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Quarta-feira, 21/1/2004
As veias iluminadas da baleia cinza
Ana Elisa Ribeiro

Ouvia meu tio dizer que São Paulo era imensa, comia as pessoas, como a baleia que engoliu Gepeto. Imaginei, durante anos, uma cidade de pó e vidro, cheia de pessoas de cores diversas, desalinhadas, misturadas, com os sorrisos perdidos nos bancos de trás dos ônibus de carreira de onde migraram um dia.

Conheci um pouco mais São Paulo quando ouvi Ira. A banda de rock cantava uns preconceitos e mostrava o sotaque bandeirante daquelas plagas. O erre vibrante da fonética das Faculdades de Letras. Os tiques italianos no gesticular e no falar.

Na primeira vez que fui a São Paulo, no entanto, me encantei com a suspensão do Masp, mas algo me decepcionou na cor do céu e na largura da Avenida Paulista. Olhei apaixonada para o Tietê e ele era mesmo como aparecia na televisão. Não vi artistas e nem glamour. Imaginei a história daquela metrópole, os barões, os sobrenomes. E passei a tarde andando de metrô, na rapidez dos trilhos urbanos mais ágeis e mais ricos do país.

Fui a São Paulo muitas vezes, e numa delas vivi uma sensação belíssima. O aeroporto de Congonhas estava fechado, era noite na capital paulista, meus amigos me esperavam lá embaixo e o avião não descia. Não era pane, não era risco. O piloto avisou, pelos alto-falantes, que o presidente Lula estava desembarcando no avião presidencial, e então nenhum outro ser humano poderia descer naquele aeroporto. Questão de segurança. E para minha sorte, todos os muitos aviões que aguardavam pela autorização da torre fizeram uma belíssima ciranda sobre a cidade de São Paulo, e moveram-se num enorme círculo de asas e luzes piscantes sob um céu escuro.

Da janela da aeronave, eu via os aviões diametralmente opostos, a cidade acesa, com suas veias e artérias de luzes espaçadas. Meus olhos se franziam de miopia, cansaço e emoção. E aquela brincadeira de roda durou mais de quinze minutos, enquanto o presidente tomava o rumo de casa.

Quando descemos, senti saudade da sensação de deusa, ao ver Sampa toda de cima, como uma ex-ninfa deitada, já gasta pelo atrito com a história. A cidade me parecia segura e frágil enquanto eu a sobrevoava. As luzes mostravam a inconstância dos fluxos elétricos que aprendi no colégio. Quando desci, já não tinha mais idéia de minha localização naquela imensa baleia brasileira, encalhada no Sudeste.

Quis morar em São Paulo e mudei de idéia. Afinal, não há melhor chão do que o meu, seja lá a pena que isso me custe. Mas, sem dúvida, a capital paulista é uma musa possível. E a ciranda de aviões sobre a cidade é o quadro mais vivo que guardo na memória quando penso em São Paulo.

dá uma dorzinha fuuuuunda
assim, miúda. parece uma carícia meio belisco. enche o peito de ar e provoca ânsia. vem assim, de uma vez. acanha também, principalmente depois que esvazia, e a gente fica sem saber o que fazer o resto do dia, às vezes o resto da vida. entra e sai. mas de um jeito estranho. alivia. ah. acho que é isso: alivia. eu olho, passo a mão, apalpo, apalpo. sinto uns tremores. pequenos. parece fome. parece frio. mas depois que rola, parece um arrepio. de tesão. parece quando acaba o sono. quando morre dormindo. quando morre de tiro. de uma vez. pá. sobe mais do que desce. e a vida cresce. mas só naquele instante. instantâneo. ensandece quando não tem como tirar. depois vira uma pequena pira dentro da idéia. às vezes a gente só arremeda. outras vezes, dá licença, arreda. é isso: escrever é tipo isso. arisco. risco.

eu não sou o que você vê
não sou o que lhe pareço. nem o que quero. sou o que posso, com todos estes vincos e todas as regurgitações que a experiência sopra. duvido que você olhe o que eu olho quando me vejo no espelho. quando me miro, não me observo. apenas me imagino. e mesmo assim posso focalizar mais ou menos certas coisas. sempre reparo nos olhos redondos. eles sempre me parecem maiores que o resto. e as marcas do rosto. a boca me parece secundária. e a cor dela varia. às vezes forte, às vezes clara. sumida diante do resto. os cabelos são uma moldura. mas duvido que você os veja displicentes. e quando me miro, vejo uns olhares fundos, cheios de esconderijos. você, não. você deve ver coisas que não vejo. deve imaginar mulheres que nem cheguei a conhecer. não sei o que lhe parece mais óbvio em meu rosto. seja lá o que mais atraia você, não deve ser a mesma coisa que percebo. aposto na pinta embaixo do olho. talvez você opte por outra marca qualquer, a mancha branca, os dentes amarelados, a marca de expressão ao redor da boca. o certo é que não sou o que lhe pareço. e nem consigo ser, por fora, o que me ocorre por dentro. uma espécie de dorian gray.

Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 21/1/2004

 

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