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Terça-feira, 31/8/2004
Vania Abreu tão perto e tão longe da Multidão
Fabio Silvestre Cardoso

À primeira vista, a cantora Vânia Abreu está sozinha em seu quarto álbum, Eu sou a multidão (Páginas do Mar, 2004). Um dos indícios que traz essa sensação é a capa do disco. Ali, Vânia está só, em pleno viaduto do Chá, no chamado "Centro Velho" da cidade de São Paulo. Logo que se ouve a primeira canção do álbum, no entanto, essa impressão sai de cena. Surge, em contrapartida, uma pulsão que deseja o contrário. É um jogo de forças que segue, sobretudo, na canção-título, na abertura deste disco. Isso porque, ao mesmo tempo em que a letra é intimista, o arranjo traz consigo a participação de muitos instrumentos. E o mais interessante é que essa contradição acaba por articular letra e melodia. Na medida em que a letra enfatiza o contraste: "Com a alma deserta/ Busco a multidão/ Meu quarto me aperta/ Tal a imensidão/ E a cidade alerta/ Nem presta atenção", o arranjo, com direito a samplers e percussão, representa o conjunto.

Ainda acerca dessa primeira canção, nota-se uma preocupação por parte de Vânia Abreu em fazer um álbum conceitual. É a própria cantora, inclusive, quem aponta esse detalhe ao falar do disco: "Não pertenço a nenhum movimento artístico; não tenho tribo. Apesar e justamente por causa disto sou uma pessoa deste tempo. Deste tempo sem muitos sonhos coletivos, de uma sociedade de mercado". Apesar da ressalva sociológica, Vânia Abreu não segue fielmente suas "palavras de ordem". Com efeito, o único princípio que parece guiar a cantora do início ao fim do disco é o de interpretar as canções mesclando sensibilidade e técnica, às vezes pendendo para um dos lados, mas sempre em busca do equilíbrio, como no exemplo da primeira música.

Assim, a partir da segunda faixa, "Imaculada Oração", a temática sociológica dá lugar aos ritmos (quase) regionais e a uma letra que ensaia um sincretismo religioso, como segue no refrão: "Alá, Shalom, Amém, Axé/ O Aiyé pode ter o Buda/ O Zeus, o deus que quiser". Aqui, a melodia também desempenha um papel fundamental, com uma percussão que marca tempo e é muito mais do que coadjuvante no instrumental: além da bateria, há os atabaques, xequeré e agogô. É possível notar, ainda, que a canção é mesmo uma espécie de oração, um mantra, sempre iniciado pelas palavras: "Imaculada Oração".

O ritmo desta última música cede espaço para a o tom harmonioso dos teclados de João Cristal em "Minha Canção", de Chico Buarque. É a única vez que a voz de Vânia Abreu soa sem personalidade, sem o grifo da intérprete. Talvez seja o fato de ser de um compositor tão reconhecido. Desse modo, para o bem e para o mal, a intérprete opta por uma versão sóbria (até demais) para a música. Trata-se de um tratamento absolutamente distinto do que é dado à "A Minha Alma - a paz que eu não quero", do grupo carioca O Rappa. Nela, Vânia entra no ritmo das guitarras e da percussão. E o ápice está no trecho exato: "Me abrace, me dê um beijo/ Faça um filho comigo/ Mas não me deixe sentar na poltrona no dia de domingo". Decerto que é muito diferente da original, entoada por Falcão, contudo, é uma releitura bem realizada, sem mencionar os arranjos, que não fogem do tom que a letra da música pede.

A propósito dos músicos, compostos por violonista, baixista, tecladista e os já citados percussionistas, é necessário dizer que eles dão uma unidade essencial ao álbum. Em especial os violões, executados por Paulo Dáflin. O violão é o único instrumento que se mantém do início ao fim do disco, acompanhando, ora de perto, ora de longe, a voz de Vânia Abreu. Em "À Beça", por exemplo, as cordas são parte eminente na harmonia. Tanto na base, feita com violões de aço, quanto nos solos de guitarra. É o solo, aliás, que dá à letra uma fluência, visto que a repetição do refrão chega a ser exaustiva.

"Meu Querido Santo Antônio" traz outra oração, desta vez mais intimista, como se fosse um lamento, muito bem pontuado pela melodia. O leitor, ao ouvir o disco, verá que o trecho a seguir merece destaque: "Meu coração pequenininho/ Já não agüenta mais sofrer/ Meu querido Santo Antônio/ Vem aqui me socorrer". Novamente, não se sabe se propositalmente ou não, o disco alterna canções mais sóbrias com músicas dançantes, daquelas que tanto a letra como a harmonia - e, por conseguinte, o ritmo - não deixam o ouvinte parado, como em "Pra Falar de Amor". Entretanto, nem todas possuem o mesmo vigor poético. Desse modo, sobram trechos que beiram o nonsense, a saber: "Esqueça/ A cabeça/ As malas, os caretas/ Desapareça da sala/ Da rua, do prédio, do planeta".

Se em algumas faltam, outras têm de sobra. Exemplo disso são as primeiras estrofes de "Alcaçuz", composição de Chico César: "Todo o ouro que o rei tiver/ não é como as estrelas que terei/ Se um dia você vier/ Mesmo o mundo, o céu, a terra, a imensidão, cintilações são sem você/ O que então eu serei". Aqui, mais uma vez, o arranjo é parte essencial da construção da música.

A última faixa é "De Volta ao Cais". Letra e melodia desempenham um papel equânime. Assim, quando uma sobressai a outra aguarda, de forma cadenciada, em segundo plano. E essa ambivalência, que é expressa em cada trecho, concorda para o canto de Vânia Abreu. De fato, é esse o elemento que parece permear todo o álbum, em que pese a pretensão conceitual das temáticas e do discurso da cantora. Em outras palavras, é na voz de Vânia Abreu que Eu Sou a Multidão ganha coerência, uma vez que até mesmo o repertório escolhido pela intérprete é variado, com canções que vão do regional ao pop-rock, sem deixar de passar pela MPB. Ao final, os conceitos temáticos, tão importantes num primeiro momento, são, para o bem e para o mal, esquecidos, dando preferência a um quesito que é muito mais relevante do ponto de vista artístico: a música.

Para ir além


Fabio Silvestre Cardoso
São Paulo, 31/8/2004

 

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