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Segunda-feira, 13/9/2004
As garotas do Carlão
Lucas Rodrigues Pires

Carlos Reichenbach é um dos poucos autores do cinema brasileiro dos anos 70 que permanecem até hoje na ativa. Depois de Dois Córregos, de 1998, quando buscou na lembrança o convívio com um tio comunista, ele realizou Garotas do ABC, uma forma pessoal de abordar uma questão social que se faz urgente e necessária.

O filme trata do cotidiano de um grupo de operárias na Tecelagem Mazini, no ABC paulista. São diversas mulheres, de diferentes cores e idades, que se encontram todos os dias numa rotina de trabalho junto ao maquinário. Entre chegar, se vestir, trabalhar, almoçar e o fim do expediente, conversam sobre suas vidas, seus problemas e possibilidades. A personagem principal é Aurélia Schwarzenegga, chamada assim por sua paixão pelo ator hoje governador da Califórnia. Ela é a filha de uma família negra de classe média baixa e namora um rapaz branco que anda com um grupo de neonazistas. Aliás, esse é o segundo foco do filme. Se no primeiro a presença feminina predomina, é no Bilhar Modelo o ponto de encontro dos racistas neofascistas liderados por Salesiano (Selton Mello, que tem, assim como em Lavoura Arcaica, uma dicção que quase não se entende o que ele fala). Esses dois grupos irão se cruzar após os neonazistas espancarem dois nordestinos e explodirem as dependências do Cantinho do Nordeste, um boteco freqüentado por trabalhadores nordestinos. O motivo da agressão: o irmão de um deles foi demitido da metalúrgica para dar lugar aos dois pernambucanos surrados. Eis o universo retratado por Carlão em Garotas do ABC, uma mistura de sobrevivência da afetividade feminina ante a violência burra masculina.

Dentro do cinema de Reichenbach, o feminino é um dos temas mais freqüentes. É por um viés feminino que se desenvolve Dois Córregos, na relação de três mulheres com o comunista vivido por Carlos Alberto Ricceli, e também Anjos do Arrabalde, em que a professora vivida por Betty Faria, uma das atrizes preferidas do diretor, e outras professoras suburbanas vivem a crueza do cotidiano. Em Garotas do ABC, o diretor permanece em seu universo e tem total controle de suas atrizes, a maioria novata. A órbita masculina está em segundo plano, eles são coadjuvantes no ABC. Mesmo o jornalista de Ênio Gonçalves e o sindicalista André Luis (Dionísio Neto) - figuras que antagonizam os personagens masculinos da gangue de neonazista - estão ao redor, nunca no centro da trama.

Garotas do ABC começa com uma cena que vai ficar na história do cinema brasileiro contemporâneo. Um travelling introduz as fotos penduradas na parede de uma casa até chegar ao quarto de uma jovem negra (Aurélia, interpretada pela novata Michelle Valle) que dança nua ao som da soul music de Sam Ray (uma ficção do diretor que serve de porta-voz para a criação dos músicos Nelson Ayres e Marcos Levy, responsáveis pela trilha e que buscaram se aproximar da música de Marvin Gaye). Dentro do quarto, as paredes estão infestadas de cartazes e fotos do ator Arnold Schwarzenegger. Aurélia começa a se vestir, desde a calcinha até a blusa, sem parar um segundo de dançar. A câmera fixa-se nela e aproxima-se lentamente para depois recuar até que ela termine seu ritual. O corpo negro e nu da atriz reluz maravilhosamente diante da câmera, e a música envolvente com a dança sensual seduz quem assiste logo de cara. Está apresentada a personagem principal.

Ao mesmo tempo em que as garotas são retratadas com muita compaixão e proximidade pelo diretor, os neonazistas, a facção da extrema-direita xenófoba, são seu oposto. São retratados como porcos chauvinistas, ignorantes e manipuláveis por uma mente um tanto mais evoluída que a deles - a do Dr. Salesiano, formado em Direito e líder da seita que tem como inspiradores nomes como Spengler e Plínio Salgado. A atuação do grupo é sempre pendente ao cômico, com Selton Mello caracterizado como um intelectual que cita discursos racistas para esconder sua mediocridade. São todos perdidos, agem por agir, sem convicções reais, mas criados pelo próprio fracasso, pelo próprio medo. Cômico ver um grupo de neonazistas agindo e quando chegam para deixar seu recado na parede do alvo não sabem o que escrever. Aí um deles pergunta a Salesiano, "mas o que eu escrevo?". Ouve-se a resposta: "Ah, sei lá, põe qualquer coisa, 'Baianos, go home!'". Tem-se durante todo o filme esse retrato do movimento sem ideologia real, sem fundamento, sem convicção. Eis a idéia de Carlão e o que ele quis mostrar com Garotas do ABC, tanto que termina o filme ao som de Sarará Crioulo e a frase "Todo brasileiro tem sangue crioulo". Carlão faz uma ode à miscigenação, ao brasileiro que não é uma só raça, mas todas.

O filme se torna mais atual quando se lê sobre mortes de mendigos e ataques de skinheads no metro. Sem contar os Carecas do ABC, inspiração explícita para o bando de neofascistas de Salesiano. Reichenbach quer demonstrar que a xenofobia e o racismo não apresentam fundamento nenhum. Por isso coloca personagens boçais como todo o grupo neonazista, alguns em crise (como Fábio, o namorado de Aurélia, dividido entre os conselhos dos amigos racistas e o amor pela namorada negra, e o contador, que visivelmente é um nerd misógino afetado mentalmente). Da turma deles, apenas Salesiano se salva, mas dentro de sua derrota e solidão. Seu discurso final, assim como quase todos no filme, foi tirado da obra A Decadência do Ocidente, de Oswald Spengler, um dos autores que influenciaram Hitler, e mostra um indivíduo já louco, isolado, sem mais ouvintes (a câmera reitera isso ao filmar de baixo para cima e girando ao seu redor). Ao final de tudo, um livro de Plínio Salgado, fundador do movimento fascista nacional nos anos 30, o Integralismo, desfaz-se nas ondas do mar enquanto Salesiano profere seu epílogo.

Intelectual do cinema, Carlão fez uma homenagem ao cinema e principalmente a alguns colegas do Cinema Novo e Marginal. Há diversas citações no decorrer do filme e é uma delícia quando se detecta uma delas. Rogério Sganzerla, criador de O Bandido da Luz Vermelha, é uma referência na pichação deixada no boteco explodido pelos neonazistas (eles escrevem "Quem tiver sem sapato não sobra", invertendo a pseudoprofecia contida no clássico maior do Cinema Marginal) e José Mojica Marins, o Zé do Caixão, aparece rapidamente numa entrevista na TV. Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, é citado quando do decepamento de cabeças e não é à toa a câmera girar incessantemente ao redor de Salesiano enquanto este profere um discurso ao vazio. Além disso, uma autocitação do diretor: os cartazes nos muros chamando a atenção para Bens Confiscados, com Betty Faria (este é um filme que Carlão já terminou e espera por distribuição).

Outros cineastas são reverenciados, como Fritz Lang ao vermos a tatuagem do símbolo do Integralismo nas costas de Salesiano e a câmera se entorta para o "e" virar um "m" (de M., o Vampiro de Dusseldorf, filme de Lang, sugerindo uma analogia entre os personagens), e o Francis Ford Coppola de Apocalipse Now, na cena em que aviões voam ensandecidos em direção ao inimigo ao som de Wagner (como é sabido, Richard Wagner era o compositor preferido de Hitler). Em Garotas do ABC, Carlão compõe uma cena similar com os neonazistas rumando (pela nova Imigrantes) ao Clube Democrático para botar pra quebrar num carro rodeado de motos e os acordes de Wagner a todo vapor.

Para o diretor, fazer cinema é um prazer enorme que ele parece dividir com seus amigos e espectadores. Salve, Carlão, que nos brinde com mais garotas como essas.

Lucas Rodrigues Pires
São Paulo, 13/9/2004

 

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