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Segunda-feira, 17/5/2004
Por que me ufano da América Latina
Andréa Trompczynski

O neurologista inglês Oliver Sacks, em Um Antropólogo em Marte tem uma teoria simples, tão clara e fácil de observar na prática que nem seria necessário um neurologista ter dito isso. Podia ser aquela sua vizinha de infância que sabe todos os provérbios. A adversidade e qualquer pedra no caminho fazem o cérebro dar pulos para se superar e sentidos que nunca imaginávamos que teríamos aparecem e ampliam nossa visão das coisas e capacidade para crescer. Óbvio. Oscar Wilde disse que a verdadeira arte só se faz no inferno. Henfil recusava propostas quando percebia que estava ganhando muito dinheiro porque acreditava que sem dificuldades ele não criaria mais nada. Idealismo que não cabe mais nos nossos dias? Sim. Mas que é bonito pra diabo de se ver, isso é.

Num país sem grandes dificuldades como aqui em cima vejo a maioria dos autores um pouco insossos. Reconheço que ainda estou afetada pela leitura da autobiografia do Garcia Márquez, que terminei ontem, para alegria dos que convivem comigo, que não aguentavam mais. A escabrosa história da Colômbia foi o presente para o Márquez ser o que é. É possível entender o propósito do mal no mundo. E como a perfeição mecânica da vida como um relógio suíço vai matar a arte. Ninguém criará mais nada. Os poetas não se matarão porque vai existir uma super-fluoxetina. Sobreviverá a arte pop e os clássicos serão vistos como fraqueza de espírito, sonhadores ou idealistas. Bobos. Para quê sofrer tanto? Qualidade de vida, isso sim é importante. Viver até os 120 anos para poder ver mais televisão e malhar os Estados Unidos, que é a última moda para parecer antenadíssimo.

O livro do Márquez: primeiro, é uma aula nada convencional, e, por isso mesmo, deliciosa, de como escrever. Você deve, antes de tudo, falar como um grande escritor, mesmo que não seja. Todos devem pensar que você já é. E se o livro estiver só em sua cabeça, faça de conta que já está escrito. Nunca use advérbios terminados em "mente", é feio (essa é a única explicação que ele dá). Morra de medo e vergonha, mas tenha coragem de mostrar seus originais para alguém que você admira. Beba. Sinta culpa. Peque. Perceba que na "escória" da humanidade estão os melhores personagens. Os mais reais. Disfarce sua insegurança com um falso ar de genialidade. Tenha amigos com crítica ácida, é o melhor para você. Leia tudo que você ouvir de quem você admira que é desprezível ou adorável. Imprescindível é ler Joyce. Tudo. Aprenda lendo, aprenda a escrever com os livros. É, sim, necessário dizer o óbvio, que por ser tão óbvio, ninguém diz.

Para quem sonhou junto com José Arcadio Buendía em fazer o daguerreótipo de Deus como prova definitiva de sua existência, enlouqueceu tentando multiplicar o ouro de Úrsula com feitiços de alquimia e teve medo de abrir a porta do quarto, encontrar um quarto idêntico e Prudêncio Aguilar tocar seu ombro, vai ver seus traços no avô. Ursúla Iguaran na mãe, e também na mãe e no pai e seus amores contrariados da juventude, Fermina Daza e Florentino Ariza, e, que a frase mais lírica do mundo foi um fato: "Com esta rosa te entrego minha vida". A paixão pela guerra do coronel Aureliano Buendía. O sábio catalão da livraria em Macondo, Pilar Ternera e o bordel depois de velha, e muitos outros livros e personagens. Que ficaram melhores nas mãos dele. E não se sabe quem imita quem, a vida ou a arte e onde começa uma e a outra acaba.

Ele estava a poucos quarteirões do lugar onde assassinaram Jorge Eliécer Gaitán, na frente do El Gato Preto, 9 de abril de 1948. A guerra civil na Colômbia estava em stand by desde a independência da Espanha, mas o Partido Conservador estava colocando o garrote, após quatro governos consecutivos não admitia perder o posto para os liberais, e havia este homem que hipnotizava multidões com sua oratória, Gaitán. Idolatrado pelo povo como o salvador, nas sextas-feiras, dia sagrado de seus discursos no Teatro Municipal, não se via ninguém na rua. E foi numa dessas sextas que Gabriel acordou do seu torpor literário, e percebeu que o país estava em polvorosa. Do quarto da pensão, percebeu que era o único que não estava no teatro ouvindo Gaitán. Sua voz ressoava pela cidade e até os policiais simpatizavam com o líder liberal. A Marcha do Silêncio foi surreal. Inevitável seria a eleição dos liberais, toda Bogotá obedeceu quando ele pediu para saírem às ruas de luto nas roupas, bandeiras e bocas. No dia anterior Gaitán havia feito um discurso hipnotizante sobre assassinatos de trabalhadores rurais cometidos pelos conservadores. Quando mataram Gaitán, tiros à queima-roupa na calçada, o povo todo enlouqueceu de ódio. Viraram os bondes, lincharam o suspeito (que muitos anos depois, Gabriel lembra, poderia muito bem não ter sido o assassino, porque toda a sinfonia do linchamento foi comandada por um estranho atiçador homem de terno cinza, que ninguém conseguiu explicar quem era e podia estar desviando a atenção do verdadeiro suspeito) e o povo molhava os lenços no sangue para guardar de recordação. Até Fidel estava lá neste dia, um líder estudantil de vinte anos, participando de um congresso. Ele e Márquez, mais tarde se tornam amigos íntimos (confidentes até hoje). Bem mais tarde que seus amigos, ele acorda para o momento político. "Como você pode querer almoçar? Mataram Gaitán!"

Depois de A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista é a melhor homenagem ao jornalismo literário, grande-reportagem ou literatura-jornalística e tantos nomes que existem para vocês-sabem-o-quê. E Gabriel Garcia Márquez parece ser um jornalista que acabou escrevendo contos e romances. Esplêndidos, mas não sua maior paixão. Suas tentativas são hilárias, principalmente, especialmente, preferencialmente a de fazer da triste seção de achados e perdidos do correio uma grande reportagem. Quase não conseguiu superar a vergonha dos amigos depois de publicá-la, foi um dos desastres. Superado com maestria depois com o sucesso que fazia o povo todo esperar na frente das bancas a continuação da história de "Explicação de uma Aventura no Mar", que em 1970 se tornaria o magnífico Relato de um Náufrago.

Sei que é ufanismo, sei que é ideologia. Mas acredito que é preciso ter visto algo mais que justiça, tranquilidade e qualidade de vida para escrever bem.

Vejam, escutem, mataram Gaitán! No meio da rua. Que nada, vamos almoçar.

Para ir além





Andréa Trompczynski
Vancouver, 17/5/2004

 

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