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Quarta-feira, 2/6/2004
Ler muito e as posições do Kama Sutra
Ana Elisa Ribeiro

Como muita gente sabe, a prensa foi inventada na Europa, mais precisamente na Alemanha. Também foi lá que inventaram o códice, esse tipo de livro que fica em pé nas estantes até hoje, com páginas costuradas e coladas sobre outras páginas. Esse tipo de livro lê-se em pé ou deitado, sentado no vaso sanitário ou em cadeiras de balanço, deitado na rede ou de pé no ônibus lotado. Basta segurar com uma das mãos, de maneira que ele não se feche, e entrar na leitura. Tal tecnologia foi inventada também no Velho Continente por pessoas que buscavam praticidade e formas inteligentes de tornar o livro um objeto portátil.

À medida que o objeto livro mudava de tamanho, de forma, de uso, o leitor (ainda apenas o burguês) também se descobria propenso a outros hábitos e a outras práticas de leitura. Exemplo disso é que a leitura oral deixou de ser a prática mais comum e aceita para se tornar preterida pela recém-"descoberta" leitura silenciosa. Este modo de ler encantava o leitor, que se sentia em relação mais íntima com a obra, detentor solitário da informação, pensativo e magicamente decodificador das letras impressas. Não era necessário oralizar para compreender e nem outras pessoas ouviriam o que se lia. A leitura, agora, podia seguir em segredo, particularizada e dada a reflexões muito pessoais.

E junto com as mudanças de hábitos ligadas à leitura, uma nova forma de ler passou a ser almejada pelo leitor que se pretendia autônomo: a leitura crítica, um método "industrioso" de ler e dar toques pessoais ao que se aprendia. Talvez, também, um método mais "perigoso", uma vez que a leitura ajuda a "pensar". E estamos até hoje tentando fazer com que as pessoas leiam e, mais do que isso, sejam engenhosas nas relações criativas que podem estabelecer entre seus repertórios pessoais e os textos que lêem.

Se antes o leitor estava acostumado e, de certa forma, condicionado às leituras coletivas, às sociedades e gabinetes de leitura (europeus, norte-americanos e brasileiros, principalmente no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Minas), com a leitura silenciosa ele pode refletir sozinho e aguçar seu senso crítico, desejável e precioso para a formação do letrado. Mas trocar idéias sempre foi vontade de quem tem algo a dizer sobre o que leu, de quem gosta de polêmica ou de quem quer apenas compartilhar assuntos e formatos.

Em Minas, no século XVIII, foram abafadas algumas tentativas de formação de sociedades de leitura, uma vez que um estado escondido entre montanhas, no interior do país, tão distante da fiscalização da corte, poderia representar perigo na constituição iminente de um público leitor cheio de idéias, críticas e asinhas de fora. Assim é que se sabe do parecer interessante do Visconde de Cayru sobre uma sociedade de leitura em São João del-Rei: "Ainda que sejam úteis as sociedades puramente Litterarias", "que se pode esperar de hum Estalebecimento excentrico e sem base?".

Além desse questionamento, o Visconde ainda escreveu que a "liberdade de pensamento e expressão, em todos os assumptos de conhecimentos humanos" poderia "implicar com a Religião e Politica" [grifos do autor]. E para ficar de acordo com a "lei" e driblar as negativas do parecerista, os autores do projeto estipularam um artigo que, aos olhos do Visconde, era "insufficiente": "Poder-se-ha interromper e rejeitar a leitura, quando escandalizar o systema politico e religioso, ou o decoro civil". Sobre o perigo de haver leitores nas Minas, eis os motivos: "tão remota da Corte, e sem Inspecção de Authoridade".

Pensando nas práticas de leitura atuais e nas tentativas escolares de "educar" leitores críticos, por onde anda o desafio de formar cidadãos letrados? O que fazer com um aluno que lê pouco e lê mal, mesmo em cursos como História e Letras? Como lidar com a disseminação da informação aos borbotões, pela televisão, pelos livros, pela Internet, o que dá certa impressão de acessibilidade, mas, de fato, produz reflexões generalistas e homogeneizadas sobre análises superficiais de assuntos alçados a uma importância questionável?

Do lado oposto aos que tentam levar leitura e engenhosidade a todos ainda estão muitos viscondes de Cayru. Para quem não quer parar de tentar, apesar do cansaço, restam os livros e as histórias do Visconde de Sabugosa.

Conto
Um dia, um norte-americano, em plena guerra do Iraque, aportou nas Minas Gerais e conheceu uma mocinha vinte anos mais nova e o cara tocava guitarra e dizia que era um blueseiro original, diretamente de Portland, terra da chuva, para Belo Horizonte, que diz ele que tem o melhor clima do mundo, e o americano tomava suco de manga, cantava em inglês, curtia Tom Jobim e tinha uma cicatriz na nuca, mas jamais perderia o charme se continuasse com aquele corpão de 18 anos, e o cara compôs um blues You can't have it all ao lado de uma fogueira enquanto eu tomava minha vodca com limão e o fazia se lembrar dos avós judeus russos, e ele me dizia que venderia uma casa, um carro, que gosta mais de gatos do que de cães, que tinha medo da minha juventude, que surfava no Hawaii, que conhecia o mundo e mais um pouco, que não sentia insegurança em BH, que voltaria, sim, com certeza, voltaria, baby, e se eu podia ajudá-lo a encontrar um apartamento pra alugar que era em BH mesmo que ele queria ficar, o americano não falava na guerra, mas curtia coisas bacanas, vestia camisas pólo, não conhecia Frida Kahlo, ficou conhecendo a senhora Rivera num cinema de shopping, naquele domingão à noite, mesmo dia em que conheceu a expressão 'que porra é essa?' e passou a usar 'queimar o filme' com mais freqüência, um americano que gostava de grão-de-bico, chamava isso de humos, queria comer comida italiana em Minas e elogiava os tomates secos, também curtia o azedo do maracujá e os beijos franceses das brasileiras, ele dizia que era artista, perguntava pelas pessoas da cidade, dizia que Toninho Horta era foda, que as montanhas são lindas e que só se casaria novamente por amor, jamais pelo visto permanente, Frida ia e vinha, falava espanhol às vezes, e o americano dizia que conheceu o México, chamava minha melhor amiga pelo apelido, que aprendeu comigo, disse que acha que o filho está bem nos EUA, que eu pareço ser amante de um outro guitarrista, até me perguntou se tenho fetiche com guitarras, não o vi tomando álcool até hoje, mas ele diz que toma, diz que é pra eu caminhar vinte minutos por dia, ao que eu respondo com cara de bosta, aprendeu semana passada que 'shit' é merda em português e acha meu inglês sexy, diz que tenho sotaque indefinido, que eu falo formalmente, e eu faço pirraça, 'tá no meu país, porra, vai falar a minha língua', e tenho medo de vingança, polícia lingüística, e odeio quando brasileiros idiotas treinam inglês com ele, mas o americano fica no hotel, ali na Tupis, e eu fico em casa, ali na montanha, feriadão, não tem nada pra comer, mousse de maracujá pra fazer par com o suco, não chupei chicletes hoje, mas tive vontade, mas beijar com chiclete exige manobra, tomei água, escrevi uns versos e fechei mais um dia da minha biografia tosca, mineira por gosto, virginiana por acidente, severa que nem doença, gripada quando muda o tempo, belo-horizontina por contraste, notívaga por questões biológicas, aliás, o que diria o dr. Sérgio Penna?

Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 2/6/2004

 

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