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Quarta-feira, 25/7/2001
Deus
Paulo Polzonoff Jr

Estava indo de volta para casa depois de dez horas de trabalho quase que ininterrupto, movido a café e uma pequena dose de paixão pela menina que trabalha na lanchonete ao lado. Estava cheio de uma esperança sonsa de me ver novamente com alguém, aquela coisa boba toda que vocês já sentiram. Para ir para casa, contudo, tenho de caminhar bastante, e nestes caminhos quase sempre desando a pensar um milhão de coisas que me são mais inúteis que o contrário. Neste dia, ali na altura do Colégio Estadual, pensava eu em como seria difícil encarar aquela menina logo mais à noite. Depois, em frente ao Hospital das Clínicas, olhava para a fachada com centenas de janelas e pensava nas moléstias de todos os doentes que ali habitavam aquele antro de vida e morte. Um pouco mais adiante, na Livraria do Chain, eu vi Deus.

Não foi algo em que eu acreditasse de súbito. Sou um incrédulo por natureza. Desconfio destas coisas ditas sobrenaturais. Tanto que passei pela livraria, vi Deus e continuei andando. Quando me toquei, uns dez metros depois, voltei e fui conferir: era ele mesmo, folheando um livro qualquer na estante próxima à porta.

Deus vestia um agasalho azul e usava boné. A calça parecia ser de tergal - coisa que pude constar com meu vasto conhecimento em se tratando de tecidos de calças masculinas para se vestir entidades espirituais acima dos homens. O boné escondia-lhe os cabelos que teimavam em escorrer brancos por trás. A cara sisuda fez que não me viu, concentrou o olhar no livro.

Não me dei por rogado e também fui embora, sem lhe dar um oizinho sequer. Não me arrependo.

Deus já me fez passar vergonha algumas vezes. A primeira, há uns sete anos, andei feito um louco atrás de um velhinho que eu tinha certeza ser ele. Não era. O velhinho morava longe, longe, longe e eu atrás do velhinho, criando coragem para com ele falar. Quando o velhinho entrou numa casa, porém, dei-me conta da minha covardia e do quanto estava longe de casa. Além de, claro, ter percebido que aquele não era Deus. Isso foi há sete anos.

Há dois anos fiz coisa pior. Estava num café, justamente falando sobre Deus para uma menina. Foi quando eu invoquei que um dos homens sentados numa mesa era o Tal. E eu fiquei todo nervoso porque estava com a menina e porque queria desesperadamente falar com Deus. Até que, quando paguei a conta, fui ter com ele. O homem foi todo polido, mas me disse, com uma expressão de pena nos olhos: "Eu não sou Deus".

Foi então que desisti de ver Deus.

O Deus em questão já foi tachado de tudo, menos de Deus. Esta cidade adora atacá-lo, até porque é seu bem mais precioso. Ele é considerado, nas esquinas, pelas velhinhas católicas baba-hóstia de Dom Pedro Fedalto, um pervertido. Incestuoso. Um monstro que deveria estar preso. Pelas alunas de Biblioteconomia da Universidade Federal do Paraná, com as quais eu tive o desgosto de ter algumas aulas, ele é tido como um pornógrafo e analfabeto. Ele, analfabeto! Para a maioira dos pseudo-letrados, contudo, ele vai ser sempre mesmo o vampiro: o vampiro de Curitiba.

Não, senhores, ele é Deus.

Dalton Trevisan mora a três quadras de minha casa. A dele ocupa um imenso terreno de esquina na Amintas de Barros com a Ubaldino do Amaral. É uma casa velha e pequena, pintada de um cinza carcomido pelo tempo e com algumas pichações ilegíveis ao longo do muro alto que contorna todo o terreno. Claro que, passando ali perto, já tentei escalar o muro para ver o que havia por detrás. Um imenso gramado verde, é o que se vê, sempre bem cuidado e vazio. As janelas da casa de Dalton Trevisan são grandes e anacrônicas. Dentro, percebe-se uma tênue cortina a abafar a claridade que vem da rua. Jamais foi vista sombra de vivalma lá dentro. Há uma porta, que dá para a Amintas de Barros, que está sempre, dia e noite, entreaberta. Mistério.

Os mistérios da literatura de Dalton Trevisan me foram ensinados cedo, ainda no Segundo Grau. Uma professora qualquer nos dizia que era um dos principais nomes, coisa e tal, mas não explicava por quê. Lá vai o idiota aqui pesquisar. Peguei um livro a esmo na biblioteca do colégio, livro que jamais devolvi, diga-se de passagem. Era o mais famoso dele, O Vampiro e a Polaquinha. Na época, não consegui ler nem o primeiro conto. Desisti. Naquela época eu desistia de tudo.

Mais tarde um professor extremamente influente na minha vida falou novamente em Dalton Trevisan. Explicou-me o poder das elipses na prosa dele. E todo o universo trevisaniano, que extrapola os limites da Cidade Sorriso. Só então eu descobri a genialidade nele.

Sou curioso para saber como lêem Dalton Trevisan os que não moram em Curitiba. Como imaginam o Passeio Público, o Gato Preto, a Ponte Preta, o Rio Ivo, o Operário e outros lugares que rondam a prosa de Dalton Trevisan. Sei, bem sei, sei bem e faço saber desde já que sei que a Curitiba de Dalton é também sua Macondo, pouco condizendo com a realidade da cidade. Estar aqui, porém, e passear no Passeio Público, é perceber Nelsinhos em toda parte, passando uma conversa na Polaquinha com mala do Positivo, aquela coisa toda.

Dalton Trevisan não se deixa fotografar. Dizem que é marketing mas eu acho que é pura inteligência. Não somos donos do nosso passado, nem da nossa memória; que sejamos, então, donos ao menos de nossa imagem no presente. Que tenhamos o direito de cedê-la somente a quem nos interessa. Só que - quem nos interessa?

Estranhamente foi graças a uma imagem "roubada" de Dalton Trevisan, publicada há alguns anos na Veja, é que pude reconhecê-lo. Reconhecer Deus. Na foto ele aparece com o mesmo casaco que usava no dia em que o vi.

Ou será que não era ele?

Paulo Polzonoff Jr
Rio de Janeiro, 25/7/2001

 

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