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Sexta-feira, 7/11/2003
Canto Infantil Nº 2: A Hora do Amor
Daniel Aurelio

A primeira das sete vezes em que li "A Hora do Amor", do romancista Álvaro Cardoso Gomes, foi por urgência. Aos doze anos, eu não passava de um mau aluno estudando em uma má escola pública, que ladeava suas divisas territoriais com o que havia de menos dócil na periferia. Eu tinha tudo para dar errado.

Minha mãe fora convocada pela diretoria da EMPG. Motivo de briga, eu acho. Eu tinha tudo para dar errado, mas ainda sim me pelava com as chineladas maternas. Um completo merdinha. Um merdinha que, apesar dos pesares, consumia sozinho uma página semanal do controle de empréstimos na biblioteca.

Eu precisava despistar o temor. Melhor que ela chegasse logo, com os ouvidos ainda queimando expurgos contra o caçula da prole, que o ínterim é de uma angústia atroz. Precisava ler qualquer coisa. E na estante do meu irmão desbotava-se o livro, herança das obrigações de sua oitava série. Gostei do título: ouvia muita música romântica, Michael Bolton, essas coisas. Naturalmente, eu estava apaixonado pela garota mais bonita da sala, e cultivava uma foto sua - tirada por um amigo numa dessas Cânon antiqüíssimas, toda disforme - debaixo da gaveta de cuecas. Nunca escondi que sou um cara comum, escrevendo sobre coisas comuns. E um cara comum se apaixona pela garota mais bonita da sala, perdendo o foco da lousa a cada trinta segundos. A "Hora do Amor" parecia um título animador.

Não escapuli do merecido castigo. E a leitura não me tele-transportou para paraísos infinitos e multicoloridos, como insinuava uma antiga propaganda do Ministério da Cultura. Não é estritamente necessário perpetrar espaços metafísicos para achar beleza e encantamento. O amor interiorano-interiorizado de Beto e Lúcia Helena fincou meus dois pés no firmamento. O tal cavalgar no arco íris de Bandeira começava a fazer sentido.

A história descrevia a sessentista Americana dos bailinhos, sorvetes, estilingues e pés de goiabeira no quintal, uma excentricidade para quem nasceu e cresceu em uma metrópole cinza-chumbo, amotinado defronte a tv e o vídeo-game.

Eu nunca soube dependurar-me em árvores.

Que faz de um enredo simples e reiterado - a paixão juvenil - arrebatador a ponto de sobressaltar-se na avalanche de paradidáticos despejados a cada temporada no mercado de livros?

A resposta, em parte, está na biografia do autor, ali no ano de nascimento: 1944. Cardoso Gomes atravessou sua juventude no período, um fator que, se não serve de regra inflexível para a construção minuciosa de um cenário, tem a seu favor a placidez da reminiscência pessoal, a pincelada de emotividade que uma obra do gênero pressupõe. Tendo um infanto-juvenil escrito e engavetado pela ditadura da "linha editorial", atesto o quão saboroso é embrenhar-se por um tempo que lhe pertenceu quando moleque.

Outro aspecto importante, e que não costuma ser privilegiado na escolha do catálogo das editoras especializadas - a julgar pela predileção por contadores de causos operários, ou seja, com metas de publicação a bater - é o refinamento do autor. E Álvaro Cardoso Gomes é um de nossos melhores prosadores, constituindo uma sólida trajetória na literatura adulta, apesar de ser deletado do senso coletivo e reconhecido por uma minoria de iniciados.

Ao cerrar seu mundinho em códigos datados, a obra abarca um mundaréu jovem com o mínimo tino para a leitura. Não é preciso saber quem foi Sivuca para tornar-se cúmplice das desventuras do protagonista.

O traço econômico, marcado por pontuações rápidas e capítulos curtos é a estrutura perfeita para o desfile de preocupações que marcam Cardoso Gomes e seus pares contemporâneos. A sisudez do sistema de ensino - historicamente incapaz de lidar com a adolescência - e os pudores silenciosos das relações familiares, no ato contínuo de castrar-se o indivíduo em um meio marcado pelo rigor e zelo ao "futuro do menino". E Beto encontrara o amor. Mas também os padrões de ascensão social, como a figura fraudulenta do Tagliato, premiado com um dez por uma redação escrita pelo pai, toda ela recheada de inofensivo parnasianismo, enquanto o potencial inventivo de Beto, insinuado em diversas passagens do livro, era tomado - aos gritos pelo mestre - como personificação do blasfemo. E tinha o Mário António, seu algoz. O cara que roubara sua paixão de tímido flerte, a Lúcia Helena.

Impossível não reconhecer um Mário António por ai, com sua pose galante e narcíseo ao limite. Não que Mário António fosse uma figura do mal, apesar de nos compadecermos pelo Beto: o antagonista era um cidadão sem crimes, sugado pela mentira de sucesso que projeta aos outros e seguramente deve ter tido, a despeito de sua clamorosa superficialidade, uma vida tranqüila mais para frente, com as nádegas a esquentar alguma cadeira de escritório. No teatro da vida, Beto ousara amar. E respeitar a inteligência da amada, desvelando-se um rapaz confuso, sem saber ao certo como dançar a música tão apreciada pelos convivas.

E foi o cosmopolita e letrado Lelo, seu irmão mais velho, quem ensinou o significado da palavra marginal. No sentido amplo e restrito. E também o apresentou à "literatura proibida" de Julio Ribeiro e Balzac. Beto adorou saber disso. Por breve interlúdio, acabou marginal restrito e não é difícil entender o por quê.

O mocinho errante encontrou seu rumo e, no vagão de trem que rumava para a capital, a Lucia Helena. Se nos sentimos vingados por ele, sabemos também que ali se encontrava, nos braços de sua enamorada garota, o "homem mais feliz do mundo". O começo do fim. O cidadão enlaçado. Não pelo amor. Mas pela via de tráfego mais fácil. O Beto é um cara comum, que optou pela honradez de uma boa noite de sono ao carnaval que sempre tem um fim. Sou mais Beto que Mário António. Só não sei isso é alguma vantagem.

E desde então que peguei essa mania de, ao entrar em desatino, abrir um livro desconhecido. Mania boa essa a minha.

Para ir além





Daniel Aurelio
São Paulo, 7/11/2003

 

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