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Sábado, 11/1/1975
Apresentação
Andréa Trompczynski

Quando nasci, minha mãe pensou que eu era filha da mulher do quarto ao lado e que tinham trocado os bebês, porque minha cabeça era meio achatada, como a da vizinha de quarto. Talvez fosse verdade. Mas essa foi a primeira rejeição da minha vida e, quem sabe explique todos os meus traumas posteriores. Quem sabe isso explique todos os meus problemas. Quem sabe eu ouvi a conversa e ela ficou gravada para sempre no meu subconsciente. Quem sabe até hoje tento provar para todos que não tenho cabeça achatada e chamar a atenção para que queiram ficar comigo, e não desfazer a presumida troca. Nunca fiz análise, apesar dos insistentes pedidos do Dr. Sivam, no qual continuei indo por algum tempo, por um imenso respeito, não à psiquiatria mas à perfeita combinação de olhos azuis com cabelos pretos, pele branca, a idade maravilhosa de trinta anos e 1,80m de altura. É necessário silêncio e aceitação de qualquer palavra quando a beleza se apresenta nesses termos. É preciso calar e dizer amém.

O livro é um prazer sensorial para mim. Capas antigas, o cheiro, e, néctar dos deuses, anotações nas margens. Meu sonho de consumo é uma primeira edição de Finnegan's Wake com anotações nas margens da Lígia Fagundes Telles. Não há arte maior que a literatura. Não há arte mais intensa e nem mais difícil. É a única e verdadeira arte. Escrever. Vou em teatro, ouço música, sim. Mas até a HQ para mim está acima da música. Não adianta. No princípio era o verbo.

Sou idólatra, idealista e não me importo com princípios que estão na moda (não é o cúmulo? ter moda até para princípios e opiniões?). Tenho um closet cheio de máscaras que uso para poder sobreviver na sociedade. Só três pessoas no mundo realmente me conhecem, mas eu não sou uma delas.

Os homens são minha forma favorita de design. Não a humanidade, os homens. Anti-feminista convicta, acredito que as super-mulheres perdem o que há de melhor nos homens. Passei por essas fases de queimar sutiã e hoje vejo que certa estava minha avó, não se deve lutar contra a natureza.

Sou uma caipira disfarçada de cosmopolita. Meu único conhecimento do mundo vem dos livros. Desde que talher usar até diferentes línguas, geografia, política, tudo. Não me deslumbro. Sou tão jeca em espírito num restaurante chique como sou no carrinho de cachorro-quente em São Mateus do Sul, interior do interior do Paraná, onde passei três quartos de minha vida. Mas, não sei como, ninguém percebe. Mas eu sei e minha condição de caipira "dos mato" acompanha-me por todos os lugares, e quanto mais fico enfeitada por fora, mais meu espírito fuma paieiros e toma chimarrão sentado num toco de árvore.

Tenho uma estranha sensação de déjà-vu quando conheço coisas novas, é sempre como se já tivesse visto. Como se nada fosse muito novo. Por ter andado por muitos lugares e vivido tantas coisas sem sair do meu quarto. Agora finalmente vendo "de verdade e se mexendo" o mundo, não me deslumbro, não me fascino.

Prefiro os livros.

Andréa Trompczynski
São Mateus do Sul, 11/1/1975

 

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