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Quarta-feira, 12/11/2003
Até tu, Raquel!
Alessandro Silva

A morte da escritora Raquel de Queiroz está rendendo homenagens das elites mais incultas.

Além das longas reportagens televisivas, também a cartolagem está preocupada em promover a própria imagem em função desse sublime acontecimento que é a morte.

Na partida de quarta-feira passada entre Sport e Palmeiras foi rendido o um minuto de praxe em função da simpática senhora que pouco antes de falecer dizia que morte em sua idade chega a ser quase uma aspiração.

Nós gostaríamos de dizer em nome dela:

- Muito obrigado, mas dispenso.

Há algo de podre no reino da Dinamarca quando uma casta de barrigudos cabeça-oca sem aptidão sequer para sua leitura mensal põe-se a render homenagens a escritores.

Certamente que Raquel de Queiroz nada diria contra os ufanistas da gratuidade, posto que era uma senhora muito simpática e também simples, além do mais um pouco isenta da missão de "escrever a grande obra".

Mas é obrigação dos que se põem a escrever ou tentar explicar literatura uma palavra contra a propaganda exacerbada que é erigida diariamente sobre o sofrimento e a morte das pessoas.

É melhor que se diga logo que a maioria dos que alardeiam sentimentos em relação à dignidade de um litterati morto sequer tem o direito de fato.

A casta de barrigudos cabeça-oca é certamente quem não tem. Essa casta é composta pela última flor do lácio inculto que se empoleira na indústria cultural para gerar capital, grandes vendas, exploração sistemática da imbecilidade popular, transformando as intenções que nascem puras nos artistas em abomináveis "abacaxis".

São mais do que conhecidas nossas as chantagens que circulam em torno da aparição de uma nova estrela. Quem não conhece um compositor que principiou timidamente com uma idéia própria e que no andamento da carruagem não teve que joga-la no lixo por pressões de sua gravadora? Quem não conhece a história do jogador de futebol que acabou promovido a garoto propaganda e acabou esquecendo de jogar futebol? Quem não sabe de quantos escritores ou pintores não se rendem a um certo mercado com "valores" previamente fixados?

Talvez não seja importante agora especular porque Raquel de Queiroz não recusou a ABL ( Academia Brasileira de Letras ) em função daquilo que escreveu. Mas não deixa de nos incomodar a questão do porque uma pessoa preocupada com aquela parte da sociedade marginalizada, uma escritora com sérias intenções de denunciar a pobreza e a miséria do sertão nordestino acata as honras de um tipo de gente que representa aquilo que há de mais retrógrado, reacionário e conservador na sociedade brasileira.

Talvez a escritora não concordasse com nossa indignação diante da atual exploração de sua imagem pela mídia noticiosa e futebolística ( e porque haveria dê uma pessoa que cedeu roteiro a telenovelas - vide o "Memorial de Maria Moura" ).

No fundo, o "caso Raquel", a situação de quem acabou por se vender à indústria cultural, é só mais um reflexo do ACG ( amolecimento cerebral generalizado ). Pois no Brasil não parece que a idéia de fazer literatura ou pintura envolva reais questões de honra; indo além: a idéia de um Flaubert que se enclausura em sua torre de marfim mantendo-se fiel a suas intenções de radiografar a estupidez humana é um tanto romântica ( muitos com quem falo são simplesmente incapazes de entender "a dignidade da arte" - sim, aquela mesma pela que Joyce lutava para não morrer de inanição ).

Certo é que a situação dos que "não se venderam" é quase desconhecida nossa, exatamente porque que quem não se vende não aparece. Ao fim da vida, os artistas autênticos quase sempre são pálidas lamentações de sofrimento incorrespondido.

Mas estes são os fortes, os que almejam além de sua época. Sthendal: são necessários oitenta anos para que alguma coisa atinja o público em geral.

O fenômeno dos que se vendem em troca de facilidades, dos que se iludem fazendo a sua obra corresponder às simpatias de um público "feito sob medida" não seria de se espantar se não ocorresse com tanta freqüência no Brasil.

Bem diferente do que se passa no Brasil é o que nos conta a história de alguns escritores europeus.

O mais sublime passou-se com o escritor francês Jean-Paul Sartre que, chamado às honras do prêmio Nobel em 1964, simplesmente recusou-se a aceitá-lo alegando que aceitá-lo seria trair o que até então havia escrito.

O escritor irlandês Samuel Beckett, que não recusou o prêmio formalmente, buscou refúgio no continente africano, na Tunísia, para escapar às graças da mídia quando ficou sabendo que seria agraciado, em 1969.

Mas o mais pitoresco dos casos talvez tenha sido o do norte americano Sinclair Lewis que, em 1930, hospedado em Roma dias antes de partir para Estocolmo para receber seu Nobel, foi encontrado quase morto numa banheira pelo poeta francês Blaise Cendrars, que o salvou do suicídio por afogamento - fato que de um modo ou de outro demonstra a pouca importância que o norte-americano dava ao reconhecimento público.

Difícil de digerir é a resignação do escritor José Saramago. Ele se parece muito com aquele tipo de intelectual malicioso que diante das massas, ao chamado do combate, abre caminho à multidão para se esconder da refrega. É inaceitável que o escritor indignado com aquilo que sustenta ser o "imperialismo da economia globalizada", o homem que denuncia o genocídio do povo timorense frente ao domínio polinésio, e portanto o escritor que compreende o sofrimento dos povos, tenha aceitado seu prêmio sem pestanejar. Mais do que descrédito, seu comportamento, quando outrora aportou por nossas terras, chega a gerar repulsa, pois até mesmo o supra-sumo da elite inculta brasileira, o sentinela do ócio e da luxúria elitista, a saber, o Sr. Amauri Jr., a tal lhe foi concedida a "honra" de entrevistar o Saramago.

No Brasil, indo além da corrupção dos artistas, quando se fala em política fica ainda mais fácil de identificar os que como o Sr. Saramago utilizam palavras de ordem para tornar-se mais populares entre o povo e entre a mídia.

Estamos fartos das trapaças da pseudo-esquerda brasileira que se alia aos empresários para mover guerras passivas ao patronato. De intelectuais ou pseudo-intelectuais como o Aluízio Mercadante, o José Genoíno ou o Vicentinho que vivem dando seta à esquerda mas que no cruzamento viram à direita, transformando a indiferença das pessoas em moeda eleitoreira.

O caso Raquel dá o que pensar quando contrapomos à paisagem árida de seus livros o cheiro de clorofórmio que exulta do verdadeiro asilo de charlatães ou falsos santos da ABL.

Quando as coisas chegam a esse pé fica mais do que oportuno lembrar o que a literatura significa para um povo. Que tem a ver com clareza e vigor de todo e qualquer pensamento e opinião. Tem a ver com a própria manutenção dos instrumentos, com a rigidez da própria matéria do pensamento em si mesmo. Que salvo nos raros e limitados casos de invenção das artes plásticas, ou na matemática, o indivíduo não pode pensar e comunicar o seu pensamento, o governador e o legislador não podem agir efetivamente ou estruturar suas leis sem as palavras, e a solidez e validade dessas palavras ficam a cargo dos malditos e desprezados litterati. Quando o trabalho deles se deteriora - com isto não estou querendo dizer quando exprimam pensamentos indecorosos, mas quando seu próprio instrumento, a essência mesma de seu trabalho, a aplicação da palavra à coisa se deteriora, isto é, torna-se aguada e inexata, ou então excessiva ou empolada, todo o mecanismo do pensamento e da ordem social e individual fica arruinado - é uma lição da História, e uma lição que ainda não foi bem aprendida.

A ABL ainda aguarda ser desdenhada.

Alessandro Silva
São Paulo, 12/11/2003

 

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