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Quinta-feira, 26/7/2001
Realidade & Ficção
Adriana Baggio

Chame o ladrão!

Na semana passada, meu professor foi assaltado em Recife por três homens armados. Os "elementos" tinham acabado de passar por uma revista policial, e tinham sido liberados. Ao dar queixa na delegacia e cobrar uma providência, o professor ouviu que deveria dar graças a Deus por estar vivo, e não complicar a situação mais ainda. Mais tarde, ao descrever o assalto a um amigo com ligações na polícia, descobriu que tinha sido assaltado por policiais. A maneira como foi feita a revista durante o assalto e outros aspectos característicos foram a assinatura deixada pelos assaltantes-policiais. Sem falar na conivência dos colegas que permitiram que passassem livres pela blitz.

Esse amigo do meu professor disse ainda que muitas das pessoas que fizeram os saques e assaltos durante a greve da polícia em Salvador eram policiais. O objetivo, claro, era causar pânico e mostrar o caos em que a cidade fica sem eles.

Será que tudo isso que está escrito acima é a mais pura verdade, em todos os detalhes? Não sei, não tenho provas. Mas tenho muito mais motivos para acreditar no meu professor do que na polícia. É por isso, que, na dúvida, chame o ladrão.

É palavrão?

Faz algum tempo que tenho visto o nome da próxima novela do SBT nas notícias sobre TV: Pícara Sonhadora. Achei estranho, parece palavrão, mas como não vi nenhum comentário, achei que eu era a única a estranhar. Fui procurar a palavra no dicionário, para não ficar com idéias tolas. O bom e velho Aurélio (versão para computador) diz o seguinte:

[Do esp. pícaro.]
Adj.
1. Ardiloso, astuto, velhaco, patife, vigarista.
2. Fino, esperto, sagaz.
3. V. picaresco (1).
S. m.
4. Indivíduo pícaro
5. Liter. Tipo de personagem travessa, bufona, ardilosa, que vive de expedientes, a expensas das várias classes da sociedade.
[Fem.: pícara. Cf. picara, do v. picar.]

Mesmo com essas definições, ainda fiquei no escuro. Como "sonhadora" é um adjetivo, acredito que no nome a palavra "pícara" deve ser um substantivo. Mas nenhuma das definições do substantivo no dicionário combina com o adjetivo. Uma pessoa travessa, bufona (me lembra um personagem de Molière), mas também sonhadora? Não entendi. Se alguém souber, por favor explique.

Viva a concorrência!

João Pessoa passou anos com apenas 5 salas de cinema: 2 no Shopping Manaíra, uma no Shopping Sul, um cinema Municipal e um cinema no Espaço Cultural da cidade. O cinema Municipal passa somente filmes pornô. O cinema do Espaço Cultural abre somente duas sessões nas sextas, sábados e domingos. Dia de semana que é bom, fica fechado. Mas pelo menos lá passam filmes nacionais, "de arte", fora do circuito comercial.As outras salas dividem os poucos lançamentos que chegam à cidade, normalmente com atraso. Agora, por exemplo, no Shopping Manaíra, podemos escolher entre Parque dos Dinossauros III ou Pokémon. Que maravilha, hein?

Mas o pior das salas deste shopping não é a programação, e sim a higiene. O cinema cheira a mofo e urina. O chão é imundo, cheio de copos, sacos de pipoca, restos de lanche jogados. Com certeza os freqüentadores são pessimamente educados, mas o pessoal do cinema também não colabora.

Finalmente, o Mag Shopping, estabelecimento concorrente, estará inaugurando em agosto um multiplex com 5 salas. O próprio Shopping Manaíra vai inaugurar mais 8 salas no mesmo sistema.

Espero que a variedade de salas signifique também uma maior variedade - e qualidade - na programação. E também na higiene, porque meu cachorro já está reclamando das pulgas que eu levo para casa.

É um homem ou um coelho?

Vocês já devem ter visto a propaganda do Honda Civic. São 2 filmes diferentes. Em um deles, o namorado chega na casa da namorada, que o espera com um jantar caprichado, mesa arrumada, como mostra o cenário. O moço chega, arrasta a namorada para o quarto, transa com ela (é o que sugere a cena) e sai correndo de volta para o seu carro, para poder curtir com calma seu Honda Civic. Ah, a moça ficou na cama, como um sorriso idiota no rosto (só em ficção para uma mulher ficar satisfeita depois de uma transadinha rápida dessas, sem o jantar que ela havia preparado e sem as preliminares que ela deve gostar).

Faça-me o favor! Que coisa mais ridícula! Espero que nenhuma mulher compre esse carro! Se as pessoas que criaram esse anúncio são do sexo masculino, tomara que não tratem suas namoradas e mulheres da mesma maneira. Se não elas também podem exercer seu direito de consumidoras e trocar de parceiros! E se forem do sexo feminino, pior ainda! Estão contribuindo para que as questões femininas sejam cada vez menos respeitadas.

Outra falta de adequação desta campanha, desta vez de técnica, não de conteúdo: a idéia central, alguma coisa como "um carro tão bom que você vai fazer tudo rapidamente para poder voltar logo para ele", é muito bem comunicada em um meio como a televisão. A tentativa de colocar a mesma linguagem em um meio diferente, como a revista, faz com que a comunicação perca todo o impacto. Na revista, aparecem as cenas lado a lado, com o respectivo horário, para mostrar ações que normalmente levariam mais tempo para serem feitas, acontecerem rapidamente para que o protagonista volte ao carro para curti-lo. Haja paciência do leitor. Quantos serão motivados a ler e entender um anúncio destes? Acho que poucos.

Só falta agora alguém vir me dizer que a Honda teve um aumento de vendas e que a campanha ganhou prêmio. Aí eu vou pedir pra parar o mundo para que eu possa descer, porque com certeza peguei o bonde errado.


Adriana Baggio
Curitiba, 26/7/2001

 

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