido a partir de suas páginas.

É demasiado humano (e compreensível) que determinada falange de críticos necessite expressar, ad infinitum, seu apreço pelas obras-primas adultas; quando não para encontrar ressonância entre seus leitores, tal ato tem o rasteiro propósito de demonstrar força e enciclopédicos saberes, feito glacê para um bolo de feno.

John Fante, por exemplo. É a bola da vez. O clichê do ramo. Que mais precisamos conhecer sobre ele e seu Pergunte ao Pó (Ask The Dust, 1939) , disparado um dos vinte melhores livros do século XX? Todavia, é o atual número um dos cadernos culturais. Fácil enfrentar a ribalta do palco com uma platéia entupida de amigos.

Mas na medida em que o jovem toma seu primeiro contato com a literatura através dos infanto-juvenis, fico com a impressão de que é espantosa burrice (pequenez intelectual dos doutos) rebaixá-los a divisões intermediárias em pujança artística. Quando muito, fala-se no sazonal Salinger e seu Apanhador no Campo de Centeio. Pior: qual passe de mágica, todos os déspostas esclarecidos da "periferia do capitalismo" (quem pescou a ironia, pescou) iniciaram suas leituras aos 14 anos, com Kafka e Saramago. Aos 16, deglutiam com fluência filosofia alemã: Liebniz, Schoppenhauer, Kant, sempre consideraram as teorias hegelianas de um idealismo carola deprimente e só então passaram a Nietzsche, a espinafrar de pronto seus dualismos e os flertes que sofreu a direita e a esquerda. Um assombro.

Não faz muito, já em vista a confecção deste artigo, cavouquei pelos sites de busca da Internet ensaios ou vestígios relativos a prosa de Pedro Bandeira. Fiquei no vácuo. Em compensação, trabalhos sobre cânones literatos piscavam convidativos na tela. Alguém precisa, urgente, clamar pelo óbvio: Bandeira, ladeado por Ziraldo, é o autor mais adotado pelos colégios brasileiros (supera as badaladas Lygia Bojunga, Ana Maria Machado e Ruth Rocha, três ganhadoras do Hans Christian Andersen Medalhe, equivalente ao Nobel na categoria), e diretamente tem influenciado e formado nossos garotos e garotas desde a década de 80. Modular o discurso pulando um conceito cientifico e pedagogicamente sacramentado é covardia, é achaque.

Pouquíssimas obras mantêm tamanha sintonia com temas relacionados à segregação social e a liberdade de expressão quanto meu favorito. Talvez só encontre similaridades no espetacular Tanto, tanto! (de Trish Cooke, ed. Ática), livrinho infantil que revolucionou as táticas educacionais anti-preconceito (deixo os motivos no vazio como lição de casa: procure-o em livrarias e sebos). Outro perdido na solidão empoeirada das prateleiras.

Lançado pela editora Moderna em 1983, no limiar da ditadura militar, É proibido miar narra a trajetória do cãozinho Bingo, que desde seu nascimento demonstrava certa inabilidade com o espírito de corpo coletivo (ainda que fosse explicitamente doce, afetuoso e peralta), característica que se acentua drasticamente ao estabelecer amizade com um gato misterioso (oras, todo felino é um mistério pardo). Bingo admira seu amigo e decide copiá-lo em seus miados. Um insulto à raça canina, um código estranho ao seu meio. Configura-se a partir desse confronto um pesadelo foucaultiano clássico. Bingo sofre sucessivas tentativas de enquadramento à norma, a começar pelo desgosto e ausência de brilho nos olhos paternos, passando por vizinhos e até pela família que acolhe os cães, que representam todo o peso da super-estrutura que paira sobre o grupo. Acaba aprisionado juntos aos seus "iguais" (errantes em pobreza, sujeira e doença) no Canil Municipal, alegoria dos manicômios, prisões ou linhas ferrenhas de produção as quais um desviante humano será subjugado. Decide fugir. E foge. Para miar em paz.

Daí entra o vetor principal dos infantis de Bandeira: travestido na redentora sensação de happy end, aquele final metafórico, algo ambíguo, que tornam boas histórias em apoteoses artísticas. O mundo exterior a ele pergunta-se, solerte, por onde andarás seu filho desgarrado. Continuará a receber chibatas por ai ou migrou para uma tribo?

"Ninguém mais pôde encontrar o Bingo. Nunca mais se soube para onde ele foi (...) Outros acham que ele foi para uma terra onde todo mundo pode falar à língua que quiser. Uma terra onde é permitido miar. Uma terra onde é permitido ser diferente"

O livro é recomendado para crianças entre oito e nove anos.

Imaginou o quanto isso pode reverberar numa criança dessa idade?

Nos anos 60, Pedro Bandeira fez tudo o que se esperava de um filhote da esquerda contra-revolucionária. Foi jornalista do campeão de matérias decapitadas, o Ultima Hora de Samuel Weiner, meteu-se com teatro e ciências sociais na USP, todas essas atividades cancerígenas ao andamento azeitado de saúde das reformas propostas por militares e dinastias ultra-conservadoras da igreja e da política. Tem, portanto, o pedigree de outros mais incensados pelas altas rodas culturais, vende muito bem, é um mestre do texto, mas estranhamente não rende um debate, uma tese, uma linha. Desleixo, deliberado ou não, vergonhoso.

Antes de um prepotente onanismo acadêmico, autofágico e um tanto canalha, isso aqui é um puxão de orelhas vigoroso em quem se enxerga formador de opinião.

Pois saibam, damas e cavalheiros, que os primeiros filhos da geração Pedro Bandeira cresceram. E agora já começam a soltar seus primeiros miados incômodos de desabono.

É proibido proibir, esqueceram?

Para ir além




Daniel Aurelio
São Paulo, 26/9/2003

 

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